Impressões Recentes

Blue Jasmine, 2013.



Quando o que parece perfeito desmorona

Já que a Cate Blanchett  recebeu da Academia o Oscar  de Melhor  Atriz neste ano de 2014, merecido sem dúvida, mas o páreo  estava duríssimo, cabe aqui  da minha parte deixar claro, se restam dúvidas com relação a isso, que todas elas  são maravilhosas. Amy Adams por Trapaça,  Sandra Bullock pelo badaladíssimo  Gravidade, o mais premiado desse ano, ganhando sete estatuetas, a maravilhosa e bota maravilhosa nisso Meryl  Streep por Álbum de Família, que já tem a sua pequena coleção particular de estatuetas do Oscar, e Judi Dech por Philomena.

Tenho que confessar  que nesse ano cometi um crime super capital: não consegui assistir a todos  os filmes indicados para a premiação antes de sua realização. Sabe como é: os afazeres do dia dia, as obrigações de uma adulta “responsável” às vezes impedem-me de ir ao cinema todas às vezes que bate a vontade, e olha que ela bate com certa frequência, mas eu os assistirei agora no conforto do meu lar.

Mas o Blue Jasmine (2013) eu assisti, lembro exatamente o dia, e as reações que esse filme causou-me. Não sei quanto tempo durará a minha permanência no meio da crítica cinematográfica, porque dificilmente algum filme me causa grande repúdio, grandes implicâncias. Mas que fique aqui só entre nós que não morri de amores por Trapaça, de David O. Russel: o seu filme anterior  O Lado Bom da Vida (2012) agradou-me muito mais, achei que ele encontrou uma fórmula eficaz para falar de durezas usando como principal recurso as sutilizas. Mas  voltando para Blue Jasmine, pois o Trapaça não é o filme que me motivou nessa segunda-feira de carnaval estar sentada em frente ao computador ao invés de estar curando-me de um ressaca ou de dores nas solas do pé por ter sambado ou dançado frevos a noite anterior inteira.

Esse, para quem é totalmente desinformado, é um dos muitos filmes de Woody Allen. Aqui não vou entrar nas discussões que voltaram a repercutir na imprensa internacional a respeito do seu envolvimento no passado com a sua enteada e os ressentimentos remanescentes de sua ex-esposa, que decidiu mais uma vez jogar a sujeira no ventilador, acho que como mulher consigo entendê-la, mas enfim, deixo assunto morrer por aqui. 

Talvez a maioria dos que lerem esse texto (espero que pelo menos alguém além de mim o leia) tenha assistido ao referido filme, porque Woody Allen ainda continua chamando/ levando o público ao cinema.

Em síntese, Cate Blanchett  interpreta Jasmine uma socialite falida e traída pelo marido Harold (Alec Baldwin),  que sem ter para onde ir vai morar no subúrbio de São Francisco  com a sua irmã adotada Ginger, interpretada por Sally Hawkins -  muito boa atriz por sinal, que em  nenhum  momento tem o seu brilho ofuscado pelo o da Cate Blanchett. Como podemos prever,   de socialite ela não tem nada, e por sinal tem uma personalidade e posturas diferentes de sua irmã Jasmine, mas as duas têm lá suas semelhanças; a principal delas: ambas  possuem uma vida amorosa um tanto quanto que mal resolvida, Ginger também tem um ex-marido.

 No entanto, ela  apesar de não ser refinada e ter um “mau gosto” para os homens é uma mulher mais pra frente, mais “bem resolvida” que Jasmine, que sofre de uma série de problemas psíquicos, que se encontra totalmente perdida  na vida, não apenas porque deixou de ser rica e porque deixou de ter uma “família perfeita” (uso aspas porque dentre outros problemas, a relação com filho é muito problemática no final do filme ficamos sabendo por qual motivo). Jasmine  passa por um momento de completa desestabilidade interna,  não saberia afirmar se ela sempre teve esse problema adormecido  dentro dela e os acontecimentos negativos fizeram com ele viesse à tona, a impedindo de seguir adiante e ter uma vida “normal”.

