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Terry Pratchett: Choosing to Die, 2011.




Meu nome é Terry Pratchett e escrevo novelas de fantasia. Tenho 62 anos e fui diagnosticado com Alzheimer há três anos. Às vezes, fico muito deprimido, temendo o que pode acontecer no futuro. Parece-me que, nestes tempos modernos, não deveria temer algo assim. Estou falando sobre morte assistida, que hoje é ilegal no Reino Unido. O que você vai ver pode não ser agradável porém, creio ser muito importante. Verá como pessoas idosas, como eu, estão pensando em morrer. Pode alguém como eu, ou você, escolher como vamos morrer?

Com essas palavras, Sir Terry Pratchett inicia um pequeno documentário, de 60 minutos, dirigido por Charlie Russell em 2010 e que foi ao ar na televisão em 2011. O tema não é nada fácil de ser digerido, embora, assistindo ao documentário, a coisa que mais vem à cabeça é: "Por que não temos o direito de escolher quando queremos morrer?". A morte assistida, como mostra Pratchett, é algo que pode trazer dignidade às pessoas que sofrem com doenças sem curas que comprometem a "normalidade" da vida. Tendo terminado de assistir, ainda estou com algumas imagens na cabeça, mas a que mais me marca é a de ver Pratchett ter consciência de que o Alzheimer irá lhe tirar a vida de qualquer modo e que, sendo assim, ele pretende estar um passo à frente da morte, para lhe poupar o sofrimento.

Embora o Alzheimer não seja uma doença caracterizada por dores físicas, ela destrói profundamente a mentalidade, a "alma" das pessoas. Confesso que fiquei profundamente chocado ao ver Pratchett, logo no início do filme, tendo de ditar seu novo livro da série Discworld (o 38º) a seu assistente Rob Wilkins. A produção literária de Pratchett é imensa, e é um dos maiores escritores de fantasia vivos no mundo, sendo o mais importante no Reino Unido (estando Neil Gaiman logo atrás dele). É triste ver a frustração desse gênio da literatura quando diz que não é mais capaz de digitar seus textos, e que esquece de quase tudo o que lhe é dito no momento. Pior ainda: confessa que uma boa parte das lembranças de sua vida simplesmente se foram, que não consegue mais recordar nada... Simplesmente não consigo imaginar o que isso representa para um escritor: toda a base que ele tem para se inspirar se foi... Como ele afirma, escrever é a única coisa que sabe fazer e que, sabendo que o Alzheimer irá privá-lo disso, decide que é hora de pesquisar sobre a morte assistida.

No Reino Unido a morte assistida é proibida por lei. Mesmo se a pessoa deixar um documento, filmar, fazer de tudo, nada adianta: quem o ajudou a morrer - seja familiar ou não - irá cumprir pena na cadeia (que pode chegar a 14 anos): hipocrisia pura. Bom, temos de levar em conta que o mundo é, em grande parte, regido por teístas, e que a Fé é algo que cega as pessoas - entre muitas outras coisas - para o sofrimento alheio: para muitos religiosos, é melhor que a pessoa sofra antes de morrer, e que ela não possa escolher quando morrer: assim terá seu "lugar no céu" (ou no inferno, dependendo). Na Bélgica a morte assistida é legalizada desde 2002 e, como Pratchett mostra no documentário, na Suíça também existe essa legalização, incluindo o direito de estrangeiros irem morrer em seu território. Esse trabalho é realizado pela instituição denominada Dignitas, que cobra cerca de 11.000 libras para auxiliar as pessoas a morrerem.

Pratchett acompanha dois casos de cidadãos ingleses que sofrem com doenças sem cura: um deles é Andrew Colgan, de 42 anos, que tem esclerose múltipla; o outro é Peter Smedley, que sofre com uma doença degenerativa no sistema nervoso, e tem 71 anos. Mais da metade do documentário acompanha as discussões sobre o porquê de essas pessoas desejarem a morte. A resposta de ambos é semelhante: não querem viver impossibilitados de fazer as coisas mais triviais que sempre estiveram presentes em suas vidas. Pratchett também entrevista os familiares desses dois homens, encontrando pessoas que, embora sofrendo com a decisão de quem ama, apoiam a decisão de morte assistida. 

