Há filmes que simplesmente se tornam desnecessários quando vistos com mais atenção. Em 2003, os irmãos Wachowski mostraram isso ao jogarem no mundo o seu Matrix Reloaded: sem acrescentar praticamente nada de útil à história central, o filme foi claramente feito com o intento de se montar uma trilogia. Confesso que até estava confiante quando Peter Jackson anunciou que a adaptação do livro O Hobbit seria em duas partes - embora achando que um filme de 4 horas desse conta, até que repensei e acabei concordando com a divisão em duas partes. Elas seriam suficientes. Porém, pouco antes da estréia de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012), o diretor anunciou que a obra ganharia mais um capítulo, formando a trilogia (numa clara tentativa de se igualar ao Senhor dos Anéis (2001-2003). Há um problema central nessa escolha: o livro sobre as aventuras de Bilbo Bolseiro tem cerca de 1/4 do tamanho do Senhor dos Anéis. Desse modo, ficou claro desde o começo que o diretor Peter Jackson tomaria liberdades maiores do que as que tomou na trilogia anterior e teria de inventar passagens para produzir 3 filmes com quase 3 horas de duração cada.
Quando assisti ao O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, tive a surpresa de que ocorreu justamente o contrário: o filme é extremamente longo e cansativo não por causa de invencionices, mas justamente pela decisão do diretor de simplesmente ser literal demais, levando às telas cada trecho do livro. Dessa vez, porém, com a simples justificativa de que era necessário transformar 2 filmes em 3, Jackson assassina finalmente a obra de Tolkien, deixando pouquíssimos elementos originais na tela e, o pior, errando a mão em cada elemento novo que traz ao público. O Hobbit: A Desolação de Smaugé um filme que não precisaria ter sido feito e, tornando-se real, é uma das piores coisas lançadas nesse já fraquíssimo ano cinematográfico de 2013.
Fazendo um esforço hercúleo, pude enxergar dois pontos positivos no filme: 1) em uma passagem na Floresta Negra (Mirkwood), quando os anões são atacados por aranhas gigantes, Bilbo coloca o Anel e passa a ouvir vozes dos aracnídeos - isso é algo que reclamei sobre a ausência no primeiro filme, já que os animais falam no livro... contudo, no filme, só falam quando estão no "outro lado", quando Bilbo bota o Anel e vê o mundo diferente; 2) Smaug é realmente impressionante do ponto de vista técnico: num filme em que a computação gráfica é, no geral, muito ruim (claramente percebe-se que certos personagens são feitos em CG), o dragão surge como uma grata surpresa, mas deixa a questão: ele só parece impressionante porque todas as passagens ocorrem em ambientes de pouca luz? De qualquer modo, a captação facial e o vozeirão de Benedict Cumberbatch, é um passo além do belo trabalho que vem sendo realizado desde o Gollum do Senhor dos Anéis.
Afora esses pontos acima mencionados, o filme é um desastre e deixa-nos realmente desolados... Peter Jackson esforça-se para acabar de vez com a obra original ao optar por um tom extremamente sombrio nesse segundo filme. O pior é que é um tom sombrio que simplesmente não reflete nas personagens: você não consegue sentir angústia ou sofrimento neles e não sei se isso é falha de roteiro (que acredito ser) ou falha de interpretação (que também não descarto). A impressão que me fica é a de que Peter Jackson desencanou nessa trilogia do Hobbit: ele fez um trabalho tão bom nos filmes anteriores que, me parece, isso justifica todas as suas faltas para com os filmes novos.
E o que dizer de Beorn, uma figura interessante no livro e que, aqui, não tem a sua presença justificada? Seu aparecimento é tão rápido e desconexo que não dá pra engolir a retirada de Tom Bombadil da trilogia anterior: se fosse pra fazer algo tão superficial quanto fizeram com Beorn, deixassem o velho Tom em cena. Enfim, Beorn chega, fala umas 5 frases, e some parta não voltar. Sem contar que sua aparição como urso é muito grosseira, deixando claro que empregaram uma computação gráfica que não está à altura do orçamento gigantesco dos filmes. Outro ponto extremamente negativo no filme é a figura da belíssima-semi-deusa Evangeline Lilly (a Kate de Lost) como a elfa Tauriel: não tenho nada contra a inserção de personagens novos no filme, porém, Tauriel não se justifica. Ela existe apenas para mostrar que é a versão feminina de Legolas e para estabelecer uma historieta paralela dentro do filme simplesmente fútil: sua paixonite pelo anão Kili. Não entendo a necessidade de se colocar elementos românticos numa história em que nada disso acontece... De qualquer modo, se for fazer, que se faça direito, e não torno tudo em um martírio aos espectadores, já que as cenas são longas demais e quebram o fraquíssimo ritmo do filme.