Então, Jasmine é esta mulher que apesar do sofrimento, da desestabilidade, continua bonita, interessando aos homens: o seu chefe, por exemplo, sem muito sucesso tenta umas investidas. Mas pelo que me parece, Jasmine meio que deixou de “ser mulher”, talvez eu não esteja utilizando a colocação mais adequada, mas eu quero simplesmente dizer que, apesar das insistências de sua irmã, que adora sair “caçando” homens, ela parece ter desistido de ter relacionamentos amorosos, apesar de ter ensaiado um romance com o charmoso Dwight, ela parece ter desistindo de sentir o que a vida tem para oferecer, mesmo que às vezes nesse oferecimento venham coisas não muito agradáveis. Afinal de contas viver é assim, às vezes um dia é sensacional e alguns outros um porre, um dureza total, mas com bem dizem os franceses  C’est la vie!

E é essa vida que Jasmine não consegue encarar, a não ser com sua coleção  de medicamentos psiquiátricos (os seus coquetéis)  confesso que mantenho uma grande resistência a eles, mas também reconheço que em determinados casos e para determinadas pessoas eles são necessários e podem ajudar muitas delas a voltarem a viver de forma mais saudável, de terem uma “normalidade” retomada em suas vidas. 

Woody Allen ao escrever e dirigir esse filme recusa a linearidade narrativa, nos primeiros minutos do filme conhecemos Jasmine já divorciada, e no seu decorrer  nos é revelado como era a sua relação com o marido, como ela desfrutava de sua luxuosa vida, há uma contraposição do que ela tinha desfrutado enquanto rica e o que no momento presente ela tem que “suportar” e  adequar-se. 

Tratando-se de gênero esse filme é categorizando como uma comédia dramática, eu particularmente em alguns momentos não me dou bem com categorias, por achar que elas às vezes não dão conta de expressar o que uma certa coisa ou certo evento significam ou significaram. Blue Jasmine, na minha leitura não se trata de um filme de superação, mas muito mais de enfrentamentos, de idas e recuos. Ela não consegue  desapegar-se de um passado, ela tem muito a dizer, mas não tem quem a escute. Acho que muitas de nós mulheres, até as que não são socialites falidas, temos algo de  Jasmine em nós, mas que diferente dela consigamos seguir adiante seja a base de “coquetéis”  ou simplesmente com a cara e a coragem enfrentando  o que a vida tiver que nos oferecer.



Cleonice Elias





La Ciudad y los Perros, 1985.



O filme La Ciudad y los Perros a ausência e presença da cidade


 As impressões que apresento aqui  sobre o filme  La Ciudad y los Perros (Francisco J. Lombardi, 1985), adaptação da obra literária de Mario Vargas Llosa  publicada em 1963,  foram apresentadas na mesa de encerramento do Ciclo Mario Vargas Losa: A arte de narrar organizado pelo  Movimento Cineclubista do Memorial da América Latina, o evento ocorreu no dia 26 de outubro de 2013.

Não sou apenas uma pesquisadora do Cinema  Latino-Americano, mas sua uma defensora, nutro perspectivas otimistas com relação a ele,  às vezes até utópicas.  Todavia, não deixo de  considerar pertinentes as declarações de Paulo Paranaguá na apresentação de seu livro  Cinema na América Latina – Longe de Deus e Perto de Hollywood, na qual  autor  afirma que a maioria dos filmes realizados na América Latina desapareceram, e que um  crítico deve torna-se “historiador e este, arqueólogo”. Não nos deparamos com  dificuldades apenas ao “recompor o quebra-cabeça”, mas principalmente, ao tentarmos “decifrá-los".

Diante dessa dificuldade de se escrever e falar sobre a história do Cinema Latino- Americano,   não situarei o filme em questão dentro de uma conjuntura de produção do cinema peruano, e muito menos do Cinema Latino-Americano de forma mais ampla, o que implicaria de fato em uma abordagem muito genérica, a qual deixaria muitos aspectos importantes da cinematografia peruana e das cinematografias latino-americanas passarem desapercebidos, desconsiderar as particularidades  e conjunturas específicas desses cinemas seria uma grande negligência.