O ato final do documentário fica a cargo da filmagem da morte assistida de Peter Smedley, na Suíça. Todo o processo de morte dura cerca de 10 minutos, consistindo em 2 etapas: primeiro é dado à pessoa um remédio para o estômago, para evitar a rejeição do veneno; após alguns minutos, a assistente entrega o copo de veneno em mãos e deixa bem claro que a decisão de tomá-lo cabe inteiramente à pessoa. Peter concorda e bebe o conteúdo. Sabendo que não tem mais volta, vemos ele se despedindo de Pratchett e segurando a mão de sua esposa, olhando-a em seus últimos momentos. A morte em si é bem tranquila: a pessoa sente dificuldade para respirar e acaba entrando em sono profundo: mais alguns minutos e o coração para de bater. Obviamente isso não diminui a dor de quem fica, da esposa que vê o marido falecer diante de si. Mas a decisão dele foi respeitada e, de certo modo, é melhor do que ver a pessoa sofrendo na cama de hospital.

Pratchett termina o documentário indagando sobre as possibilidades de morte assistida para si mesmo. Ele vem lutando para que esse direito se estabeleça na Inglaterra também, e que as pessoas possam, enfim, serem donas de suas próprias vidas. Enfim, o documentário gera bastante reflexão sobre um tema controverso. Ao mesmo tempo, nos dá a chance de nos despedirmos de nosso amado amigo Terry Pratchett: por mais triste que seja, eu o entendo. Ele irá fazer uma falta tremenda. Mas um escritor não merece viver sem suas memórias...

Alex Martire




Vovó Lo-Fi, 2011.



A Mostra Indie desse ano está trazendo coisas interessantíssimas por um preço acessível a todos: ou seja, de graça! Chegue na bilheteria, retire seu ingresso e vá curtir filmes que, de outro modo, dificilmente chegariam por aqui. Por enquanto, só tive a oportunidade de assistir ao documentário islandês "Vovó Lo-Fi" (Amma Lo-Fi), que é curtinho - tem 65 minutos - e muito agradável. E um grande exemplo de inspiração.

O documentário traça a carreira de Sigridur Níelsdóttir como cantora. Bom, não é exatamente uma carreira, já que ela nunca fez um show, mas essa senhora gravou 59 CDs em apenas 7 anos (680 e tantas músicas)! O mais bacana é que ela começou a compor aos 70 anos, para mandar suas músicas aos filhos, genros, netos e por aí vai. De sua vida anterior, o documentário não fala muito, apenas registrando brevemente que ela se apaixonou perdidamente por um pescador aos 19 anos na Dinamarca (local de seu nascimento) e que seus pais foram contra o relacionamento; porém, não foram contra muito tempo - o rapaz desapareceu num naufrágio. E nessa hora a senhora Sigridur fala uma frase que talvez seja um tanto batida, mas que, ao ser dita aos 80 anos de idade, ganha uma relevância especial, a importância de quem viveu bastante tempo para saber das coisas: "Sempre se despeça das pessoas que ama com palavras carinhosas, deixando claro que as ama, pois pode ser a última vez que terá oportunidade de fazer isso". Depois disso - e aqui posso confundir um pouco a ordem dos acontecimentos - Sigridur veio morar no Brasil, e viveu em São Paulo por alguns anos (vendendo artesanato nas ruas). Não me lembro quando ela se casou, mas ela teve uma filha que se casou com um brasileiro e mora por aqui. Os outros filhos estão pela Escandinávia. Ela retorna à Reykjavík (onde viveu por um tempo antes de vir pra cá) e fica por lá até o fim da vida. Na capital islandesa ela mora numa casinha simpática onde acaba por descobrir uma paixão: a música. Com um teclado musical desses mais simples mesmo, Sigridur começa a compor suas canções. E ela admite que ler partituras é algo muito difícil e que, por isso, aprende tudo de ouvido. 