Muitos podem dizer que o filme tem um ritmo alucinante. Bom, se por ritmo entende-se "batalhas atrás de batalhas", então eu teria de concordar. Isso é o que mais acontece em O Hobbit: A Desolação de Smaug: batalhas, batalhas e batalhas. Batalhas que não desenvolvem o filme em nenhum aspecto. Longas batalhas que fazem a gente pensar "falta muito para acabar?". Eternas batalhas que levam o filme a seus 160 minutos de tortura. Não há tempo para se desenvolver nenhum dos personagens nesse segundo filme (lembrem-se, eram 2 filmes que se tornaram 3, então teriam de "encher linguiça" em algum momento), pois eles estão lutando a todo momento! Assistir a mais de duas horas e meia de batalhas (bem feitas e coreografadas, tenho de concordar) é cansativo demais. Temos uns 15 personagens principais em cena e não descobrimos praticamente nada deles nesse tempo.
Enfim, Peter Jackson cometeu seu segundo erro seguido em O Hobbit: A Desolação de Smaug. Acredito que o filme só concorrerá em prêmios nas categorias técnicas: não acontecerá como em O Senhor dos Anéis, em que o último filme foi coroado com o Oscar numa espécie de conjunto da obra. Essa trilogia de hobbits e anões é simplesmente ruim demais para sequer sonhar em levar algo tão valioso quanto a Pedra Arken para casa.
(Dessa vez, uma impressão um pouco diferente, bastante fundamentada nos debates acadêmicos e que, assim como o filme, continua atual quase três anos após sua publicação no Valor Econômico. Agradeço ao Moisés Baptista e à Denise Rodrigues por liberarem seu artigo também ao CineImpressões!)
Fonte: Missão dada é missão cumprida: Artigo sobre o Filme "Tropa de Elite 2". Valor Econômico, São Paulo/SP, p. 22 - 23, 29 out. 2010.
Cremos que é possível dizer no início deste breve artigo que ficção e realidade caminham de mãos dadas nas salas dos cinemas do país.
"Tropa de Elite 2" traz à tona uma série de reflexões capazes de ser aplicadas na análise da realidade brasileira. Ao passo que o primeiro longa da série dirigido por José Padilha focou a questão do monopólio legítimo do uso da força pelo Estado, corporificado pela atuação do Bope, o novo filme assume nuances mais complexas. Se no primeiro filme de Padilha são apresentados ao espectador o universo do crime, a corrupção policial, as proximidades e os cruzamentos entre esses dois mundos, "Tropa de Elite 2" abre espaço para um debate mais complexo, voltado para a teia de relações e dos jogos de interesse presentes no sistema político e na segurança pública da Cidade Maravilhosa. Entretanto, é possível que em cada canto deste país os espectadores associem os eventos e situações à realidade dos seus bairros, municípios e Estados.
Ao acompanharmos os fatos apresentados na trama é possível percebermos a "caminhada" da corrupção, percorrendo diversos espaços institucionais, como o sistema prisional, a corporação policial, escritórios de políticos, e chegando às comunidades dos morros. No entanto, há uma indicação de que a "caminhada" tem início na arena do poder político estatal. A corrupção que antes era visualizada como uma ramificação do sistema de segurança pública (um batalhão específico do corpo policial, o "batalhão dos corruptos") agora se espraia para a instância da representação política do Estado. Séculos atrás, Thomas Hobbes atribuiu ao Estado o papel de implementar o contrato social capaz de deter em sua essência a materialização do homem como "o lobo do próprio homem". No século XXI, embora sob o formato de obra fictícia, "Tropa de Elite 2" apresenta o Estado como a mola mestra que retroalimenta as atitudes ilícitas, com fins meramente particulares, nos setores mais próximos à população, ou seja, o avesso do que foi proposto pelo filósofo inglês.