Em linhas gerais, uma produção de filmes mais significativa no Peru começa a ser notada a partir da década de 1990, isso devido principalmente aos fomentos estatais.  Na história do cinema peruano não é possível notar movimentos cinematográficos coesos, nos quais um grupo de determinados cineastas compartilham das mesmas orientações teóricas e estéticas ao realizarem os seus filmes.

De fato, há algumas produções na contemporaneidade interessadas em discutir a cultura peruana , a que mais conseguiu manter muitos de seus elementos pré-colonização, dentre as demais da América Latina, por exemplo, o Quechua e o Amará têm o status de língua oficial no país, juntamente com o espanhol.

No Peru praticamente não foram produzidos filmes sobre a história política do país, situação que pode ser explicada devido ao fato de o governo peruano ser o principal fomentador da produção de filmes, limitando assim o campo temático e as pretensões críticas de alguns cineastas.

Há afirmações isoladas de que talvez  Pataleão e as Visitadoras (2000), também de Francisco J. Lombardi e uma adaptação de um romance de Vargas Llosa,  tenha sido o filme peruano que  alcançou  o maior número de espectadores.

Uma característica marcante no cinema peruano são as adaptações literárias, dentre os autores que mais tiveram suas obras “transpostas” para linguagem cinematográfica, estão Mario Vargas Llosa e Jaime Bayly. Francisco J.  Lombardi é considerado como o cineasta que mais realizou adaptações literárias no cinema peruano, também é o que mais produziu filmes no decorrer de sua carreira.

Um dos trabalhos mais bem recebidos na atualidade por uma crítica internacional é o da cineasta Cláudia  Llosa, sobrinha de Mario Vargas Llosa, sendo a aculturação uma das principais temáticas abordada em seus filmes. Com o seu segundo filme O leite da Amargura (A Teta Assustada) conquistou o Urso de Ouro em 2009 e uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, reconhecimento inédito para o cinema peruano. Um outro filme de Cláudia Llosa é Madeinusa (2006). A cineasta dá prioridade para as personagens indígenas, a atriz Magaly Solier protagonizou dois filmes seus, além disso, alguns diálogos e a trilha sonora são em Quechua. 

Como ocorre na maioria das adaptações literárias para o cinema, muitos elementos do texto acabam não sendo “respeitados”, ou melhor,  acabam não sendo reproduzidos na linguagem cinematográfica. A leitura de um texto está atrelada a um processo do imaginário, esse influenciado diretamente pelas subjetividades do leitor, por essa razão uma mesma obra literária pode ser adaptada de diferentes formas (a partir de diferentes perspectivas) para o cinema. Outros fatores, além das subjetividades e impressões do diretor e roteirista influem nos recortes escolhidos, e na ênfase dada a um determinado assunto/situação  em detrimento de outro/outra.

A narrativa de Llosa é complexa, fato que em um primeiro momento pode dificultar a sua transposição para a narrativa fílmica. Em suma,  há um predomínio no filme de planos mais fechados, os planos panorâmicos são poucos (destaque para o treinamento dos cadetes no deserto e para a cena final, na qual o travelling desloca-se da fachada do Colégio Militar Leoncio Prado apresentando ao espectador o espaço a sua volta, congelando na costa marítima, o Colégio fica de frente para o mar). A trilha sonora cumpre um papel mínimo na narrativa: as únicas músicas tocadas no filme são o  hino do exército peruano  e um bolero quando Fernandez visita o prostíbulo.

A partir de um flashback de Alberto Fernandez “o herói” da narrativa conseguimos intuir o porquê da palavra  perros ser um elemento constituinte do título da novela e mantido na versão cinematográfica.  Em uma espécie de trote ou “ritual de iniciação” alguns cadetes são obrigados a fingir que são cachorros. Uma frase ecoa na lembrança de Fernandez “Es un  perro o un ser humano ?”. Contraditoriamente, um espaço cujo objetivo é disciplinar, na verdade comporta ações violentas e de selvageria.