O processo criativo de Sigridur é bem legal. Eu lembrei dos tempos em que eu tinha uma banda e que a gente gravava tudo em fita cassete. Ela faz o mesmo. O velho esquema de ligar o microfone num aparelho de som e depois editar usando o duplo deck. Sigridur usa o acompanhamento que vem armazenado no teclado para dar ritmo às músicas, variando os estilos. E ela coloca uns efeitos sonoros em suas músicas! Munida de seu gravador portátil, Sigridur grava sons de pássaros, cães e recria o sons de cachoeiras (deixando a água da torneira escorrer por potes de plástico) e do vento (assoviando), depois ela edita no aparelho de som, intercalando esses sons captados com a música anteriormente gravada. É algo amador, claro, pois fica nítido que a música some quando os sons aparecem, mas é louvável que uma senhora com a idade dela tenha essa veia artística tão ativa. Obviamente, nas partes do documentário em que ela canta, não dá pra entender nada - a não ser que você saiba islandês, o que é uma pena: deveriam ser colocadas legendas nas canções, afinal, é um documentário sobre música! As legendas de músicas só ocorrem quando fazem parte da estrutura narrativa do documentário, que, aliás, é bem bonita: ao invés de usar um voice over para narrar, os diretores Ingibjörg Birgisdóttir, Orri Jonsson, Kristín Björk Kristjánsdóttir optam por chamar músicos que cantam as historinhas ao mesmo tempo que falam sobre a importância de Sigridur na música islandesa; todas essas passagens ocorrem tendo cenários estáticos, montagem feitas com recortes que, ao final do Sigridur quem fez. Sim, a verdade é amarga e doce ao mesmo tempo: aos 77 anos, após lançar seu último CD, Sigridur muda-se de residência e, com isso, muda o seu gosto de Arte: ela abandona a música e parte para a composição de pequenos quadros feitos com recortes das mais diversas imagens. Um trabalho muito bonito, por sinal. E quando eu já estava no cinema pensando em escrever para Sigridur contando o quão importante pra mim foi vê-la na tela, uma inspiração para sempre continuar a produzir os sonhos, ele termina mostrando a data de falecimento de Sigridur, aos 81 anos (1930-2011). Uma pena, realmente... Mas também fiquei feliz por saber que conseguiram fazer um documentário entrevistando-a diretamente, e que ela sabia que isso iria resultar num filme sobre sua vida. 

Acho que essa foi a última grande conquista e lição de Sigridur Níelsdóttir: deixar registrado para as próximas gerações que não importa a idade, desde que mantenha sempre o seu cérebro em constante aprendizagem. Muito obrigado, vovó!

Quem quiser saber mais sobre ela (músicas e colagens): http://www.grandmalofi.is/

Alex Martire




Indie Game: The Movie, 2012.


Nada como ver um documentário sobre jogos!
"Indie Game: the Movie", foi dirigido por Lisanne Pajot e James Swirsky e lançado há cerca de uma semana. Acima de tudo, é um filme sobre sonhos. Sobre como as pessoas lutam por aquilo que desejam, e como reagem diante das consequências/conclusões oriundas daquilo que produziram.

É um documentário que não especificamente é focado num público gamer, pois qualquer pessoa pode se interessar (e se emocionar, por que não?) pelas 4 histórias narradas ao longo do filme, porém, o cerne da audiência são os apaixonados por jogos digitais e que acompanham esses 30 e poucos anos de vídeo-games. Como um dos criadores diz no começo: para quem nasceu de 1975 ou 1980 pra cá, os games não são hobby, não são coisas separadas, um "artigo" que é consumido só em ocasiões específicas: eles estão presentes, eles fazem parte de nossas vidas. Ao menos, no meu caso isso é verdade também: acompanhei a evolução dos jogos desde o fim da Era Atari, e hoje ainda consigo ficar algumas horas por semana jogando os últimos lançamentos - não consigo pensar minha formação pessoal (e profissional) sem os games, e o quanto eles ajudaram (e ajudam) no desenvolvimento criativo.