Em resposta à reivindicação apresentada pelo personagem André Matias (André Ramiro), sobre o descaso e o abandono enfrentados pelos policiais do Bope, o protagonista consagrado pelo público, Coronel Nascimento, parte para a implementação de decisões que seriam capazes de "corrigir o sistema". O Bope é reestruturado em armas, treinamento e veículos blindados. O tráfico é expulso da comunidade, impedindo que os policiais corruptos arrecadem o "arrego" de traficantes.
Antes vista como ramificação do sistema de segurança pública, a corrupção agora se espraia para a representação política do Estado
Apesar de seus esforços, Nascimento descobre que sua estratégia falhou em deter o ciclo de reprodução da corrupção e da violência urbana, especialmente contra os membros das comunidades que, agora, em troca do "cenário de paz", são obrigados a "negociar" seus bens de consumo e meios de sobrevivência com as milícias. Recomeça o ciclo, agora com mais força, sob o controle dos policiais corruptos aliados aos candidatos a cargos políticos. É possível que essa seja uma das ideias mais importantes do filme, a de que investimentos pesados na construção de presídios e na infraestrutura policial não são suficientes quando pensados de maneira isolada e imediatista. Algo que ainda não foi compreendido totalmente é a concepção de que os direitos são indivisíveis e que as políticas sociais necessitam ser pensadas em rede, não de maneira pontual.
De forma semelhante ao primeiro longa da série, Padilha direciona, na narrativa de Nascimento, provocações aos militantes "de esquerda" que defendem os direitos humanos. Contudo, nas entrelinhas, o filme demonstra aos espectadores mais atentos que o entrave entre o discurso de defesa dos direitos humanos e o Estado é fatalmente regido por jogos de interesse capazes de limitar a aproximação entre a esfera real e ideal da proteção aos direitos.
A partir desse ponto, é possível reconhecer que, de forma paradoxal, o Estado assume tanto o papel de provedor de direitos da sociedade quanto de perpetrador de violações aos direitos humanos. As circunstâncias e os objetivos em questão é que determinarão qual será o papel assumido. É aí que se encontra o ponto-chave do filme. O próprio sistema estatal assume um papel violador sobre a população, quando deveria atuar como seu protetor. E as consequências são as mesmas apresentadas pelo discurso de defesa dos direitos humanos: a dificuldade de implementação prática da democracia e da proteção aos direitos dos indivíduos. "Tropa de Elite 2" aponta para uma substituição do bem comum pela rede de interesses e favorecimentos próprios de uma parcela dos representantes do poder estatal.
Ao passo que o primeiro longa trouxe à discussão as violações e abusos contra as pessoas pertencentes aos extratos mais vulneráveis (em especial, os moradores dos morros cariocas), a continuação traz como complemento o apoio de parte da população à atuação mais enérgica por parte da polícia. Há uma identificação do público que, na realidade brasileira, clama pela atuação enérgica da polícia, pela proliferação das unidades prisionais e pela adoção de penas mais duras, com o mesmo público que na ficção torna legítima a atuação violenta e abusiva da polícia ao aclamar Nascimento como herói, por ter assumido a responsabilidade pela execução de detentos de Bangu I.
Em nossa opinião, o ponto de destaque do filme é a busca do protagonista em identificar o motivo pelo qual "o sistema", repleto de ilegalidades, é difícil de ser quebrado. Por vezes, da mesma forma, buscamos uma explicação para os escândalos que afloram das esferas de atuação dos nossos representantes políticos. É possível que a permanência desse sistema de corrupção institucionalizada esteja na herança brasileira, enraizada do mais baixo ao mais alto escalão pela defesa dos objetivos individuais, pela possibilidade de recorrer ao "jeitinho" e aos favores daqueles que pertencem às classes mais privilegiadas hierarquicamente.
Como afirma o antropólogo Roberto DaMatta, possivelmente a aplicação do "você sabe com quem está falando?", que desqualifica as regras e decretos universalizantes, foi espraiada para o universo das relações sociais cotidianas para a esfera decisória, da política em si mesma. E isso com a legitimidade popular corporificada pelo voto. Fazendo alusão ao subtítulo de "Tropa de Elite 2", talvez nosso inimigo também seja outro. Talvez sejamos inimigos de nós mesmos. E, nesse processo, a decisão popular é determinante, para o bem ou para o mal.
