Eu tenho essa coisinha de ser meio influenciável às vezes.
Tem gente que funciona na minha vida como uma espécie de guru para certos
assuntos, tipo música, e cinema, e livro, e gastronomia, e mais tudo e qualquer
coisa. E daí que eu vi num blog de um amiguinho uma nota altíssima pra esse
filme, com comentários profundos do tipo ‘fofura, amor, coração’. E fiquei mui
interessada e tentei umas treze vezes escolher esse filme no Netflix, até que,
finalmente, o assisti numa dessas noites de desespero e calor.
Eu não fazia a mais remota ideia de quem era Greta Gerwig.
Pra falar bem a verdade, ainda não sei direito não. A única coisa que eu sei, é
que eu a vi pela primeira vez “dançando” no clipe Afterlife do Arcade Fire, e eu passei os cinco minutos e um segundo na frente do youtube em prantos.
Bom, se é que vale a informação, Arcade Fire normalmente me faz chorar desde
2005, e Spike Jonze, que dirigiu o clipe, me faz ter sentimentos lacrimosos
desde o clipe Praise You do Fatboy Slim até, claro, Onde vivem os monstros (2009),
filme para o qual chorei o dia seguinte inteirinho.
O nível de lágrimas é
sempre importante como termômetro para o sucesso da arte na minha vida.
Tá, voltando à Greta.
Ela é roteirista de Frances Ha. Roteirista, e personagem
principal. A Frances. Ela não tem nada demais, é bonitinha normal, do tipo a
mocinha da casa ao lado, saca? Não tem exatamente muitos dotes dançarinos, ela
se chacoalha bem mondrongamente, mas seu papel exige que ela nos convença que
pode ser dançarina em uma companhia de dança moderna. Não, ela não convence nem
à diretora da companhia, mas convence a gente que, puxa, ela bem podia ter um
espaço na companhia porque, né, ela é tão esforçada (e nem vamos entrar no
debate que ‘dança moderna’ é algo bem, hum, artístico. Vamos rever o clipe do Fatboy Slim?).
A Frances/Greta (não vou separar nunca) também é uma mocinha
como qualquer outra que a gente conhece/foi. Ela tem essa paixão, e ela tem
essa vida real. Ela tem 27 anos, saiu da faculdade e foi morar com a melhor amiga em
NY, tem um subemprego e esse namorado falido. Aí tudo começa a desandar, porque a melhor amiga vai se mudar, o namoro termina, o subemprego vai ficando cada vez mais sub
e pronto. A vida.
Mas sabe que o filme não é nada demais, né? É só isso. É só
isso em preto e branco, que é pra gente ficar pensando o tempo todo em filme
francês, de arte. E tem até Paris, a Frances vai pra Paris num momento de
loucurinha momentânea. Quem nunca foi pra Paris num fim de semana nesses momentos
de loucurinha?
E são 86 minutos. São 86 minutos de filminho em preto e
branco, contando a vidinha da Frances/Greta, e tudo de normal que acontece e
desacontece ali. E você fica olhando, esperando quando é que o filme vai
acontecer. Quando é que a película vai desenrolar, quando tudo vai deixar de
ser só uma sequência de coisas normais no dia-a-dia de uma menina
bonitinha normal.
Mas aí, meu amigo, quando acontece, quando o ‘plim’ aparece
você já tá danado, chorando de boca aberta na frente da tela, segurando
Frances/Greta no colo e pedindo pelamordedeus pra entrar pra companhia de dança
moderna e sair pulando com Frances/Greta na rua ao som de David Bowie.
“Fofura, amor, coração” são comentários profundos e
certeiros pra esse filminho. São 86 minutos de vida normal em preto e branco.
De amor em preto e branco. Acho que isso já vale à pena.
Greta Gerwig foi indicada ao Globo de Ouro por esse papel, neste
ano (e perdeu pra Amy Adams). Essa menininha bonitinha normal, que dança mal
pra caramba, que ama seus amigos...
Martin Scorsese é um dos diretores mais profícuos de Hollywood, com toda a certeza. Não apenas isso - pois de nada adiantaria produzir muito se a maioria das coisas fosse ruim (ou se tornasse ruim após alguns anos de estrada, não é, Steven Spielberg?): Scorsese faz muitos filmes, e muitos filmes que, os mais fracos, já são, no mínimo, bons. Então Martin Scorsese tem filmes bons, ótimos e excelentes - e a cada ano em que alguma obra sua vai estrear, fica a expectativa sobre em qual das três categorias o seu novo filme vai se enquadrar. Sou fã incondicional confesso do trabalho de Scorsese e, aos poucos, tento constituir minha coleção de suas obras. Espero, sinceramente, jamais ver um filme ruim dele. Até agora, Scorsese não me decepcionou!
Seu mais recente filme, OLobo de Wall Street, é a maior porra-louquice já feita por Scorsese até hoje (maior até do que Vivendo no Limite, de 1999). E o que torna essa Ode às drogas, sexo e pilantragem tão especial e saborosa é saber que ela foi baseada em uma personagem real, o senhor Jordan Belfort, que no fim da década de 1980 se tornou milionário com um esquema ilegal de comercialização de ações na chamada Bolsa do Centavo (aquela em que os não-ricos costumam se arriscar, investindo pouco). A história é essa, aliás: a vida de Jordan Belfort e seus meios de enriquecimento. Seria extremamente maçante assistir a um filme de 3 horas que ficasse mostrando a vida de um dono de uma empresa de comercialização de ações em Wall Street. Porém, aliando a autobiografia de Belfort com o maravilhoso roteiro de Terence Winter (que escreveu Família Soprano) e a fabulosa direção de Martin Scorsese, temos um dos grandes filmes de 2013 (e que não por acaso está concorrendo a todos os grandes prêmios de 2014).
OLobo de Wall Street é bastante diferente das demais obras de Scorsese no quesito violência física: aqui não há sangue, espancamentos, vingança, nada disso. Sendo uma comédia, a obra abusa de diálogos afiadíssimos e que dá gosto de assistir, pois não insulta a inteligência dos espectadores com piadas sem motivo. Pessoalmente, isso só faz aumentar minha admiração por Scorsese, pois o diretor vem de um excelente filme infantil, o Hugo (2011), e agora se arrisca em uma comédia bastante longa (mas nada cansativa), acertando em ambos! Como dito, acompanhamos a trajetória de Jordan Belfort em todos os seus momentos. E com isso quero dizer realmente todos. Então, se você tem problemas com cenas de sexo, uso de drogas à baciada e palavrões dos mais diversos, esse filme não é para você. Belfort é uma espécie de pastor em sua área (e seus discursos na empresa são justamente o retrato de um sujeito que converte e ganha a confiança dos demais com a lábia) que não fez nada honesto na vida. E não bastando ser ele mesmo desonesto, Jordan Belfort ensina seus amigos e funcionários a como ludibriar os investidores na Bolsa. É impressionante ver como Jordan Belfort foi um cara-de-pau.
E é ainda mais impressionante ver a impressionante (sei que já falei essa palavra duas vezes na mesma frase, mas realmente é impressionante) atuação de Leonardo DiCaprio como Jordan Belfort. Um dos maiores injustiçados da história do Oscar, Leonardo DiCaprio prova mais uma vez (como se precisasse provar mais alguma coisa...) o porquê de ser um dos maiores atores que existem. Torço demais para que ele abocanhe o Oscar de Melhor Ator esse ano, pois ele é a alma do filme. É assustador ver em cena um ator da excelência de DiCaprio fazendo o papel tão difícil de Belfort: ele convence como cara-de-pau, como líder de uma empresa, como bêbado, como drogado... enfim, ele, em nenhum momento, nos faz lembrar que existe alguém interpretando aquele papel. Mesmo que você (por algum milagre) não goste de Martin Scorsese, vale a pena ver o filme só pela atuação impressionante (de novo) de Leonardo DiCaprio.
Martin Scorsese, assim, entrega um filme delicioso. É fascinante ver a experiência de um diretor como ele em cena: a comparação de Belfort com o Popeye, por exemplo, é digna de se tornar referência no mundo cinematográfico. Pessoalmente, gosto mais das obras violentas de Scorsese, mas assistir a'OLobo de Wall Street me deixa desejoso em aguardar seu próximo filme. Quero ver o Scorsese assim: cada vez mais ousado nas telas. Sem sombra de dúvidas ele se divertiu fazendo OLobo de Wall Street. É possível notar isso no filme todo. E é possível se divertir junto o filme todo.
Scorsese é um Mestre. Um dos maiores. Um dos melhores.
Spike Jonze é um diretor com uma obra bastante curiosa, que geralmente desperta um estranhamento em quem assiste. Creio que Quero Ser John Malkovich (1999) seja o filme que melhor ilustra a capacidade criativa de Jonze. Até agora.