Porém, o documentário mostra a outra face do mundo dos jogos: a independente, como diz o título. Não estou acostumado a jogar muitos games que não sejam de grandes empresas, como a Ubisoft, EA, Epic, Blizzard, Konami e outras tantas.Adoro esses games novos que se parecem com filmes, mas as poucas experiências que tive com jogos indie foram prazerosas e surpreendentes. Uma vez li num lugar que as grandes indústrias estão matando o mundo dos jogos, pois praticamente mais nada de original surge, são várias e várias continuações de games a cada ano (vide "Call of Duty" ou "Assassin's Creed", por exemplo). A esperança de salvação, então, está com aquelas pessoas que trabalham em suas casas, quase sem recursos, mas com boas ideias na cabeça: é o caso dos produtores entrevistados nesse documentário.

O filme narra 4 trajetórias de criadores independentes. Temos Jonathan Blow, que fez o maravilhoso "Braid"; Edmund McMillen e Tommy Refenes, criadores do "Super Meat Boy"; e o polêmico Phil Fish, criador de "FEZ".Na verdade, "Braid" é mostrado no documentário como a baliza para os outros dois games: lançado em 2008, "Braid" foi um sucesso gigantesco e ainda hoje é referência quando se trata de jogos independentes. A "fórmula" para dar certo? Jonathan Blow diz que o game não posse ser polido demais, perfeito: quem faz isso são grandes companhias - os independentes fazem jogos autorais e mais humanos, os erros fazem parte do processo de criação. E se alguns games como "GTA IV" levaram 4 anos para ficarem prontos com uma equipe de 1000 pessoas, é comum que um jogo indie leve 4 ou mais anos para ser finalizado por 1 ou 2 pessoas, como aponta Phil Fish. 

O caso de "Super Meat Boy" ganha merecidamente um grande destaque no filme: lançado na Xbox Live em 2010, conseguiu bater "Braid" no número de vendas nas primeiras 24 horas. Contudo, o filme seria "técnico" se não fosse os momentos excelentes em que as vidas pessoas dos criadores são narradas. Como Tommy Refenes vai dizer uma hora (sentado sozinho num restaurante): ele sacrificou a vida dele por aquilo. Ficou 4 anos sem praticamente ter contato social, apenas desenvolvendo seu sonho, e mesmo se quisesse, não poderia: o dinheiro sempre foi curto e, como ele brinca, não dava nem pra comprar um carro pra sair com uma garota ou pagar o lanche dela num encontro. O documentário mostra um pouco esse lado triste da vida daqueles que só sabem fazer uma coisa em seus dias, que dedicam sua existência para concretizar algo maior: eles não são "comuns" por que desejam, mas porque não conseguem ser de outro jeito. E até mesmo Edmund, que é casado, fala que enfrenta problemas por conta disso. Sua esposa diz que praticamente só o vê de costas, sentado diante do computador. Apesar de ser colocado em tom engraçado no filme, dá para notar como isso carrega um significado mais profundo para a vida do casal: no entanto, sua esposa o apoia em tudo, e sabe o quanto aquele sonho é importante para o seu marido.