Ao confrontarmos realidade e ficção, reconhecemos as diversas missões delegadas à sociedade brasileira: a necessidade de aproximação entre o discurso em prol da defesa dos direitos humanos dos cidadãos e a atuação dos representantes do Estado; o imperativo de afastarmos o risco de transmutação dos anti-heróis em mocinhos, dos "Fábios" e "Russos" em exemplos; a obrigação de definirmos nossos "heróis" e representantes com base em princípios éticos e democráticos, que contribuam para a efetividade prática do bem comum e da igualdade de todos perante a lei. Quiçá, um dia, o Brasil cumpra suas inúmeras missões. Porque, afinal, "missão dada" deveria ser "missão cumprida".
Primeiro preciso explicar o porquê de o título ser (semi)Dossiê Batman. Dentre os longas feitos com o Morcego, optei por não escrever minhas impressões sobre aqueles dois filmes que, para mim, são a mácula nas histórias do Cavaleiro das Trevas: Batman Eternamente (1995) e Batman & Robin (1997), ambos dirigidos por Joel Schumacher, que conseguiu, em dois anos, afundar a franquia Batman duma tal maneira que foi preciso fazer um reboot uma década depois. Mesmo esses dois filmes – principalmente o Eternamente – conseguindo ser melhores do que muitas obras cinematográficas de super-heróis (para verem o nível em que chegamos), Schumacher depositou todo o seu ódio para com o herói e os espectadores na produção desses longas: o mundo do Batman se tornou carnavalesco, colorido, piadístico (“BatCard, não saia de casa sem ele”), sem alma... Somente a raiva do diretor com as pessoas pode explicar tamanha destruição que causou na (quase) impecável filmografia do Morcego até então. .
Mas esqueçamos Schumacher. Para o bem de todos.
Batman chegou às telonas em 1989 pelas mãos do esquisitão Tim Burton. Um cara que amo, confesso. Os dois primeiros filmes são, essencialmente, obras de Burton: antes de serem filmes sobre o Batman, são demonstrações artísticas de seu diretor. O jeito peculiar de filmar, a trilha do Oingo Boingo Danny Elfman, a cenografia, o humor ácido e o sempre presente tom de o mundo parecer que está descompassado são marcas de toda a filmografia de Tim Burton: e isso ele levou para o Batman. O que hoje é um fato já consolidado – Burton deu novo fôlego ao Batman –, na época foi motivo de ira por parte dos fãs de HQ: muitos esbravejaram quando o diretor foi escolhido: ele havia trabalhado como animador na Disney, havia dirigido As Grandes Aventuras de Pee-Wee (1985) e Os Fantasmas se Divertem (1988), dois filmes de comédias, e, por fim, havia Michael Keaton (famoso por atuar em filmes de humor) para o papel de Bruce Wayne. Em outras palavras, a Warner contratou um diretor (genial) de filmes alegres para produzir a história de um dos heróis mais sombrios que existe. Temos de lembrar que, em 1986, Frank Miller levou o Batman a outro patamar, o de HQ para público adulto, com O Cavaleiro das Trevas: os fãs esperavam um filme pesado, e temeram que o Batman se tornasse um novo Besouro Suco (de comédia, já bastava a série dos anos 60 com Adam West e Burt Ward). Contudo, quando lançado nos cinemas, todos viram que Batman foi uma adaptação muito respeitosa, baseada (grande parte) nos quadrinhos e apresentando o lado mais dark de Burton na concepção cenográfica de seus longas.