Ela é um dos melhores filmes de Ficção Científica (gênero pelo qual, confesso, tenho uma queda muito grande) dos últimos tempos. Não há espacionaves, tampouco explosões: o filme se enquadra no gênero científico por lidar com computadores em um futuro não tão distante (ou, conforme podemos deduzir durante a projeção, um futuro bastante presente). A brilhante história criada por Spike Jonze é, ao mesmo tempo, simples, delicada e encantadora. Dificilmente alguém ficará apático à vida de Theodore Twobly (interpretado por Joaquin Phoenix, que injustamente ficou fora da disputa pelo Oscar 2014 de Melhor Ator): um homem de grande sensibilidade que trabalha como escritor de cartas pessoais para pessoas que não têm, digamos, esse dom. Theodore está sofrendo de depressão pois seu casamento terminou há pouco tempo e ele não consegue seguir em frente. Desse modo, seus dias são bastante rotineiros e suas horas se passam entre o trabalho e seu apartamento.
Porém, estamos no futuro, e a tecnologia da época vai além da que conhecemos atualmente. Todas as pessoas possuem uma espécie de celular-computador que se comunica por voz através de um fone no estilo Bluetooth. E se você acha estranho hoje em dia todos andarem curvados olhando para seus smartphones, em Ela as pessoas andam fazendo gestos como se realmente estivessem conversando com alguém a sua frente. Praticamente as pessoas não conversam entre si, preferindo seus computadores. Com Theodore não é diferente: preso em sua depressão, o rapaz acaba se isolando em seu mundo computacional. Contudo, ao andar pelas ruas certo dia, Theodore se depara com um anúncio sobre o "OS 1", o Sistema Operacional 1. Tomado pela curiosidade, o homem compra o produto e instala em seu computador pessoal. Sua vida, então, ganha novo rumo.
OS 1 é o primeiro sistema operacional inteligente do mundo, que trabalha a partir de todo o conteúdo do HD e na Nuvem do usuário. Sendo assim, o OS 1 é capaz de analisar sua personalidade e corresponder as suas emoções. Tal como os "celulares", o OS 1 se comunica por voz principalmente. E nessa hora entra a deliciosa voz de Scarlett Johansson como Samantha, a personificação de todo o OS 1. Samantha é uma pessoa (?) maravilhosa: bem humorada, cheia de vida, meiga e confidente - em outras palavras, Samantha é tudo o que Theodore precisa em sua vida no momento. A relação dos dois vai se tornando cada vez mais íntima até que, ambos, descobrem-se apaixonados um pelo outro. O filme ganha novos ares e sua delicadeza conquista os espectadores. É difícil não se emocionar com a relação dos dois e também, ao mesmo tempo, não sentir certo estranhamento pelo fato de Theodore ter uma namorada-computador.
E isso é o que mais nos faz refletir: é realmente tão estranho assim amarmos algo que não possua um corpo? O amor está essencialmente ligado a algo físico ou às emoções oriundas do relacionamento? Até os amigos de Theodore acabam aceitando o casal, pois, no futuro, a questão de Turing parece solucionada: as máquinas, realmente, conseguem se comunicar como os humanos. A paixão de Theodore o faz seguir em frente com a vida: é correto julgarmos esses passos como uma aberração se isso faz bem a ele?
Se por um lado Ela possa parecer uma crítica à sociedade atual, ou seja, o fato de usarmos mais os computadores para relações interpessoais do que "reais", por outro, também afirma: "o que importa é tentar ser feliz". Pessoalmente, sou contrário à ideia de que os computadores nos afastam das pessoas, que computadores nos fazem viver em mundos "virtuais" (ie. não "reais"): basta parar pra pensar - provavelmente hoje em dia nos comunicamos mais com as pessoas graças à internet. Isso não nos afasta dos seres humanos, mas nos aproxima. Há não muito tempo, víamos um ou outro amigo pessoalmente e, quando não, íamos a um telefone público de vez em quando para telefonarmos (ou mandávamos alguma carta): hoje é instantâneo e, além disso, conseguimos reencontrar pessoas que, alguma vez, fizeram parte de nossas vidas.
Ela tem o mérito gigantesco de nos fazer pensar. E de nos emocionar. Antes de ser favorável ou desfavorável aos computadores, o filme é uma ode ao amor. Todos nós já nos sentimos como Theodore. E, muitos de nós, talvez tivéssemos sobrevivido se houvesse alguém como Samantha para nos dar um sopro de vida.
Steve McQueen tem apenas três longa-metragens no currículo e, desde o seu primeiro (Fome, 2008), vem ganhando destaque no mundo da Sétima Arte. E o faz por merecer: Fome e Shame (2011) são dois grandes filmes que são capazes de fazer - no melhor estilo - aquilo que o cinema é suposto a entregar ao espectador: emoção. Uma das marcas registradas do trabalho de McQueen é a dupla com o ator Michael Fassbender (que, apesar de dispensar elogios a sua atuação, é simplesmente impossível não fazê-lo): desde Fome eles trabalham juntos e isso, creio, seja aquilo que dê um tempero especial aos filmes do McQueen. Quando diretores e atores se dão bem, dificilmente falta algo nas telas - é só ver o caso de Scorsese e DiCaprio, por exemplo (ou, em menor grau - bem menor, aliás - Tim Burton e Johnny Depp). O mais recente filme de Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão, para mim, é o melhor entre seus trabalhos. Mais: é um marco na história do cinema estadunidense, um filme que há muito tempo deveria ter sido feito mas que só agora chega ao circuito comercial de todo o mundo.
Há vários fatores que "assustam" quem assiste à 12 Anos de Escravidão. O primeiro é o que surge na tela bem no começo: o filme é baseado em uma história real; isso só faz aumentar o nó na garganta e o enjoo no estômago que estão presentes durante toda a projeção. O último é o que nos diz, antes dos créditos finais, que tudo o que assistimos foi baseado no livro - que dá título ao filme - escrito pelo próprio Solomon Northup: personagem principal da obra vivido pela atuação embasbacante de Chiwetel Ejiofor. Entre o primeiro e o último fatores, estão uma série de pequenos momentos que sempre nos fazem perguntar: "Por que? Por que seres humanos são assim?". E esse é o maior mérito de 12 Anos de Escravidão, jogar na plateia a natureza, muitas vezes, horrenda e nojenta dos seres humanos.
12 Anos de Escravidão tem uma história relativamente simples, mas que, infelizmente, parece ter sido muito comum nos EUA momentos antes da Guerra Civil. Acompanhamos a trajetória de Solomon Northup, homem negro livre, casado e pai de um casal de crianças, que certo dia é enganado por dois brancos com a promessa de tocar violino em um circo na Capital e acaba sendo vendido como escravo (esse tipo de situação era chamada de "sequestro" na época). Enviado para trabalhar nas fazendas do sul, Solomon enfrenta a desumana realidade de centenas de milhares de escravos negros, sofrendo todos os abusos físicos e psíquicos oriundos da sociedade escravocrata dominada pelos homens brancos.
Narrado de forma não linear, 12 Anos de Escravidão é permeado por momentos marcantes e que nos fazem refletir sobre a história dos EUA (e talvez por isso o filme não tenha ido bem de bilheteria por lá) e também do Brasil. É absolutamente impossível ficar apático à primeira surra/espancamento que Solomon recebe no cativeiro logo após ter sido traído e vendido. Creio que a importância das cenas de violência estabelecidas por McQueen é o que tornam o filme tão bom: não são cenas gratuitas, estão lá como força-motriz da narrativa. Do mesmo modo, não são apelativas, exageradas em sangue: McQueen opta por mostrar a face, a dor dos castigados ao invés de sangue jorrando na tela. Decisão brilhante! Isso cria, ainda mais, empatia do espectador pelos escravos. O chicoteamento quase no final do filme, realizado pelo Mestre Edwin Epps (Fassbender) contra a escrava é uma das cenas mais marcantes que já vi, e se torna ainda pior e mais dolorosa quando Solomon é obrigado por seu senhor a chicotear sua companheira.
Outro ponto que achei bastante interessante no filme é o fato de haver diferenciações entre a sociedade negra estadunidense: os homens e mulheres negros nascidos livros chamam os escravos de "negros" (niggers), em tom pejorativo, e não parecem se importar em, eles mesmos, terem escravos. Acho que Steve McQueen foi extremamente feliz na escolha de apontar esses preconceitos (ou contextos) durante o filme: a obra mostra os dois lados da sociedade escravocrata estadunidense com imparcialidade mas que, obviamente, condena o tratamento dos homens brancos dados aos homens negros (e que qualquer pessoa com o mínimo de inteligência vai concordar que a escravidão é algo execrável). E toda a tristeza que permeia o filme e o espectador se torna em revolta ao final da projeção, quando os letreiros dizem o que ocorreu a Solomon e o julgamento de seus sequestradores.
O que mais assusta, contudo, é que fica a questão em nossas cabeças após vermos o filme: "Será que isso realmente mudou?". Sabemos que os EUA é uma sociedade extremamente racista. E sabemos que o Brasil também o é (por mais que discursos vazios tendam omitir esse fato). São duas nações que têm sangue de escravos em suas mãos e que parecem não querer lavá-las tão cedo. Por isso, 12 Anos de Escravidão é um filme importantíssimo.
É necessário assisti-lo. Refletir. Se possível, passá-lo a alunos em sala de aula. Usá-lo como ponto de partida para estudos da sociedade escravocrata do Dezenove. E, o mais importante, jamais deixar cair no comodismo e no senso geral o fato de que, sim, fomos modelados tendo por base o trabalho escravo - e que isso é uma mácula com a qual devemos, sempre, conviver e analisar.