Apesar de não termos informações anteriores conseguimos pré-estabelecer que Jaguar (loiro de olhos claros, quase um galã) é o manda chuva do pedaço e o tímido Ricardo - o capacho -, o cadete que é constantemente humilhado pelos demais. Já Fernandez (O Poeta)  é o personagem que vamos conhecendo melhor no decorrer da narrativa. Lombardi não é fiel ao romance de Llosa, não nos apresenta elementos referentes aos cadetes fora do Colégio, ou seja, a cidade, a qual está  muito presente no romance. Lombardi dá ênfase para o enclausuramento, o qual intensifica a tensão entre as relações que são estabelecidas dentro do espaço fechado que corresponde ao Colégio Militar.

Fernandez não se enquadra plenamente nos moldes de um herói (aos moldes de Clarck Kent, por exemplo), pois tem algumas condutas morais que podem ser vistas como  “transgressoras” (“rouba” a Tereza do cadete Ricardo, escreve novelas pornográficas, cola durante o exame, trai  Tereza com uma prostituta, enfim). Mas talvez seja esse um dos pontos marcantes nessa obra de Llosa, os personagens são dúbios, não expressam sentimentos plenamente bons ou ruins, através de um típico maniqueísmo do melodrama. Outro exemplo, é a indiferença de Tereza e dos demais cadetes do Colégio com a morte de Aranas (cadete Ricardo). Apesar de não ter seguido à risca a novela de Llosa, Lombardi consegue dá ênfase a uma crítica intensa  às relações configuradas entre os muros do Colégio Militar Leoncio Prado,  as quais de uma forma mais amena ou gritante manifestam-se na “lógica” e na “dinâmica” da cidade narrada por Llosa.

A crítica de Llosa, dentre outras,  centra na disciplina tão necessária na vida militar, a qual rege o Colégio, todavia, percebemos que essa disciplina é constantemente burlada (vendas de cigarro, revistas de mulheres nuas, consumos de bebidas alcoólicas, entre outros). O circulo constitui um novo regimento dentro do regimento institucionalizado pelo Colégio, no primeiro momento, ambos coexistem. Sendo a figura do Tenente (Gamboa),  a expressão máxima do cumprimento da disciplina institucionalizada e aclamada pelo exército. A cena dentro da sala de aula demonstra “a supremacia” da disciplina militar, os alunos não respeitam o professor que não  se posiciona diante deles da  mesma forma autoritária e rígida do tenente Gamboa, o qual é muito respeitado pelos cadetes.Uma situação que exemplifica esse respeito, é quando  Fernandez o procura para denunciar o assassinato de Ricardo, e no final do filme o mesmo faz Jaguar.

Forçando um pouco a barra diria que é possível traçar um paralelo com o “romance de formação”, pois alguns personagens passam por modificações no decorrer da narrativa, não que elas necessariamente sejam “boas”. Por exemplo, Jaguar ao final do filme confessa a autoria do crime, mas continua defendendo o mesmo discurso,  o qual por sua vez é muito próximo do difundido e institucionalizado pelo exército. “Eu ensinei todos eles a serem homens!”.  Este trecho encontra-se na página 144 da versão online do romance, momento em Jaguar confessa a Gamboa a autoria do crime (a morte do cadete Ricardo). E o “herói” Fernandez acaba  tomando o posto que anteriormente era de Jaguar.

Enfim, a leitura apresenta por mim do filme foi plana, priorizei alguns aspectos que em um primeiro momento me chamaram mais atenção. Gostaria apenas de pontuar que em algumas instituições de nossa contemporaneidade a disciplina permanece “altiva” como discurso e como prática, ambos cercados por contradições e tensões.

Espero de forma otimista que mais olhares “polifônicos” (vindos de diferentes áreas de conhecimento e de diferentes cantos desse mundo) se direcionem para as singularidades da produção cultural latino-americana. E que o nosso hibridismo cultural continue dinâmico e criativo! O importante não é ter uma resposta para pergunta: “O que é ser latino-americano?” e sim, simplesmente, sentir-se “latino-americano”!