Batman praticamente já nasceu um clássico. Os roteiristas (com Bob Kane – criador do Morcego – entre eles) optaram por levar às telas o embate entre Batman e seu arqui-inimigo Coringa (interpretado por Jack Nicholson). A trama não narra as origens do Batman, mas menciona o famoso assassinato dos pais do pequeno Bruce Wayne durante um assalto. E nessas mortes está o cerne do filme (e a sacada muito feliz de Tim Burton): o Coringa (na época Jack Napier) é o responsável pela morte dos pais de Bruce. Assim sendo, temos dois “monstros”, um criado pelo outro: se o Coringa é um lunático de sangue frio que deseja mandar nas gangues de Gotham City, Batman é o cara que se veste como doido e sai à noite nas ruas para combater o crime; se o Batman culpa o Coringa pela morte de seus pais, o Coringa somente se tornou Coringa porque Batman foi o responsável por Jack Napier ter caído no tanque químico da indústria que fora assaltar. E como todo filme do Batman, nesse é o vilão quem rouba a cena: Jack Nicholson fez um Coringa que se tornou referência por quase 20 anos, somente tendo seu papel ameaçado pelo brilhante Heath Ledger no filme de 2008. Nicholson é um dos grandes mestres do Cinema, não dá pra negar. E é covardia coloca-lo ao lado de Michael Keaton, um ator meio sem sal. Para melhorar ainda mais a atuação de Nicholson, Burton chamou para fazer as canções do filme ninguém menos do que Prince: a cena da invasão no museu de Arte de Gotham é memorável. A cidade, por sua vez, ganhou aspectos sombrios que marcariam as demais obras de Burton, mas falha (devido ao baixo investimento da Warner na época, não querendo arriscar) ao não ser mais bem explorada: só há uns 3 becos, uma escadaria da prefeitura e uma avenida principal, onde ocorre o excelente desfile de bonecos infláveis quase no final do filme. E por falar no final dele, creio que a cena mais marcante de toda a obra é a que ocorre na Catedral de Gotham, onde há o fantasma do passado surgindo para Bruce e Jack, o perigo de se perder a mulher amada (Vicki Vale, a bela Kim Basinger), e o desfecho com a queda do comediante. Por sinal, em ambos os filmes dirigidos por Burton os vilões morrem no final. Mas não só eles: o Batman mata alguns capangas: um é queimado, outro é explodido e outro é jogado do alto da catedral! Posso estar enganado, mas o Batman não costuma matar as pessoas: opção de Burton e sua mentalidade.
Batman – O Retorno, de 1992, se mostrou um filme mais maduro (ao menos, para mim). Tim Burton melhorou sua Gotham City, explorando um pouco mais as ruas da cidade – e dando um belo tom de branco com a neve do Natal. Embora o primeiro filme tenha tido o Coringa, que é o arqui-inimigo por excelência, em O Retorno, Burton trouxe algo que faltou ao vilão sorridente: humanidade. Jack Nicholson é um Coringa um tanto sem alma, sem ter um porquê de agir, é uma personagem que esbarrou num roteiro falho. No segundo filme temos o Pinguim – muito bem interpretado pelo baixinho Danny DeVito –, um ser rejeitado pelos próprios pais e vivendo nos esgotos de Gotham: essa temática é explorada pelo diretor, e é isso que dá vida ao vilão. Em O Retorno é possível sentir dó da personagem do Pinguim: ele é um coitado, vítima da sociedade, um homem que apenas queria ter um reconhecimento público. Mesmo sendo cruel, não dá pra negar que a intenção dele não seja justa: e até torcemos por ele. Por outro lado, temos a “vilã” Mulher-Gato, interpretada pela linda Michelle Pfeiffer, mas que tem uma origem bem burtoniana: os gatos dão vida a ela, mudando sua mentalidade. Tudo bem, pensando bem, é ridículo, mas estamos falando do mundo de Tim Burton e, como eu disse acima, antes de tudo, os filmes do Batman são filmes de Tim Burton. Novamente devo ressaltar o papel água-com-açúcar do Morcego: o problema nem é o Michael Keaton, mas a personagem explorada de modo muito fraco pelo Tim Burton: as cenas com Bruce/Batman são as menos interessantes – elas não acrescentam nada à trama, nem ao passado do Batman. Mas se Batman está mal desenvolvido, os cenários melhoraram bastante aqui: mantendo o tom dark, a cenografia parece estar mais limpa, sem a necessidade de mascarar as coisas, esconder defeitos – alcançaram um equilíbrio perfeito entre as cores e uma Gotham City mais parecida com o mundo das HQs um pouco mais antigas. Destaque para a animatrônica do filme: os pinguins de “brinquedo” estão bem feitos, e a maquete do Zoo de Gotham também convence, mesmo quando vemos o filme em blu-ray. No geral, Batman – O Retorno encerrou a era Burton com chave de ouro. Apesar dos deslizes – que sempre ocorrem nos filmes do diretor, mas que não é demérito – é um filme mais completo quando comparado ao antecessor. E um filme mais humanizado também.