Mérito de McQueen. Sorte a nossa de podermos assistir a um filme assim.
Felix Van Groeningen é um nome que eu nunca havia ouvido falar. O diretor belga tem 5 filmes no currículo (todos com notas muito boas no IMDB) e, agora, ganha um destaque maior por ter sua obra mais recente, The Broken Circle Breakdown, como pré-candidata ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014. Porém, de agora em diante ficarei mais atento ao seu trabalho, pois competência Felix Van Groeningen tem de sobra!
The Broken Circle Breakdown é um filme que, ao mesmo tempo, parece tão familiar e tão original a quem assiste. Contudo, creio que sua maior qualidade seja a de casar a tristeza profunda que impera no filme com a sutileza de momentos felizes e, ponto para os roteiristas, música bluegrass de alta qualidade. O filme não tem uma estrutura fácil, pois é montado em forma helicoidal, ou seja, a todo momento há passagens mescladas do passado, presente e futuro, mas é justamente aí que reside sua força: ele deixa o espectador curioso, tentando adivinhar o que está se passando. E, além de instigar a curiosidade, The Broken Circle Breakdown também arranca algumas lágrimas (ou muitas) de quem assiste - mas sem jamais se tornar apelativo e cair no dramalhão.
Uma história de alegria e tristeza. Acompanhamos a vida do casal Didier - tocador de banjo - (brilhantemente interpretado por Johan Heldenbergh) e sua amada (e carismática e cheia de vida) Elise (a bela atriz Veerle Baetens). Embora, como dito, não sendo linear, podemos acompanhar todo o ciclo que dá título ao filme, vendo o primeiro encontro e acompanhando o desfecho de suas vidas. A união do casal é marcada pela vinda de sua filha, Maybelle, que representa uma negação, uma alegria e uma preocupação. O filme começa justamente com o diagnóstico de câncer na garota de 7 anos mas, ao invés de ficar apenas focado nisso, The Broken Circle Breakdown vai além e entra no campo religioso: Didier é ateu, Elise é cristã. No entanto, evitando todos os clichês possíveis, o filme torna-se inteligentíssimo ao abordar esses temas (a cena de Didier explanando à esposa como teria de explicar a morte de um passarinho à filha é genial). A obra entra em um crescendo que nos faz querer ver mais e mais da história, em nenhum momento se tornando cansativa. E, um pouco antes da metade da projeção, ocorre um marco que afeta a vida do casal de músicos e vai minguando a felicidade.
Para não entrar em mais detalhes sobre o filme, vale destacar aqui a estonteante fotografia de The Broken Circle Breakdown: simples, como a vida do casal (as cenas de nudez no campo são bastante poéticas), e que valoriza as tatuagens de Elise, que faz questão de marcar na pele cada etapa (boa e ruim) de sua existência. As tatuagens tornam Elise uma figura muito interessante, e ver sua pele nua é um exercício de decodificação. Do mesmo modo, as músicas são elemento essencial na narrativa: o casal canta junto com os amigos da banda, e muitas vezes cantam aquilo que aconteceu em suas vidas: a parte em que Elise canta sobre a filha que quer ver a mãe é tocante, e a cena quase final do casal cantando sobre o amor com Elise ignorando Didier é de uma dor gigantesca. Mas a música, que inicia o filme, chega a fechá-lo e nos mostra uma das cenas mais belas já feitas até hoje! É impossível ficar apático ao momento: é lindamente triste, embora soando alegre - é um paradoxo que nos faz repensar muitas coisas sobre o ato de existir.
E a existência é o cerne de The Broken Circle Breakdown. Existimos por causa de um deus - como pensa Elise - ou somos um acaso surgido de uma explosão como pensa Didier? A verdade é que ateus e teístas nem sempre conseguem um convívio tranquilo e isso tende a piorar quando nasce uma filha e uma tristeza abala nossas vidas. Elise e Didier entram em uma discussão séria sobre almas e vida pós-morte e isso gera um dos momentos inesquecíveis da obra: o discurso acalorado de Didier durante um show sobre a proibição de pesquisa com células-tronco nos EUA (durante o governo Bush) - dita como algo que vai contra Deus - e a figura maligna de Deus retratado na Bíblia. Quando a tristeza abala a família, Didier encontra em seu ateísmo a razão de continuar a viver; Elize, por sua vez, busca na espiritualidade o seu conforto. A situação torna-se insustentável e o círculo quebrado.
The Broken Circle Breakdown é um belíssimo filme em todos os sentidos. Um dos melhores que vi esse ano. Torço para que chegue a concorrer ao Oscar 2014: é um reconhecimento à altura de tão grande obra. Um filme marcante.
Há filmes que simplesmente se tornam desnecessários quando vistos com mais atenção. Em 2003, os irmãos Wachowski mostraram isso ao jogarem no mundo o seu Matrix Reloaded: sem acrescentar praticamente nada de útil à história central, o filme foi claramente feito com o intento de se montar uma trilogia. Confesso que até estava confiante quando Peter Jackson anunciou que a adaptação do livro O Hobbit seria em duas partes - embora achando que um filme de 4 horas desse conta, até que repensei e acabei concordando com a divisão em duas partes. Elas seriam suficientes. Porém, pouco antes da estréia de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012), o diretor anunciou que a obra ganharia mais um capítulo, formando a trilogia (numa clara tentativa de se igualar ao Senhor dos Anéis (2001-2003). Há um problema central nessa escolha: o livro sobre as aventuras de Bilbo Bolseiro tem cerca de 1/4 do tamanho do Senhor dos Anéis. Desse modo, ficou claro desde o começo que o diretor Peter Jackson tomaria liberdades maiores do que as que tomou na trilogia anterior e teria de inventar passagens para produzir 3 filmes com quase 3 horas de duração cada.
Quando assisti ao O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, tive a surpresa de que ocorreu justamente o contrário: o filme é extremamente longo e cansativo não por causa de invencionices, mas justamente pela decisão do diretor de simplesmente ser literal demais, levando às telas cada trecho do livro. Dessa vez, porém, com a simples justificativa de que era necessário transformar 2 filmes em 3, Jackson assassina finalmente a obra de Tolkien, deixando pouquíssimos elementos originais na tela e, o pior, errando a mão em cada elemento novo que traz ao público. O Hobbit: A Desolação de Smaugé um filme que não precisaria ter sido feito e, tornando-se real, é uma das piores coisas lançadas nesse já fraquíssimo ano cinematográfico de 2013.
Fazendo um esforço hercúleo, pude enxergar dois pontos positivos no filme: 1) em uma passagem na Floresta Negra (Mirkwood), quando os anões são atacados por aranhas gigantes, Bilbo coloca o Anel e passa a ouvir vozes dos aracnídeos - isso é algo que reclamei sobre a ausência no primeiro filme, já que os animais falam no livro... contudo, no filme, só falam quando estão no "outro lado", quando Bilbo bota o Anel e vê o mundo diferente; 2) Smaug é realmente impressionante do ponto de vista técnico: num filme em que a computação gráfica é, no geral, muito ruim (claramente percebe-se que certos personagens são feitos em CG), o dragão surge como uma grata surpresa, mas deixa a questão: ele só parece impressionante porque todas as passagens ocorrem em ambientes de pouca luz? De qualquer modo, a captação facial e o vozeirão de Benedict Cumberbatch, é um passo além do belo trabalho que vem sendo realizado desde o Gollum do Senhor dos Anéis.
Afora esses pontos acima mencionados, o filme é um desastre e deixa-nos realmente desolados... Peter Jackson esforça-se para acabar de vez com a obra original ao optar por um tom extremamente sombrio nesse segundo filme. O pior é que é um tom sombrio que simplesmente não reflete nas personagens: você não consegue sentir angústia ou sofrimento neles e não sei se isso é falha de roteiro (que acredito ser) ou falha de interpretação (que também não descarto). A impressão que me fica é a de que Peter Jackson desencanou nessa trilogia do Hobbit: ele fez um trabalho tão bom nos filmes anteriores que, me parece, isso justifica todas as suas faltas para com os filmes novos.
E o que dizer de Beorn, uma figura interessante no livro e que, aqui, não tem a sua presença justificada? Seu aparecimento é tão rápido e desconexo que não dá pra engolir a retirada de Tom Bombadil da trilogia anterior: se fosse pra fazer algo tão superficial quanto fizeram com Beorn, deixassem o velho Tom em cena. Enfim, Beorn chega, fala umas 5 frases, e some parta não voltar. Sem contar que sua aparição como urso é muito grosseira, deixando claro que empregaram uma computação gráfica que não está à altura do orçamento gigantesco dos filmes. Outro ponto extremamente negativo no filme é a figura da belíssima-semi-deusa Evangeline Lilly (a Kate de Lost) como a elfa Tauriel: não tenho nada contra a inserção de personagens novos no filme, porém, Tauriel não se justifica. Ela existe apenas para mostrar que é a versão feminina de Legolas e para estabelecer uma historieta paralela dentro do filme simplesmente fútil: sua paixonite pelo anão Kili. Não entendo a necessidade de se colocar elementos românticos numa história em que nada disso acontece... De qualquer modo, se for fazer, que se faça direito, e não torno tudo em um martírio aos espectadores, já que as cenas são longas demais e quebram o fraquíssimo ritmo do filme.