Já "FEZ" é um caso mais complicado: Phil Fish vem trabalhando nesse jogo há quase 5 anos. O game ganhou prêmios antes mesmo de ser lançado recentemente para Xbox. Isso colocou um peso enorme sobre as costas de Phil: ele recebia centenas de emails de gamers cobrando o jogo e, depois de um tempo, o tom mudou de cobrança para descrédito: seu jogo caía no esquecimento. A vida pessoal de Phil Fish foi acabando junto com sua obsessão em terminar o game: perdeu o sócio, perdeu o financiamento inicial do jogo, e perdeu também a namorada. Mas sua luta solitária continuou e, ano passado, apresentou a demonstração jogável de "FEZ" na PAX (Penny Arcade Expo), em Boston. Apesar de diversos problemas técnicos, a obra causou grande interesse por parte dos visitantes. Até o fim das filmagens para o documentário, "FEZ" ainda não havia sido lançado.

"Indie Game: the Movie" não é um filme que faz aquela famosa relação de Games com a Arte: não é preciso fazer isso, acompanhando a vida dos criadores já temos a resposta.

(O filme - com legendas em português - pode ser comprado diretamente em seu site oficial: http://buy.indiegamethemovie.com/ )

Alex Martire


Ao Abismo, 2011.


O novo trabalho de Werner Herzog é mais um documentário. Com apenas um ano de diferença entre "A Caverna dos Sonhos Esquecidos", "Ao abismo" lida com as particularidades que ocorrem no corredor da morte nos EUA (dessa vez, sem o uso de 3D).

A trama é centrada na pena de morte imposta a Michael Perry, 28, que, juntamente com seu amigo Jason Burkett, comete triplo homicídio em uma noite de outubro de 2001: tudo por causa de um Camaro vermelho. Os dois eram conhecidos do filho de Sandra Stotler, moradora de Conroe, no Texas, e acabaram matando-a para roubar o Camaro que estava na garagem. Após a execução, a levaram em outro carro até o lago Conroe e a jogaram lá. Voltando para o local do homicídio, depararam-se com o portão do condomínio fechado: sem poder entrar para buscar o Camaro, ambos esperam que o filho de Sandra, Adam, chegue em casa - naquele dia ele estava acompanhado de outro amigo. Sequestram os garotos, roubam o controle para abrir o portão do condomínio e depois os executam na floresta próxima dali. Cerca de 3 dias depois, ambos são abordados pela polícia e trocam tiros, sendo presos. Após o julgamento, Jason Burkett é condenado a 40 anos de prisão, enquanto Michael Perry é sentenciado à morte.

Esse é o pano de fundo sobre o qual Herzog vai desmembrar os pormenores do crime e suas consequências. Desde o epílogo, o diretor deixa bem claro sua posição: ele é contrário à pena de morte. Porém, mesmo sendo parcial com relação ao que acredita, Herzog dá chance para que opiniões contrárias apareçam (na verdade, só uma). Acho que isso é compreensível: Herzog entrevista um pastor, entrevista os acusados, entrevista os conhecidos dos acusados, entrevista o antigo policial que era responsável pela execução dos presidiários, entrevista a esposa de Jason Burkett, e entrevista a família das vítimas: nessa contagem, torna-se quase óbvio que haveria mais gente contrária do que a favor da pena de morte. Herzog foi esperto: ele entrevista apenas quem acabaria, de um modo, sustentando a sua tese. Tendencioso? Achei, sim: mas é um direito dele, afinal, o filme é dele.

Podem também acusar o diretor de manipular os espectadores, com cenas de alta comoção - como o depoimento dos familiares dos mortos. Tudo bem, acusar é fácil (e isso só viria daqueles que não tem coração ou sensibilidade): o difícil é ficar passivo diante de tanta dor e revolta daqueles que perderam tudo. A irmã de Adam  e filha de Sandra perdeu ambos na mesma noite. Sua vida havia sido uma coleção de perdas (o pai e o irmão mais velho morreram anos antes) e simplesmente sua vida acabou quando tiraram as duas únicas pessoas que restaram em seu mundo. Herzog, claro, deixa a questão principal para os últimos minutos: "Você gostou que Michael Perry tenha sido executado?". Claro - ela responde. Ela concorda que talvez a prisão perpétua também coubesse ao homem, mas a sensação de alívio com a morte dele é mais reconfortante. Pessoalmente, não a culpo. É muito fácil defender penas alternativas ou prisão perpétua enquanto ninguém da sua família é brutalmente assassinado. Depois disso, não é de se estranhar o desejo de vingar a morte com a morte. Se fosse comigo, certamente desejaria a pena de morte para o assassino.