Vou agora dar um pulo no tempo e chegar até 2005, quando houve a grande volta de Batman aos cinemas após os fiascos de Schumacher. O responsável por colocar o Morcego em foco novamente foi o, até então, quase novato Christopher Nolan, que havia dirigido Amnésia (2000). Ninguém acreditava muito nesse filme: o trauma de Schumacher ainda se fazia presente, e o Batman havia se tornado uma piada no mundo cinematográfico. Eu mesmo só fui me empolgar quando vi o resultado na tela – nem o trailer me fazia crer que esse filme seria bom. Porém, conseguindo calar a muita gente, Nolan trouxe um dos melhores filmes já feitos sobre super-heróis. Batman deixou de ser aquele herói típico de quadrinho criado por Tim Burton: agora o assunto era sério, um tema mais adulto e – mérito de Nolan – Batman não parecia ser alguém irreal, uma personagem caricata, um homem vestido de morcego que poderia causar risadas na plateia. Dando mostras de um amor, uma fascinação incrível por Ra’s Al Ghul (explico o porquê mais abaixo), Nolan foi explorar as origens do Morcego em Batman Begins (2005). Como fã, foi delicioso ver meu herói tratado com respeito na telona. Usando a trama de que algo ruim (no caso, Gotham City) deve perecer para ressurgir melhor, Nolan buscou a Liga das Sombras – lideradas por Ghul – para dar corpo ao filme. Interpretado muito bem por Liam Neeson, o mentor de Bruce Wayne (vivido pelo competente Cristian Bale) é o responsável por transformar o trauma de infância de Wayne (a morte dos pais) em força, treinando-o, fazendo com que o bilionário se sentisse seguro para retornar à Gotham após 7 anos de exílio voluntário. Contudo, quando se nega a fazer justiça matando um ladrão comum da região onde esteve preso, Wayne é visto como traidor por Ra’s Al Ghul e precisa fugir para se salvar. De volta à Gotham, Bruce acaba incorporando a figura do justiceiro na cidade corrupta sob a máscara de Batman (pois o importante, segundo ele, é ser um símbolo, não uma pessoa conhecida, um herói). O primeiro trabalho mais sério que tem é o de deter o Dr. Crane – o Espantalho (Cillian Murphy) – que está ligado ao tráfico de uma droga alucinógena que espalha medo na população. Esse gás do medo, porém, está ligado às ideias de “purificação” da Liga das Sombras, sob a liderança de Ra’s Al Ghul: Gotham iria se consumir por dentro, desencadeando uma onda de pavor e violência entre a população. Com a ajuda de Gordon (Gary Oldman), Lucius Fox (Morgan Freeman), o mordomo Alfred (Michael Caine) e de sua paixão (desde a infância) Rachel Dawes (Katie Holmes), Batman consegue frear os intentos de destruição de Gotham por parte da Liga das Sombras: mas outro vilão surge ao final do filme, o Coringa.
Em 2008, Nolan retornou às telas com Batman – O Cavaleiro das Trevas. Para mim, o melhor filme de super-heróis já feito no Cinema. Se no primeiro filme Nolan teve de gastar bastante tempo para desenvolver a figura de Bruce Wayne, agora a questão central é Gotham em si. A corrupção continua, mas dessa vez entra o elemento “mundo-cão” na jogada, representado pelo Coringa (atuação impecável que rendeu Oscar post-mortem a Heath Ledger). Existem pessoas que nascem com o desejo de destruição, sem ter um motivo aparente, e que apenas querem rir de tudo, sabendo que a vida é uma piada: esse é o caso do Coringa. Com suas cicatrizes na boca, a figura do piadista já é um clássico na história do cinema: a cena em que ele mata o capanga enfiando o lápis em seu olho é impagável, sua frase “Why so serious?” já estampa camisetas há uns anos, e seus atos inconsequentes aliados ao humor fizeram do Coringa de Ledger uma personagem muito superior a de Nicholson, a meu ver. Para combater os problemas da cidade legalmente, temos a figura de Harvey Dent (Aaron Eckhart), o destemido promotor tenta acabar tanto com os crimes dentro da Polícia quanto os sérios problemas que assolam Gotham. Bruce Wayne, novamente, se vê na obrigação de usar o símbolo do Morcego (embora esteja pensando em abandonar a vida de combate aos crimes) para ajudar a cidade e, também, defender sua amada Rachel Dawes (agora interpretada por Maggie Gyllenhaal) – que namora o promotor Dent. Com as reviravoltas do filme, o Coringa consegue mostrar a Harvey Dent que ninguém está a salvo, todos têm seu lado bom e ruim, e que tudo é uma questão de perspectiva, apenas: para, definitivamente, fazer Dent entender isso, Coringa sequestra a ele e a Rachel, matando a garota e queimando metade do rosto do promotor: nascia o Duas-Caras. Desiludido com o fato de, apesar de ter lutado para o bem, ter se tornado vítima, Duas-Caras tenta se vingar do representante da polícia de Gotham, o comissário Gordon. Contudo, Batman chega ao local onde Dent tentava matar Gordon e seu filho e os salva, causando indiretamente a morte do promotor. Diante desses acontecimentos, o filme acaba com o Morcego tendo de sumir de vista, sabendo que seria acusado de ter matado Harvey Dent e combater o crime à margem da lei.