Muitos podem dizer que o filme tem um ritmo alucinante. Bom, se por ritmo entende-se "batalhas atrás de batalhas", então eu teria de concordar. Isso é o que mais acontece em O Hobbit: A Desolação de Smaug: batalhas, batalhas e batalhas. Batalhas que não desenvolvem o filme em nenhum aspecto. Longas batalhas que fazem a gente pensar "falta muito para acabar?". Eternas batalhas que levam o filme a seus 160 minutos de tortura. Não há tempo para se desenvolver nenhum dos personagens nesse segundo filme (lembrem-se, eram 2 filmes que se tornaram 3, então teriam de "encher linguiça" em algum momento), pois eles estão lutando a todo momento! Assistir a mais de duas horas e meia de batalhas (bem feitas e coreografadas, tenho de concordar) é cansativo demais. Temos uns 15 personagens principais em cena e não descobrimos praticamente nada deles nesse tempo.
Enfim, Peter Jackson cometeu seu segundo erro seguido em O Hobbit: A Desolação de Smaug. Acredito que o filme só concorrerá em prêmios nas categorias técnicas: não acontecerá como em O Senhor dos Anéis, em que o último filme foi coroado com o Oscar numa espécie de conjunto da obra. Essa trilogia de hobbits e anões é simplesmente ruim demais para sequer sonhar em levar algo tão valioso quanto a Pedra Arken para casa.
Depois de quase um ano de sua estreia no Festival de Toronto, eis que o novo filme de Terrence Malick chega oficialmente aos cinemas estadunidenses. E chega com ares polêmicos, para variar: os que amam Malick, reforçam seu amor, e os que odeiam têm mais uma chance de atacar o diretor. E dessa vez muita gente irá com pedras nas duas mãos para jogar em Malick: To The Wonder (um título perfeito, que foi estragado ao ser traduzido por Amor Pleno no Brasil) é ainda mais "vazio" do que A Árvore da Vida (2011), contem ainda menos "história" do que o filme anterior e, pra aumentar o desespero dos que odeiam Malick, o filme se constrói praticamente todo em voice overs. É bom deixar bem claro: esse filme, embora mais simples do que A Árvore da Vida, não é para qualquer um.
A obra do Malick vem sendo cada vez mais poética, mais narrada: algo que começou timidamente em Além da Linha Vermelha (1998), cresceu em O Novo Mundo (2005), amadureceu n'A Árvore da Vida (2011) e culminou em To The Wonder. Eu arrisco - com todo o carinho do mundo que tenho por Malick - a dizer que sua obra não é sinestésica, mas, sim, cinestésica (isso mesmo, com "c de casa", no sentido biológico-medicinal, digamos). Em To The Wonder isso é desenvolvido e levado a seu extremo: a sensação de equilíbrio e a auto-percepção de que existem partes diferentes em nossos corpos, é como o Amor que Malick apregoa em seus 112 minutos de filme. É necessário haver um balanceamento, pois quando se tira de um lado, o outro sentirá falta e buscará, de alguma maneira, compensar esse desconforto. Talvez seja essa busca por equilíbrio, essa busca pelo amor que fará com que muitos não gostem do filme: tal como os seus anteriores, é necessário não assistir, mas se entregar à obra e a experimentar, pois Malick trabalha com experiências (ele sendo filósofo de formação, seria difícil pedir o contrário). Despindo-se de preconceitos e pré-conceitos com os quais somos bombardeados frequentemente pelo cinema hollywoodiano, permita-se apenas imergir em sensações. Não busque em To The Wonder 'histórias" ou coisas que façam um sentido de fácil dedução: afinal, isso não é a vida de verdade - se pararmos pra pensar, viver é algo muito simples, e nosso dia-a-dia não é um roteiro de filme. Tendo tudo isso em mente, assista à obra.
Embora o IMDB aponte nomes aos personagens principais do filme, eu não consegui identificar nenhum durante a exibição (mas isso pode ser porque só o assisti uma vez), porém, como fica mais fácil escrever aqui com nomes, os usarei. To The Wonder seria quase um triângulo amoroso entre Neil (Ben Affleck), Marina (Olga Kurylenko) e Jane (Rachel McAdams), sendo que as duas mulheres não se conhecem. Eu disse "quase" porque, para haver um triângulo amoroso, é necessário que haja o fundamental: o amor. Não é bem isso o que sente Neil. O filme começa com ele se encontrado com Marina no fantástico monastério de Mont Saint-Michel, na França, e tendo uma paixão. Eles formam um casal pela cidade de Paris, morando juntos com a filha de Marina com seu ex-marido, a Tatiana (uma garota de 10 anos). Em Paris, Marina é cheia de vida, feliz, e acostumada ao barulho e caos das grandes cidades (que, como sabemos, Malick odeia), porém, quando muda-se com a filha para a casa de Neil em Oklahoma, as coisas começam a tomar outro contorno: embora ela continue cheia de vida, dançando e pulando, aos poucos vai percebendo que essa felicidade contrasta demais com a quietude e melancolia de Neil, que está sempre calado, embora seja um homem bastante apaixonado e romântico. Com a filha não se acostumando à cultura estadunidense e com as discussões cada vez mais frequentes com namorado, Marina resolve voltar à Paris, deixando o coração de Neil livre para ter um caso com Jane, uma mulher do campo (que, como sabemos, Malick adora) que cuida de animais e teve uma filha que morreu com pouca idade. Após um tempo separados, Marina resolve voltar para os EUA e reencontra Neil. Uma nova paixão recomeça, mas há especificidades na natureza humana que faz com que dificilmente mudemos e isso afeta o casal.
Se até agora não falei da figura do Padre Quintana (Javier Bardem), mesmo ele aparecendo em muitas cenas, é porque ele é o contraponto à história de amor do casal Neil/Marina. Quintana representa o amor de Deus, aquele que é capaz de unir pessoas no matrimônio, perdoar detentos e dar paz aos doentes. Porém, Quintana sofre com sua própria fé: ele pede constantemente que Deus o faça reencontrar seu amor por Ele, que faça Seu amor penetrar no coração dos homens, que só brigam e se destroem. E é com Quintana que Malick vai, de fato, apresentar sua tese aos espectadores: o amor dos homens nunca será nada se eles não encontrarem aquele "amor que nos ama" - como diz algumas vezes Marina -, o amor divino. Neil, Marina e Jane não têm paz interior, pois conseguem mais facilmente amar uns aos outros do que a Deus. Um Deus que está, constantemente, olhando por todos: tal como em A Árvore da Vida, Malick filma todas as tomadas externas contra a luz do sol, deixando ele aparecer e nos ofuscar, por vezes. Contudo, o amor em To The Wonder é diferente daquele apresentado pela Graça no filme anterior: se em A Árvore da Vida é mostrado o amor bonito, jovial, alegre, em To The Wonder é apresentado o amor sexual, o amor triste, que machuca, e também aquela fase do amor que entorpece - e talvez por isso o filme tenha um ritmo um pouco mais lento de narração quando comparado ao anterior. Já escrevi tanto sobre A Árvore da Vida aqui nessa impressão que acredito ter deixado claro: são filmes complementares, incluindo algumas tomadas e movimentação de câmera quase idênticas ao To The Wonder. Porém, o que mais gostei foi o jogo de cores do filme: enquanto no antecessor era tudo muito brilhante e vívido, agora as cores estão desbotadas, quase um tom de sépia toma conta dos campos e, principalmente, o céu está sempre nublado: coisas que só o gênio Terrence Malick consegue trabalhar tão bem.
Para finalizar, fica aquela questão: To The Wonder é melhor do que A Árvore da Vida? Eu digo que não. Mas digo isso porque, assim como escrevi na impressão do filme na época, Malick decretou o fim do Cinema quando o dirigiu. Dificilmente, na minha opinião, alguém conseguirá fazer algo melhor, incluindo o próprio Malick. To The Wonder é um complemento de A Árvore da Vida, não um filme totalmente original (e talvez isso explique o seu rápido processo de produção, durando apenas 1 ano), então dificilmente iria se sair melhor. De qualquer modo, ter o prazer de ver uma obra do Malick é inenarrável, por mais que eu tente escrever nessas linhas. Quando fiz a lista de Melhores e Piores de 2012 e tive de apontar o filme que mais aguardava para esse ano, eu só elenquei um: To The Wonder. Até mesmo disse que ele seria o melhor filme de 2013.
(Dessa vez, uma impressão um pouco diferente, bastante fundamentada nos debates acadêmicos e que, assim como o filme, continua atual quase três anos após sua publicação no Valor Econômico. Agradeço ao Moisés Baptista e à Denise Rodrigues por liberarem seu artigo também ao CineImpressões!)
Fonte: Missão dada é missão cumprida: Artigo sobre o Filme "Tropa de Elite 2". Valor Econômico, São Paulo/SP, p. 22 - 23, 29 out. 2010.
Cremos que é possível dizer no início deste breve artigo que ficção e realidade caminham de mãos dadas nas salas dos cinemas do país.