Mas o filme também toca em outro ponto: o da estruturação da família. O pai e o irmão mais velho de Jason  Burkett também cumprem pena. O pai, inclusive, passou mais dias dentro da prisão do que fora dela: e estava preso - condenado à perpétua - quando Jason cometeu os crimes. É um ciclo de violência que foi destruindo a família Burkett década após década: um pai ausente que tem como uma de suas maiores lembranças o momento em que ele e Jason foram acorrentados juntos no ônibus que os levou à penitenciária após o julgamento. Isso, claro, não justifica o que Jason fez, mas é um agravante enorme, ele propiciou um ambiente favorável para roubos e homicídios.

Confesso que, ao saber que Herzog iria filmar no corredor da morte, eu esperava uma obra sobre o sistema prisional estadunidense: fiquei um pouco decepcionado com essa opção do diretor de tornar tudo tão subjetivo, centrado em um caso só, e não estendê-lo à esfera legislativa. Enfim, Herzog não é Michael Moore, seus documentários sempre contam histórias de pessoas, não de instituições. O saldo geral, pra mim, é que "Ao Abismo" seria um grande episódio de algum programa da Discovery. Com qualidade muito superior, claro, mas ainda assim pareceu-me ser uma obra sem profundidade, descontextualizada. Uma pena: esperava muito mais.

(Se alguém quiser saber mais sobre Michael Perry, executado dia 1º de Julho de 2010: http://www.deathrow-usa.com/MichaelPerry'Case.htm )

Alex Martire



A Caverna dos Sonhos Esquecidos, 2011.




"E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?" - Diálogo entre Sócrates e Glauco (Platão. A República. Livro VII)


(15/11/2011) - Assisti a este documentário em duas versões: primeiro pelo modo convencional, em 2D, direto do meu notebook, e, depois, em 3D, em uma boa sala de cinema. É outro filme. Finalmente descobri que o 3D pode ser realmente uma linguagem relevante para o cinema (não é um acessório ou um enfeite neste caso, mas um instrumento). Sem querer me alongar, na primeira cena dentro da caverna caiu meu queixo. A imagem toca, emociona.

Pelo desenvolvimento do registro, suspeito que a intenção inicial do diretor teria sido fazer um documentário sobre pinturas rupestres em geral e filmar as cavernas de Lascaux, mas, quando descobriu que isto não seria possível, resolveu focar suas lentes afiadas (lascadas) no complexo descoberto por Jean-Marie Chauvet, às margens do rio Ardèche, no sul da França.

As limitações de registro são evidentes: os gases tóxicos da caverna permitiam a permanência da equipe apenas uma hora por dia, e desde que não ultrapassassem o limite físico da passarela metálica de 60 cm instalada para possibilitar a caminhada (necessariamente em fila) dos exploradores-cineastas, de modo a comprometer o mínimo possível a preservação.

Talvez estas dificuldades da etapa de produção justifiquem os grandes saltos para os Alpes suevos da Alemanha. Conversei com amigos que sequer perceberam que Herzog havia filmado em mais de uma caverna. Mas, ainda que o recorte escolhido seja de alguma forma questionável, o tema não. As profundezas da terra exercem um verdadeiro fascínio sobre qualquer ser humano: os perigos e as aventuras de Julio Verne, os anões mineradores de Tolkien, a espiritualidade das embriagadas e embriagantes pítias de Apolo e os desabamentos impiedosos da Pachamama; tudo o que há de mais primitivo e espiritual vem à tona ao deslizarmos à escuridão sem fim das fendas da caverna.