Então chegamos ao novo filme de Nolan, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), que assisti hoje. O filme aterrissou nos cinemas com status de “um dos melhores filmes do ano”, “ a maior obra de super-heróis já feita”, “a melhor parte da trilogia” etc. Porém, o que vi na tela foi um ato de covardia do Sr. Nolan. Ele vinha construindo uma obra praticamente impecável, os dois filmes anteriores eram ótimos e originais, mas realizou um desfecho fraco, repetitivo e sem motivo aparente (creio que só fizeram esse filme para lucrar mesmo). Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge sofre do mesmo mal de O Espetacular Homem-Aranha, o mal do “eu já vi isso antes, mas melhor”. E estamos falando, no caso do Batman, dos mesmos atores e mesmo diretor! Não sei o que se passou pela cabeça de Nolan, mas ele deve ter achado o seguinte: “Eu amo Ra’s Al Ghul. E se, ao invés de explorarmos o riquíssimo universo de Batman, com várias ideias e personagens bacanas, nós fizermos algo que conecte o primeiro filme ao terceiro? Seria genial, não”? Respondo: NÃO. Nolan praticamente refilmou o primeiro Batman, acrescentando personagens sem função à trama. Lembra da história da destruição de Gotham pela Liga das Sombras? Pois é, é a mesma coisa agora! Mas com Bane no lugar de Ghul. O Bane, interpretado pelo bom Tom Hardy, do filme de Nolan não tem muito a ver com os quadrinhos (não há o Veneno), mas conta com algo inusitado: sua ridícula voz que sai pela máscara. Sem brincadeiras, quando Bane fala, lembra o Geleia do Caça-Fantasmas: o discurso dele em frente ao tribunal, congresso – sei lá – perde totalmente a força pois dá vontade de rir de sua voz: lamentável esse descuido. A única coisa que realmente lembra os quadrinhos (aquele famoso problema na coluna que Bane causa ao Morcego), é a belíssima primeira briga entre ele e o Batman: sem trilha de fundo, a cena é esteticamente brilhante. Temos também Selina Kyle (que nunca é chamada de Mulher-gato, sabe-se lá porquê), interpretada pela belíssima Anne Hathaway, que, apesar do esforço de Nolan em tentar encaixá-la de algum modo à narrativa, mostra-se totalmente descartável: está claro que só foi posta no filme por que o diretor quis “brilhantemente” usar mais alguém da mitologia do Batman (sem contar que Nolan adora usar dois vilões em todos os filmes do Morcego); porém, ver a Mulher-Gato arrebitada na bat-moto é maravilhoso, e deve ser a melhor coisa desse filme. Por falar em bat-coisas, nesse filme somos apresentados a mais um equipamento revolucionário do bat-arsenal, a bat-nave, que mais parece uma bat-barata... Ela tem papel crucial no filme, principalmente no final.
Sem estragar a surpresa de quem ainda não viu, fecho dizendo: Nolan filmes dois Batmans, apenas os dois primeiros. Esse terceiro, apesar de ser um grande filme de ação, não faz jus ao Morcego e à própria obra do diretor. Digo isso como fã declarado do Batman: foi decepcionante ver que Nolan buscou uma zona de conforto para encerrar sua trilogia. Tinha tudo para ser bom, mas não foi. Se ele tivesse invertido a ordem dos dois últimos filmes, teria ficado perfeito, mas Nolan optou por ignorar (sim, ignorar) praticamente todo o segundo filme: afinal, a personagem principal da trilogia é quem? Gotham? Para com isso... Espero, sinceramente, que a Warner não retome o Batman do ponto de onde esse terceiro filme acaba, pois mais um herói (prodígio) foi descaracterizado. Já até imagino o roteiro de um quarto filme: Gotham correrá o risco de ser destruída por mais alguém da Liga das Sombras. (Por que sempre Gotham e apenas Gotham? Só ela não presta no mundo?). Enfim, Nolan se despede de seu Batman com dois acertos contra um erro: agora ele pode voltar a fazer filmes originais. Sem Ra’s Al Ghul neles, de preferência.