"Tropa de Elite 2" traz à tona uma série de reflexões capazes de ser aplicadas na análise da realidade brasileira. Ao passo que o primeiro longa da série dirigido por José Padilha focou a questão do monopólio legítimo do uso da força pelo Estado, corporificado pela atuação do Bope, o novo filme assume nuances mais complexas. Se no primeiro filme de Padilha são apresentados ao espectador o universo do crime, a corrupção policial, as proximidades e os cruzamentos entre esses dois mundos, "Tropa de Elite 2" abre espaço para um debate mais complexo, voltado para a teia de relações e dos jogos de interesse presentes no sistema político e na segurança pública da Cidade Maravilhosa. Entretanto, é possível que em cada canto deste país os espectadores associem os eventos e situações à realidade dos seus bairros, municípios e Estados.
Ao acompanharmos os fatos apresentados na trama é possível percebermos a "caminhada" da corrupção, percorrendo diversos espaços institucionais, como o sistema prisional, a corporação policial, escritórios de políticos, e chegando às comunidades dos morros. No entanto, há uma indicação de que a "caminhada" tem início na arena do poder político estatal. A corrupção que antes era visualizada como uma ramificação do sistema de segurança pública (um batalhão específico do corpo policial, o "batalhão dos corruptos") agora se espraia para a instância da representação política do Estado. Séculos atrás, Thomas Hobbes atribuiu ao Estado o papel de implementar o contrato social capaz de deter em sua essência a materialização do homem como "o lobo do próprio homem". No século XXI, embora sob o formato de obra fictícia, "Tropa de Elite 2" apresenta o Estado como a mola mestra que retroalimenta as atitudes ilícitas, com fins meramente particulares, nos setores mais próximos à população, ou seja, o avesso do que foi proposto pelo filósofo inglês.
Em resposta à reivindicação apresentada pelo personagem André Matias (André Ramiro), sobre o descaso e o abandono enfrentados pelos policiais do Bope, o protagonista consagrado pelo público, Coronel Nascimento, parte para a implementação de decisões que seriam capazes de "corrigir o sistema". O Bope é reestruturado em armas, treinamento e veículos blindados. O tráfico é expulso da comunidade, impedindo que os policiais corruptos arrecadem o "arrego" de traficantes.
Antes vista como ramificação do sistema de segurança pública, a corrupção agora se espraia para a representação política do Estado
Apesar de seus esforços, Nascimento descobre que sua estratégia falhou em deter o ciclo de reprodução da corrupção e da violência urbana, especialmente contra os membros das comunidades que, agora, em troca do "cenário de paz", são obrigados a "negociar" seus bens de consumo e meios de sobrevivência com as milícias. Recomeça o ciclo, agora com mais força, sob o controle dos policiais corruptos aliados aos candidatos a cargos políticos. É possível que essa seja uma das ideias mais importantes do filme, a de que investimentos pesados na construção de presídios e na infraestrutura policial não são suficientes quando pensados de maneira isolada e imediatista. Algo que ainda não foi compreendido totalmente é a concepção de que os direitos são indivisíveis e que as políticas sociais necessitam ser pensadas em rede, não de maneira pontual.
De forma semelhante ao primeiro longa da série, Padilha direciona, na narrativa de Nascimento, provocações aos militantes "de esquerda" que defendem os direitos humanos. Contudo, nas entrelinhas, o filme demonstra aos espectadores mais atentos que o entrave entre o discurso de defesa dos direitos humanos e o Estado é fatalmente regido por jogos de interesse capazes de limitar a aproximação entre a esfera real e ideal da proteção aos direitos.
A partir desse ponto, é possível reconhecer que, de forma paradoxal, o Estado assume tanto o papel de provedor de direitos da sociedade quanto de perpetrador de violações aos direitos humanos. As circunstâncias e os objetivos em questão é que determinarão qual será o papel assumido. É aí que se encontra o ponto-chave do filme. O próprio sistema estatal assume um papel violador sobre a população, quando deveria atuar como seu protetor. E as consequências são as mesmas apresentadas pelo discurso de defesa dos direitos humanos: a dificuldade de implementação prática da democracia e da proteção aos direitos dos indivíduos. "Tropa de Elite 2" aponta para uma substituição do bem comum pela rede de interesses e favorecimentos próprios de uma parcela dos representantes do poder estatal.
Ao passo que o primeiro longa trouxe à discussão as violações e abusos contra as pessoas pertencentes aos extratos mais vulneráveis (em especial, os moradores dos morros cariocas), a continuação traz como complemento o apoio de parte da população à atuação mais enérgica por parte da polícia. Há uma identificação do público que, na realidade brasileira, clama pela atuação enérgica da polícia, pela proliferação das unidades prisionais e pela adoção de penas mais duras, com o mesmo público que na ficção torna legítima a atuação violenta e abusiva da polícia ao aclamar Nascimento como herói, por ter assumido a responsabilidade pela execução de detentos de Bangu I.
Em nossa opinião, o ponto de destaque do filme é a busca do protagonista em identificar o motivo pelo qual "o sistema", repleto de ilegalidades, é difícil de ser quebrado. Por vezes, da mesma forma, buscamos uma explicação para os escândalos que afloram das esferas de atuação dos nossos representantes políticos. É possível que a permanência desse sistema de corrupção institucionalizada esteja na herança brasileira, enraizada do mais baixo ao mais alto escalão pela defesa dos objetivos individuais, pela possibilidade de recorrer ao "jeitinho" e aos favores daqueles que pertencem às classes mais privilegiadas hierarquicamente.
Como afirma o antropólogo Roberto DaMatta, possivelmente a aplicação do "você sabe com quem está falando?", que desqualifica as regras e decretos universalizantes, foi espraiada para o universo das relações sociais cotidianas para a esfera decisória, da política em si mesma. E isso com a legitimidade popular corporificada pelo voto. Fazendo alusão ao subtítulo de "Tropa de Elite 2", talvez nosso inimigo também seja outro. Talvez sejamos inimigos de nós mesmos. E, nesse processo, a decisão popular é determinante, para o bem ou para o mal.
Ao confrontarmos realidade e ficção, reconhecemos as diversas missões delegadas à sociedade brasileira: a necessidade de aproximação entre o discurso em prol da defesa dos direitos humanos dos cidadãos e a atuação dos representantes do Estado; o imperativo de afastarmos o risco de transmutação dos anti-heróis em mocinhos, dos "Fábios" e "Russos" em exemplos; a obrigação de definirmos nossos "heróis" e representantes com base em princípios éticos e democráticos, que contribuam para a efetividade prática do bem comum e da igualdade de todos perante a lei. Quiçá, um dia, o Brasil cumpra suas inúmeras missões. Porque, afinal, "missão dada" deveria ser "missão cumprida".
O poster desse filme é bastante épico, ainda mais remetendo à Criação bíblica, como se o destino de alguns homens fosse ser o pioneirismo em algumas áreas. Contudo, Cimarron não se limita ao épico apenas na imagem que foi afixada nos cinemas quando lançado: o filme narra uma jornada de 40 anos, mostrando como os estadunidenses fizeram sua corrida para tomar posse das antigas terras indígenas Osage e Cherokee. Grandiosa, a obra foi dirigida por Wesley Ruggles e recebeu o prêmio de Melhor Filme no Oscar de 1931.Essa foi a primeira vez que um filme com elementos de Western recebeu tal honraria.
Acho que o grande problema do filme para quem não conhece um pouco mais da história dos EUA é o título. À primeira vista, parece ser um nome próprio, talvez do protagonista masculino principal da narrativa. Mas o filme termina e só em um momento o termo "cimarron" aparece, e é pejorativo (ao menos, foi o que entendi). Isso leva os mais curiosos a procurarem um pouco sobre esse nome e, ao fazerem isso, vão se deparar com algo que não é tão simples de se entender, tornando-se um tanto confuso: Cimarron era o nome dado aos territórios dos índios cherokee após a Guerra da Secessão e que foram ocupados, primeiramente, por vaqueiros em busca de territórios para pecuária. Porém, com o passar do tempo, começou a haver regulamentações e leis feitas por e para esses moradores, levando a uma distinção clara entre os que pertenciam à cultura estadunidense e aos que tinham tradições indígenas. Desse modo, havia, sim, uma fronteira que separava territórios de diferentes culturas, mas ela era tênue e, em 1889, o presidente Benjamim Harrison deu carta branca aos estadunidenses para invadirem as reservas indígenas e estabelecerem assentamentos nelas.
Cimarron começa justamente nesse momento. Os documentos apontam para 50.000 cidadãos estadunidenses adentrando o território de Oklahoma em 1889 em uma corrida por terras. E quando digo "corrida", quero dizer literalmente uma corrida: a primeira cena do filme é embasbacante quando levamos em consideração que tudo em 1930/1931 era feito com pessoas de verdade, figurantes, sem uso de computação gráfica - são vários minutos de carroças, cavalos e bicicletas (!) cruzando o território em desabalada carreira, com tomadas bem amplas e um ou outro contra-plongée mostrando detalhes das rodas das carroças. Logo após somos apresentados aos personagens principais e o filme começa a tomar forma: Yancey Cravat (Richard Dix) é casado com Sabra Cravat (Irene Dunne) - com quem tem o pequeno Cim - e mora em Wichita (Kansas). A família de Sabra desaprova o casamento pelo fato de Yancey ser um homem de alma livre, um aventureiro, mas esse é um dos motivos que fazem a jovem amar o marido. Participando da corrida por terras de 1889, Yancey consegue um lote na terra dos índios osange e estabelece moradia lá com sua família. Ele também é editor de jornal e em pouco tempo funda o Oklahoma Wigwam, periódico que logo alcança significante reconhecimento e faz com que Yancey torne-se uma figura pública na cidade, participando de cultos religiosos e ajudando a defender o local de grupos de bandidos. É esse espírito pioneiro e corajoso de Yancey que serve de guia para todo o resto do filme. Mostrando a virada do século como algo sempre evolutivo, a obra dirigida por Ruggles serve de propaganda para o contexto difícil que os EUA atravessavam durante a produção do filme: a Grande Depressão.