Conforme o argumento se desenvolve, o olhar aguçado do historiador, do arqueólogo, acaba cheirando o perigo do anacronismo, das generalizações, e isto é sim um incômodo, uma pedra no sapato que perdura ao longo do filme, que faz perguntar, por exemplo, por que estaria ali um deslocado perfumista no lugar de um profissional da área. Incomodam as perguntas feitas ao jovem pesquisador Julien Monney, as ausências. Existe ali algo que se perde, uma profundidade que poderia ter sido explorada.

Como foram feitas aquelas pinturas paleolíticas? Por quem? Com qual material? Fala-se no neanderthal (e a sua incapacidade simbólica), fala-se no cro-magnon, no sapiens-sapiens, mas qual a relação entre eles? Eles interagiriam, digladiavam-se? Por que o sapiens não representa o neanderthal em suas pinturas? Será indiferente à sua existência? Ou ele se vê como superior, ou como igual? Que lugar seria este?

Um homem se veste como se vestiria alguém àquela época: causa incômodo a teatralização da história, tão própria dos “museus de artes naturais”. Para piorar, o homem toca, com a flauta reconstituída, o hino norte-americano, o que causa outro desconforto: desejaria constatar o domínio das notas da escala musical que permitiria a execução de uma música contemporânea conhecida de todos nós? Desejaria apenas fazer uma piada? Qual a intenção da indulgência da edição ao manter a tomada?

E por que chamar de pré-história se de fato há história (há ali uma narrativa, uma história)? E como o governo deve lidar com a descoberta? Quais os limites entre a pesquisa e a preservação? Quais as diferenças do olhar entre o biólogo, o espeleólogo, o arqueólogo, o turista, o geólogo, o antropólogo, o botânico, o zoólogo ao lidar com a descoberta? Construir um duplo da caverna ao lado dela? E aquele final, o que era aquilo? Filmar uma usina nuclear, uma estufa com espécimes albinos, sugerindo uma alteração evolutiva? Não estaria a narração em voice-over do diretor exageradamente dramática?

Independentemente de como se responda a estas perguntas, é uma obra importante para o cinema, sobretudo pela forma, que é particularmente importante nesse filme, e o diretor traz isso para a discussão. Sob este ângulo, a análise cresce, porque o olhar aqui é o do cineasta. Sua preocupação é com a construção da linguagem, e aqui ele parece ser exímio.

Primeiro ponto, evidente: é um filme em 3D. E se justifica? Sim, basta ver em 2D e depois no cinema. É possível quase esbarrar nas pontiagudas estalagtites e sentir a claustrofobia, a textura da rocha, a quase-aflição do soterrado vivo pelo peso da história e da natureza. Vendo pelo meu notebook, não tinha sequer percebido que o painel dos cavalos tem um declive daquele tamanho. O desenho acompanha a estrutura tridimensional das paredes, tornando relevante a profundidade e alterando os pontos de fuga em uma complexidade graciosa, quase instintiva – e praticamente imperceptível pela projeção indiciária permitida pela dupla dimensão da linguagem convencional. A Vênus coberta pelo Minotauro (única figura humana desenhada na caverna) só fui entender vendo no cinema. A linguagem traz algo próximo da experiência do vivido (falando chato: produz a tal da catarse).

Em segundo lugar: busca inovar na experiência sensorial (acresce à fantasmagoria cinematográfica). O que eu quero dizer com isso: o que antes era apenas a experimentação do 2D ganha profundidade. Ok, mas não é só isso. Ele pergunta: e se fosse possível ir mais além? E se o realizador pudesse acessar outros sentidos do aparelho sensorial do espectador? Se fosse possível ao cineasta dar a conhecer a seu público a corrente de ar frio vinda das rochas que permitiu a três homens adivinharem a existência de uma galeria subterrânea em dezembro de 1994? Aqui é possível dar relevância à presença do perfumista. Qual o cheiro da caverna? Ar preso há milhares de anos, gases tóxicos das plantas subterrâneas, ossadas, fogueiras apagadas, terra úmida? E os barulhos? Que música produziam e ouviam do instrumento de sopro? Cantariam aqueles homens? Gritavam, urravam, gemiam, ganiam? Bateriam palmas? Estalariam a língua contra o palato? E o tato? O calor e o frio? O torpor? E o gosto desta água, podre, ferrosa, envelhecida?