Porém, apesar do desfecho fraco, Nolan foi responsável por fazer os melhores filmes do Morcego. Tim Burton contribuiu trazendo super-heróis às telas, mas Nolan tornou tudo adulto, mostrando que (apesar do último filme) é possível fazer filmes de heróis com inteligência e competência. Ainda bem! Alex Martire
Há filmes que, só por uma cena, já valem. É o caso desse pré-candidato ao Oscar escolhido pela Coreia do Sul e dirigido por Hun Jang.
A cena em questão acontece nos últimos 15 minutos do filme. Exércitos do Norte e do Sul estão prestes a disputar a batalha final pelo Monte Aerok, em 1953, e definir as atuais fronteiras entre os dois países. Então os comunistas começam a cantar uma triste música, que relembra o rosto da mãe, já velha, e a saudade que ela deixa aos filhos. Em meio às brumas, o exército sulista também adere à canção, formando um uníssono lindo, muito lindo. É de arrepiar. Eles sabem que essa é a última canção que carregarão até à morte iminente.
A obra de Hun Jang é cativante. O cinema oriental é perfeccionista e aqui é apenas mais uma mostra: batalhas são extremamente bem filmadas, sem precisar recorrer ao velho truque de tremer a câmera para esconder defeitos técnicos. Antes de tudo, é um filme de guerra sobre a amizade, sobre a lealdade, mas sem ser piegas e apelar para tirar lágrimas dos espectadores (aprendeu, Spielberg?). Dois amigos sul-coreanos estão no front oriental da guerra e são afetados de modos diferentes pelo inferno em que vivem: um ainda mantém a "humanidade", enquanto o outro, como ele bem aponta, já morreu há muito tempo.
Obviamente Hun Jang não poupa críticas aos irmãos do Norte, tornando-os os "vilões", mas no terceiro ato o diretor consegue amenizar bastante essa dicotomia: jogada de mestre.
Para quem busca um épico coreano sobre a guerra que dividiu o seu território, "The Front Line" vai lhe saciar (e muito bem). Filmaço. Alex Martire
Não conheço praticamente nada de cinema mexicano. Apenas novelas mexicanas (claro). Mas se todos os filmes do México seguirem (ou seguem) a linha de "Miss Bala" é sinal de que haverá muita coisa boa vindo por aí.
É um filme (pré-candidato ao Oscar 2012, ficando de fora) de ação misturado com drama, com as melhores qualidades que essa mistura pode gerar. Acompanhamos Laura Guerrero (interpretada muito bem pela bela Stephanie Sigman) e seu sonho de ser Miss no estado de Baja California. Tudo seria muito bonitinho e o filme seria mais um de "busca e realização" se não fosse o contexto mexicano do tráfico de drogas e violência. E é aí que o filme se centra! De modo estúpido, Laura é arrancada do mundo de miss para levar o famoso tapa da vida de realidade. Porém, nada é estranho a ela: vem de família pobre, da periferia, convivendo diariamente com as dificuldades do lugar. E o desejo de encontrar uma amiga perdida em meio a um tiroteio (aliado às ameaças feitas ao pai e irmão) a faz se envolver com a quadrilha da região, liderada por Lino.
O filme tem algumas cenas muito boas, mas as memoráveis, pra mim, acontecem durante o concurso de Miss, com Laura simplesmente não pertencendo mais a tudo aquilo, alheia. Vemos, então, como os sonhos são destruídos de uma hora para outra por coisas da vida. Triste, mas verdadeiro...
Acho que o filme causaria náuseas aos que não estão acostumados com a violência desencadeada pelo tráfico nas cidades e a corrupção de autoridades, indo de policiais à generais de exército. Porém, tendo nascido e vivendo no Brasil, uma carapaça "natural" se forma em nossas mentes: não me senti chocado ou surpreso com o alto nível de jogos de interesses entre o crime organizado e a polícia mexicana, apenas pensei: "Talvez por aqui, em São Paulo, tudo seja ainda pior..." Alex Martire
Ótima maneira de se aventurar pelo cinema de nossos "irmãos na violência" mexicanos.