Yancey Cravat nunca se prende a um lugar, está sempre em busca de novas aventuras e parte por longos anos em busca de novos territórios para conquistar quando o governo estadunidense começa a preparar outras corridas por terras. Em seu lugar na preparação do jornal fica sua esposa Sabra, que também é um retrato da mulher que, embora nunca podendo botar freios em seu marido, torna-se empreendedora e condutora dos afazeres do esposo enquanto ele não volta: Sabra seria muito bem uma mulher independente se os padrões da época assim permitissem. Em outras palavras, Cimarron foi filmado tendo por base o famoso livro homônimo redigido por Edna Ferber em 1929 e mostra - ou tenta mostrar - para as plateias que iam ao cinema na época como é possível superar problemas que surgem ao longo dos anos: problemas políticos e econômicos. O filme (e o livro), então, seria um meio de inspirar as pessoas a vencerem a Depressão que se arrastava desde 1929.
Mesmo tendo, num momento ou outro, alguns discursos pró-indígenas por parte de Yancey Cravat, Cimarron é claramente uma obra estadunidense que se baseia na desapropriação de terras e deculturação indígenas. É errado fazer o que fizeram aos índios? Sim, como o próprio Yancey admite. Porém, ele mesmo parte em busca de novos territórios e luta contra os espanhóis para conquistar mais lugares no Oeste. No discurso jornalístico, tudo é muito bonito. Mas dificilmente Yancey ganharia uma estátua em Oklahoma se tivesse, de fato, lutado pelos direitos indígenas e, principalmente, vencido.
O filme em si é bastante agradável de se ver. Mesmo tendo envelhecido muito com o tempo e não ser mais tão atual, quando temos em mente os contextos históricos nos quais a obra se passa (afinal, ela começa em 1889 e termina em 1930!) ela se torna muito mais atraente. Vale a pena assistir mesmo não sendo um dos melhores filmes já feitos. Ainda mais por ter sido o primeiro filme a ser indicado nas 5 categorias principais do Oscar na época: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz, Melhor Ator e Melhor Roteiro.
Para a alegria de todos os cinéfilos, a Universal Pictures comemorou os seus 100 anos de existência lançando em blu-ray alguns de seus maiores sucessos. As edições vêm em formato especial: numa caixinha e contanto com um livreto colorido impresso em papel-foto. Embora não tendo um preço muito razoável aqui no Brasil, vale a pena investir naqueles títulos que realmente interessarem, afinal, a restauração e a conversão para Full HD é bastante competente e agrada aos que, assim como eu, são chatos com relação à qualidade de som e imagem dos filmes. Dentre as obras lançadas, está Nada de Novo no Front, filme de 1930 e terceiro ganhador do Oscar na categoria Melhor Filme (sendo, também, a primeira obra não musical a receber tal honraria).
O contexto histórico e econômico em que o filme foi produzido é bastante interessante. Mal o mundo estava se reerguendo da Primeira Guerra Mundial, a quebra na Bolsa de Valores nos EUA (1929) veio e afundou tudo novamente. Conseguir dinheiro nessa época, então, se tornou mais difícil, e o que acabou realmente dando um sopro de vida na indústria cinematográfica estadunidense - e fazendo com que ela continuasse adiante - foi o fato de os próprios estúdios terem suas salas de cinema, onde exibiam seus lançamentos. Some a isso o contexto do Cinema em si: o reinado dos filmes mudos chegara ao fim, e havia um pouco de pessimismo com relação aos filmes falados, tanto da parte do público como, principalmente, da parte dos atores, que precisavam se adaptar ao novo formato, embora nem todos conseguissem (Buster Keaton é um exemplo clássico desse momento).
Convenhamos que o clima não era um dos mais agradáveis e a incerteza sobre o futuro pairava sobre a sociedade estadunidense. Porém, a situação era pior na Europa, principalmente na Alemanha, quebrada pela guerra e tentando se reerguer sob o parlamentarismo da República de Weimar (para esse período, recomendo a leitura da brilhante obra de Alfred Döblin, Berlin Alexanderplatz, ou assistir à homônima mini-série de 1980, dirigida por Rainer Werner Fassbinder). Contudo, em 1929, um jovem autor alemão chamado Erich Maria Remarque publicou um livro intitulado Im Westen nichts Neues (Nada de Novo no Front) que vendeu, em 18 meses, 2,5 milhões de exemplares. Esse livro talvez passasse despercebido se não fosse por uma característica marcante: é uma obra antibelicista. Um livro antibelicista escrito por um alemão em uma Alemanha na qual, embora ainda não estando no poder, já contava com uma alta influência nazista. Em outras palavras, era o grito de paz de um jovem cidadão que lutou nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial e viu seus amigos morrerem. Obviamente, esses ideais antibelicistas trouxeram problemas a Remarque e ao filme quando foi exibido na Alemanha: durante as sessões, os nazistas gritavam frases de guerra e soltavam ratos pelos cinemas e, no caso do autor, a continuação de seu livro, lançada em 1931, Der Weg zurück (The Road Back), foi proibida no país. Felizmente, porém, os direitos da primeira obra foram adquiridos pela Universal que, por sua vez, escolheu o talentosíssimo Lewis Milestone para dirigir a adaptação.
Milestone nasceu na Rússia czarista e migrou para os EUA quando ainda era adolescente. Em solo estadunidense, ingressou na indústria cinematográfica e foi galgando os degraus até assumir a função de diretor. A sua competência foi reconhecida pela primeira vez no Oscar de 1929, ganhando o prêmio de Melhor Diretor pela comédia Dois Cavaleiros Árabes, desbancando William Wellman e seu vencedor Asas. Já em 1930, Lewis Milestone abocanhou o Oscar de Melhor Diretor, e seu filme Nada de Novo no Front ganhou o de Melhor Filme: isso foi o suficiente para que Milestone estabelecesse seu merecido lugar na galeria dos grandes diretores da Sétima Arte. Talvez a obra não fosse atemporal se Milestone não a tivesse dirigido. Só nos resta agradecer à Universal Pictures por ter colocado alguém como ele na direção.
A história em si é pesada. Eu diria até mesmo melancólica. Bate uma tristeza quando o filme acaba - e da maneira como acaba. A ideia central de Nada de Novo no Front é mostrar como a guerra consegue destruir as almas humanas.O filme começa com um desfile militar numa cidade alemã, onde toda a população sai às ruas para festejar a ida dos soldados na guerra recém-declarada. A cena, em si, é belíssima: uma grande parte da "culpa" é a ausência da trilha sonora nos primeiros filmes falados, deixando, assim, que apenas os instrumentos da banda militar ressoem pela multidão. Vemos o desfile e a câmera adentra uma sala de aula de tem as janelas abertas para a rua, onde o professor de idade tem sua voz abafada pelo som que vem de fora. Quando fica um pouco mais tranquilo, acompanhamos o discurso ufanista do professor aos seus alunos, dizendo que eles devem defender a nação contra os inimigos e se orgulharem de morrer em campo. Nessa hora, então, somos apresentados a um grupo de amigos estudantes, todos jovens de 16 ou 17 anos, que são tomados pelo frenesi causado pelas palavras do professor e decidem se alistar no exército - mesmo que isso faça com que suas mães fiquem doentes de preocupação (pois elas são fracas, como diz o professor). Esse grupo de amigos é a motivação do filme: todo ele gira em torno desses jovens rapazes sonhadores que acreditam que ir à guerra é um ato de heroísmo. Dentre eles, temos Paul Bäumer (Lew Ayres), um rapaz que quer ir ao front para conquistar honras e os corações das moças, mas que se torna o grande filósofo do filme.