Em terceiro lugar, a construção da obra como problema, e não como dado. A inovação é evidente já fora da caverna. Quando assisti pela primeira vez, como muitos, fiquei pensando como ele teria filmado o primeiro plano-seqüência do “arco do triunfo” natural esculpido na rocha pela erosão e cravado no penhasco no desfiladeiro de Ardèche.

Ao reparar na trepidação, conclui que seria um elaborado sistema de cordas, roldanas e polias, por meio de um sistema de rapel que içasse a câmera, pois grua alguma seria capaz daquilo. Estava errado, evidentemente. Ele faz questão de mostrar isso. E como filmar dentro de uma caverna, com todas as limitações que lhe são inerentes? Com todas as dificuldades? Onde colocar a equipe de filmagem? Ele retira o glamour da cadeira do diretor e registra a "mão na massa", como se nos dissesse: veja, isso não apareceu do nada, alguém veio e fez isso. Este filme, estas pinturas. De outro lado, trata-se, a olhos modernos, de uma galeria de arte permanentemente fechada ao público: a tarefa do cineasta como dar a conhecer, tornar evidente e vivo cresce como um dos motores da narrativa.

Em quarto lugar, o papel da iluminação. A luz trepida e não se fixa porque quer experimentar a trepidação de uma fogueira. Os painéis de LED (três painéis planos de luz fria alimentados por cintos de baterias) buscam simular a visão das figuras para o homem que já não está mais ali. Em sua dança imprevisível, o fogo esconde e dá a ver momentos diferentes da representação pictográfica: ora se vê uma perna do bisão, ora outra - o bisão corre. Talvez alguém narrasse uma caçada mítica, heróica (um sonho hoje já esquecido) aos seus consortes.

Talvez outro alguém batesse as pedras para imitar (representar) os cascos se chocando com o chão, enquanto outro cantasse, enquanto outros assistissem, espectadores. Um protocinema? Ou um cinema muito mais sofisticado do que o nosso, pelo sem-número de experiências que dá a conhecer? Nós tentamos simular profundidade, cheiro, cor, imagem, som, tato. O deles já tinha tudo isto. A concepção central de frames persiste mesmo na era digital. Tal qual o símio que arremessa para cima o instrumento, que se transforma em uma espaçonave no “2001” de Kubrick, questiona-se a própria idéia de progresso ao mesmo tempo em que a reafirma.

Para quem não é de São Paulo, o filme estreou por aqui no contexto da 35ª Mostra Internacional de Cinema, que teve como tema de abertura justamente o Piteco do Maurício de Souza projetando imagens e a ilusão de movimento nas paredes de uma caverna. Nada mais apropriado.

Em quinto lugar, como desdobramento dos parágrafos acima (e muito mais poderia ser dito), a presença do mito platônico como indício da realidade inapreensível; de outro lado, a caverna como figura de linguagem para a sala de projeção, a fogueira como projetor que nos permite o acesso àquilo que, de outra forma, seria inalcançável. Nós somos unidos ao homem que viveu há trinta e dois mil anos: juntos a ele, assistimos, estarrecidos, à maravilha (mirabilia) da pintura. Falamos de nossos mitos vivos e perdidos, de nosso cotidiano e de nossos ancestrais. Assistimos, perplexos, a uma inovação técnica de nossa era. Tal qual o par de crocodilos, observamos a nosso outro (ao nosso igual) como se olhássemos a um espelho.

Leonardo Branco



 
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