No começo, durante os treinamentos militares, tudo é festa e alegria, com o grupo de estudantes sorrindo mesmo tendo um sargento bastante implicante os treinando. Nessa parte do filme, Milestone leva o tempo necessário para criar os laços de amizade entre os rapazes, fazendo com que a gente crie empatia e se familiarize com seus rostos e personalidades. Porém, toda essa jovialidade começa a desaparecer quando são enviados ao front na França para lutar nas trincheiras. Os horrores da guerra vão, aos poucos, moldando (ou destruindo?) suas personalidades: já não é mais tão engraçado se fingir de soldado como nos treinamentos - agora seus companheiros correm sérios riscos, e conviver com a morte durante dias, meses ou anos em trincheiras sempre atacadas por inimigos não é algo que se esquece: a loucura vai tomando conta das pessoas, e isso fica bem claro na cena do bombardeio sobre as trincheiras, em que os amigos estão numa espécie de abrigo: dá pra ver na face de Bäumer que atingiu o seu limite - o seu sorriso doentio é a constatação máxima de que toda a sua vida anterior já não existe mais... Isso leva o garoto a questionar os motivos da guerra entre os países e o que se ganha guerreando no front. Mas são indagações que se tornam vazias durante os combates: você foi posto ali para matar ou morrer, e terá de se acostumar com isso. E Milestone foi tão feliz sobre a obra de Remarque que, nós espectadores, acompanhamos toda essa mudança na vida dos jovens estudantes: mantemos um sorriso no rosto no começo do filme, felizes com as peraltices dos rapazes, mas com o passar da história, nosso sorriso vai murchando como a grama que sempre é pisada pelas botas de couro dos soldados e, no último ato do filme, já não conseguimos mais sorrir: fomos observadores diretos do fim de muitas vidas esperançosas. Isso, porém, não é nada de novo no front...
Com cenas de batalha nas trincheiras de tirar o fôlego e uma fotografia soberba (reparem quando "espiamos" pela janela da casa os trens indo e chegando ao front destruído pelas bombas), Nada de Novo no Front é um marco na história do Cinema. O que mais nos deixa pasmos é saber que esse filme completará 83 anos de idade sem ter envelhecido praticamente nada. O discurso antibelicista é válido ainda hoje, mas com uma ressalva: o cinema estadunidense já não condena mais a guerra; ao contrário, a exalta, fazendo propaganda bélica do poderio norte-americano.
Para concluir: a última cena, a que Bäumer tenta alcançar, com a ponta dos dedos, uma borboleta que está do lado de fora da trincheira é de marejar os olhos. Lindíssima.
Um filme que precisa ser visto. E melhor ainda se for em alta definição!
Anna Karenina é um filme que desagradou e irá ainda desagradar muita gente. Os mais conservadores dizem que o filme ficou "estilizado" demais e que sua estrutura é confusa, teatralizada ao extremo. Para mim, contudo, são nesses aspectos diferentes que reside a força do filme. Anna Karenina é uma obra atípica, quase experimental (mas dos bem feitos). E um colírio para os olhos. Quem é o culpado por tudo isso? O diretor Joe Wright.
Wright tem comprovada competência em filmes de época, romances típicos do século XIX e meados do XX que são adaptados de forma excelente, não apenas levando os livros para as telonas, mas deixando sua marca em cada filme: isso é algo que poucos conseguem fazer sem destruir a obra original. Após Orgulho e Preconceito (2005), de Jane Austen, e Desejo e Reparação (2007), de Ian McEwan, Joe Wright agora parte para uma obra russa, atemporal, de Tolstoi, Anna Karenina. Para quem já leu, sabe que, apesar da escrita agradável de seu autor, o livro tem uma densidade singular, indo profundamente nos sentimentos humanos. Quem lê, jamais esquece. E eu diria também: quem assiste à adaptação de Wright, não a esquecerá. O diretor foi profundamente respeitoso ao texto, e isso me tirou um peso gigantesco da mente: eu temia muito que se tornasse uma adaptação modernosa, com centenas de "liberdades poéticas" que acarretariam na ruína dessa história tão bela. Joe Wright dirige aqui a melhor Anna Karenina que já vi, muito superior àquela de 1997 com Sean Bean e Sophie Marceau. Não procurando invenções em demasia, diversas passagens do livro foram transpostas para a tela com os diálogos intactos, mantendo a atmosfera semi-depressiva que permeia a obra. Assim sendo, temos a complexa relação amorosa de Anna Karenina com o seu marido Alexei Karenin e seu amante mulherengo, o Conde Alexei Vronsky; de seu irmão Stiva Oblonsky, que trai a esposa Dolly Oblonskaya com a governanta da casa; e de Kitty, cunhada de Anna, que é apaixonada por Vronsky, mas é amada por Kostya Levin, amigo antigo de Oblonsky que vive no campo, em oposição à opulência que reina absoluta na aristocracia presente em Moscou e São Petersburgo. No fundo, Anna Karenina é uma obra sobre o amor, ao mesmo tempo em que Tolstoi critica o Romantismo e abraça o Realismo, deixando claro que o amor é destrutível, deixando sua marca até mesmo nos mais racionalistas. Mas o amor é uma doença afinal, e nos leva a fazer coisas que podem trazer resultados horríveis para todos e, principalmente, para nós mesmos.
Há tantos detalhes em cena, que fica difícil captar tudo em uma única projeção: é preciso rever o filme para tentar "caçar" aquilo que deixamos escapar da primeira vez. Porém, o que salta aos olhos é o fato de Joe Wright ter decidido transformar tudo em uma peça de teatro: a maior parte do filme acontece sobre um palco, em um teatro antigo. É genial. Há cenas memoráveis por conta dessa "estilização": principalmente na primeira meia hora de filme ocorrem diversas adaptações cenográficas, em que as paredes se movem para surgir novos fundos e os figurantes fazem coreografias. Como não podia deixar de ser, Joe Wright também colocou uma sequência em tomada única no filme, tal como havia feito na soberba cena da praia em Desejo e Reparação: a transformação da repartição em que Oblonsky trabalha no restaurante onde ele e Levin se encontram é estupenda, de uma precisão milimétrica absolutamente impecável! Outra sequência esteticamente perfeita acontece quando Levin reencontra Kitty: a "cortina" do palco sobe e ela aparece entre uma pintura de um céu repleto de anjos, concretizando a visão idealista que Kostya tem sobre ela - é algo de encher os olhos.
Convenhamos, o livro em si não é uma das obras mais dinâmicas já escritas: tem o ritmo do Tolstoi, que é lento e filosófico. Contudo, o filme consegue lidar com isso - que seria um aspecto negativo caso fosse filmado literalmente - graças a essa opção de levar a história ao teatro: aqui tudo tem o dinamismo teatral, tudo é mais rápido e conciso. Se por um lado isso ajuda cinematograficamente e não entedia o espectador, por outro, acarreta em alguns cortes de passagens que estão no livro: a personagem de Levin, por exemplo, ganha pouco espaço na tela e se torna menos filosófica - seus momentos mais inspirados no filme acontecem quando está trabalhando na colheita junto com os mojiques. Mas esse tipo de mudança acontece sempre que um livro é levado às telas, e é natural, uma vez que são meios de comunicação diferentes. O único aspecto de que não gostei muito no filme é justamente a sua protagonista principal, Anna Karenina: Keira Knightley até hoje não me convenceu como atriz. Ela parece sempre ter a mesma expressão facial em todos os filmes dramáticos que faz (e, cá entre nós, não tem a beleza que a Anna possui na obra original, embora isso não seja fundamental). Esse é o único "deslize" do filme.
Anna Karenina é um filme que respeita o original, e isso é o bastante para já valer a "assistida". Porém, o filme vai além, e nos brinda com uma originalidade que não é comum de se ver nos filmes atuais. Acredito também que, devido a essa originalidade, Anna Karenina tenha ficado de fora na indicação ao prêmio de Melhor Filme do Oscar, recebendo-a apenas nas categorias técnicas: Melhor Fotografia, Direção de Arte, Figurino e Trilha Sonora Original. Uma pena... O filme merecia maior reconhecimento, pois é recomendadíssimo!
Se existisse o termo "mente embargada", essa seria a sensação que estou ao terminar de ver Os Miseráveis. A primeira coisa que me passou pela cabeça quando os créditos subiram foi lamentar que a lista de Melhores Filmes do CineImpressões já estivesse fechada e publicada: essa obra, certamente, constaria entre as que elenquei. O filme é tão grandioso, tão arrebatador que fica difícil escrever sobre ele, pois tenho certeza de que não farei jus a tudo e que muitas coisas passarão em branco aqui. Isso, por outro lado, talvez seja um dos maiores méritos que um filme pode ter: despertar no espectador aquela necessidade de revê-lo muitas e muitas vezes.
Dentre os poucos filmes que já dirigiu, Os Miseráveis é a obra máxima de Tom Hooper. Se ele já conseguiu produzir um dos filmes mais redondinhos que já vi, O Discurso do Rei (2010), arrancando nada mais do que 3 indicações de atores ao Oscar (Colin Firth - que ganhou, Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush) e levando o prêmio de Melhor Filme, aqui em Os Miseráveis Tom Hooper transcende sua própria competência e entrega um dos filmes mais marcantes de 2012/2013, sugando toda a força artística de Hugh Jackman e Anne Hathaway, fazendo com que eles, doravante, já tenham a carteira assinada para qualquer filme em que cogitem trabalhar.
Confesso que nunca tive contato prévio com a obra de Victor Hugo, publicada em 1862, e desde então servindo de inspiração para vários filmes e musicais mundo afora: ou seja, só posso falar do filme em si, pois não sei se a adaptação foi fiel ou não ao original. A obra de Hugo foi dividida em 5 volumes quando lançada, cada um meio que contando uma história de seus principais protagonistas: Fantine, Cosette, Marius, a batalha nas barricadas da rua Saint-Denis (sim, um cenário é um ator principal), e Jean Valjean, sendo que toda a narrativa acontece entre 1815 e 1832 - período em que a França está passando por várias revoltas populares causadas pela miséria (os "miseráveis" do título) que irão culminar em uma nova revolução. O filme segue essa mesma divisão de volumes, embora não deixe isso aparecer na tela como tal. Praticamente o centro de Os Miseráveis é Jean Valjean (Hugh Jacman), um homem que ficou 19 anos preso por ter roubado um pão para alimentar o sobrinho faminto e se vê livre, querendo dar novo rumo à vida. A sorte lhe sorri e ele, após 8 anos de liberdade, torna-se prefeito em Montreuil, também sendo dono de uma fábrica de médio porte. Entre as funcionárias está Fantine (Anne Hathaway), uma moça pobre que é posta para a rua quando o supervisor descobre que ela é mãe de uma menina. Sem condições, Fantine acaba se sujeitando à prostituição e numa noite, durante o acesso de raiva de um cliente, é salva por Jean, a quem conta tudo sobre sua filha e diz que a culpa de ter se tornado prostituta é indiretamente de Valjean, por tê-la despedido. Com a morte de Fantine, Valjean, então, começa a saga para buscar a filha da operária, Cosette, mas sua vida se torna cada vez mais difícil pois o inspetor Javert (Russel Crowe) está lhe perseguindo, querendo botá-lo novamente na cadeia por ter descumprido o trato de se apresentar na condicional 8 anos antes. Nove anos após Jean achar Cosette e levá-la consigo, o filme se torna mais político, apresentando a figura de Marius (Eddie Redmayne), um jovem estudante que luta com seus amigos contra o governo e se apaixona perdidamente por Cosette (Amanda Seyfried), agora uma mulher. Porém, o amor do casal esbarra no contexto político revolucionário pelo qual a França passava e acontecem várias coisas que sempre tendem a afastar os dois. Mas o amor pela revolução e por outro ser humano é capaz de vencer qualquer barreira, como bem sabe Jean Valjean...
Contando assim, o enredo parece confuso, eu sei. Há muitas outras personagens importantes no filme, mas isso aqui ficaria gigantesco se fosse falar de todos (e se tornaria extremamente desinteressante). É preciso que se veja o filme para ter noção exata da grandiosidade narrativa de Os Miseráveis. Por ser um musical quase todo cantado, com pouquíssimas falas "normais", eu tinha receio de que o filme se tornasse insuportável de ser assistido em suas 2 horas e 40 minutos. Mas, ainda bem, foi um medo injustificável! A obra é muito fluida, com um ritmo impecável e que jamais dá sono ou nos faz torcer para acabarem logos os versos. Tudo se torna ainda mais magnífico quando sabemos que não foram utilizados playbacks durante as gravações: os atores tiveram de cantar realmente! Imaginem a dificuldade em ter de cantar e atuar ao mesmo tempo: é quase como uma ópera, mas levando em consideração ainda a preocupação de posicionamento frente às câmeras. Se fosse um diretor qualquer, seria desastroso, mas Tom Hooper parece ter o elenco nas mãos e faz com que se sintam bem nas cenas e, principalmente, que nos façam emocionar: o filme arrancará algumas lágrimas até mesmo do coração mais gélido. Embora tenha uma aparição curta no filme, Anne Hathaway não recebeu o Globo de Ouro à toa: sua canção sobre a desilusão do amor e da vida é embasbacante - quando ela termina, você ainda está pensando: "O que foi que eu acabei de ver?!". Só isso já valeria o filme, mas a verdade é que Os Miseráveis é uma coleção de "impecabilidades". Possui uma fotografia exuberante, em que vários momentos se permite "chacoalhar" um pouco, acompanhando os atores (algo bem pouco comum de se ver em filmes de época). A Direção de Arte é um show à parte, ainda mais se levarmos em conta toda a recriação de Paris em meados do século XIX, sem abusar de efeitos computacionais. Mas o que rouba a cena mesmo durante todo o filme, como já mencionei, são as atuações: além de Hathaway, Hugh Jackman está maravilhoso no papel de Jean Valjean, um papel muito difícil e que mereceu o reconhecimento por parte da Academia, e, do outro lado, Russel Crowe interpreta um vilão que, mesmo sendo ruim por natureza, consegue transmitir toda a profundidade de sua alma um pouco antes do final do filme.
E por falar em final, Os Miseráveis leva às telas uma apoteose que eu raramente vi nos filmes: é de arrepiar ouvir a canção sobre as barricadas que aqueles "miseráveis" montaram para combater as injustiças do governo francês. De todos da lista que concorrem ao prêmio de Melhor Filme no Oscar, retiro o Amor de Haneke e coloco Os Miseráveis de Hooper como o meu favorito. Pode ser que nenhum dos dois ganhe mês que vem, mas Os Miseráveis merecia receber tal honraria por ser um filme muito, muito ousado para os padrões hollywoodianos atuais e, pessoalmente, me emocionou bem mais do que a obra de Haneke. Os Miseráveis consegue despertar algo que poucos filmes conseguem enquanto se assiste: erguer os punhos e cantar junto. Desde já, um clássico do Cinema. Desde já, um filme necessário.
Em 1930, um ano após Asas (1927) receber o prêmio máximo da Academia, um musical foi o responsável por ganhar a categoria Melhor Filme: foi a primeira obra falada a ser prestigiada no Oscar, e seu nome é Melodia da Broadway. Não é pouca coisa ter sido o primeiro filme falado a ganhar o Oscar de melhor obra: Melodia da Broadway abriu um longuíssimo caminho na história da premiação, que acompanhou um fato que já ficara bem claro quando surgiram as vozes nos filmes - o cinema mudo havia acabado. De 1930 até 2011, todos as obras que receberam o prêmio de Melhor Filme no Oscar foram sonoras. Um filme mudo só voltou a ganhar um Oscar em 2012, com o fraquíssimo O Artista (que, por sinal, não é uma obra completamente muda, diga-se de passagem).
O musical divertido conta a história das Irmãs Mahoney (sempre confundidas com Maloney), a morena Hank (Bessie Love) e a loira Queenie (Anita Page), que são trazidas à Nova Iorque pelo seu tio Jed (Jed Prouty, em um papel muito engraçado como agente gago) e apresentadas ao cantor performático Eddie Kearns (Charles King), que promete às garotas um número de destaque na Broadway. Eddie era apaixonado por Hank, mas logo cai de amores por Queenie, que não via há tempos. Queenie, amando secretamente Eddie para não magoar sua irmã, porém, começa a ser perseguida por um dos financiadores do espetáculo na Boradway, Jock Warriner (Kenneth Thomson), um ricaço mulherengo que promete muitos bens materiais à garota. Entre espetáculos bem ou mal sucedidos na Broadway, o triangulo amoroso vai se desenvolvendo de maneira bem natural, regado à canções muito lindas e "grudentas", como a que dá título ao filme. Mas a relação das irmãs Mahoney não pode ser a mesma enquanto amam o mesmo homem: uma delas vai ter de ceder, e isso acontece já no finalzinho do filme, com duas cenas seguidas bem marcantes: um drama que realmente mareja os olhos e uma trapalhada digna dos bons momentos do cinema sem falas.
Melodia da Broadway, por sinal,tem muitos resquícios do cinema mudo, principalmente porque ainda existiam filmes sem voz sendo rodados: Tempos Modernos, de Chaplin, por exemplo, foi produzido em 1936, mas já era uma exceção. O último filme mudo que os estudiosos apontam é O Beijo, com Greta Garbo, e lançado em 1929 pela MGM, a mesma produtora de Melodia da Broadway, ou seja, no mesmo ano tivemos essa transição entre o mudo e o sonoro documentada pela Metro-Goldwyn-Mayer. Melodia da Broadway é musical com toques de comédia que foi dirigido por Harry Beaumont, um cineasta que realizou - pasmem - 100 filmes! Como a maioria de sua filmografia é anterior a 1929, fica bastante nítido que muitos enquadramentos - e equipamentos de filmagem - são os mesmos do maravilhoso e elegante cinema mudo estadunidense. Também percebe-se que os atores ainda estavam numa fase de adaptação: a todo momento ocorrem certos exageros gestuais e expressivos, como caretas e movimentação corporal. Por Melodia da Broadway ser um filme engraçado e cantado em muitas cenas, o elenco também veio do cinema de comédia muda, e pode-se notar isso de forma clara em muitas cenas que não exigem diálogos. Por sinal, se o filme fosse mudo, provavelmente sentiríamos pouquíssima diferença em sua estrutura , pois ainda não estava tão estabelecido o formato de narração visual que temos hoje em dia. O maior exemplo disso talvez seja a presença de intertítulos na mudança de cenas e cenários: aparecem sempre as palavras indicando o local que veremos a seguir. No começo causa estranheza ao espectador, mas logo se mostra muito interessante tentar "pescar" essas reminiscências do cinema mudo em Melodia da Broadway.
Mesmo não sendo uma obra tão marcante como filme em si, o seu caráter histórico e sua importância dentro das grandes premiações cinematográficas (o segundo filme a ganhar um Oscar) fazem de Melodia da Broadway um filme que precisa ser visto por quem ama Cinema. Com certeza, é um filme muito divertido!