Cleonice Elias



Ninfomaníaca, 2014.




Porque  eu sofro, me encontro e me desencontro com os filmes de Lars Von Trier


Quando comecei a  escrever este ensaio  ainda não tinha tido  a oportunidade ou quem sabe a coragem de assistir ao esperado  e comentado Ninfomaníaca (2014), longa-metragem do polêmico, criativo e audacioso Lars Von Trier. Lendo as críticas e ouvindo os  comentários de alguns amigos, convenci-me que o filme apesar do título, e do marketing prévio,  não é uma espécie de  pornô cult, tal como alguns críticos definem  o Nove Canções (Michael Winterbotton, 2005). Reproduzindo  os ditos de José Geraldo Couto para o blog Instituto Moreira Sales  “não é um filme de sexo ou sobre sexo”, é mais umas das produções  de Von Trier  que escancaram  os conflitos, os sentimentos poucos nobres, que nós meros seres humanos nos deparamos e estamos sujeitos a confrontá-los em alguns momentos da nossa pretensa existência.
Se  Terrece Malick com a sua fotografia exuberante, com a sua formação filosófica, com a sua calmaria,  leva-nos  a acreditar que apesar  dos percalços, o Amor, algo imprescindível para nossas vidas, para a consolidação das nossas relações,  permanece vivo, manifesta-se como algo possível e, principalmente, como o essencial. Von Trier  com uma perspectiva que acaba sendo esvaziada, mal interpretada  se nomeada como  “pessimista” nos joga na cara situações  que nos tiram da nossa zona de conforto, situações  que dependendo do nível de sensibilidade dos espectadores  geram consideráveis mal-estares. Mas esses mal-estares fazem parte da nossa experiência como  tais, e tornam as obras de Lars Von Trier não apenas polêmicas, provocativas, mas também catalisadoras  de encontros e desencontros com nós mesmos, com experiências passadas, ou com aquelas que permanecem latentes em nosso presente.
O meu primeiro contato com a produção do referido cineasta deu-se recentemente, em 2011, assisti na mostra realizada pela Cinemateca  Breaking The Waves (1996), traduzido para o  Brasil, como Ondas do Destino,  categorizado pela pesquisadora da Universidade Federal da Bahia Virginia José Silva Rodrigues  como um melodrama, sim um melodrama, o qual desde que o cinema é cinema continua “comovendo”, comunicando-se  “efetivamente” com o grande público, derramando lágrimas dos mais sentimentais, categoria a qual me enquadro.  A linguagem melodramática repudiada por uma ala fascinada e admiradora das estéticas e movimentos cinematográficos modernos movimenta uma parte significativa do mercado cinematográfico e televisivo. Como bem destaca  Silvia Oroz em seu livro sobre  a produção de filmes de melodrama na América Latina,  o grande público gostava/gosta dessas produções, porque identifica-se com elas. Aliás,  restam algumas dúvidas de que nas suas devidas proporções  as nossas vidas ou de alguns de nós  às vezes, ou quase sempre,  são melodramas? Que atire a primeira pedra aquele que não suspirou pelos cantos por causa de uma paixão, e que se descabelou, feriu-se por causa da mesma, deparou-se com situações inusitadas, com situações desesperadoras, quem de nós não viveu  ou está vivendo nesse exato momento dramas “existências”? Quem de nós não consegue esquivar-se de alguns clichês? Enfim.
E logo, identifique-me com a personagem Bess Moneill (Emily Watson), não em tudo é claro, mas algumas de suas perspectivas, e lamentei o futuro trágico que a esperava, o qual progressivamente Lars Von Trier  nos revela a cada um dos seus capítulos, esses um dos principais elementos  que imprimem uma das muitas singularidades que caracterizam suas  obras.
Para os que não assistiram, recomendo, mas adianto que sou extremamente suspeita.  Bess é uma jovem que “sofre” ou é “dotada” de uma hipersensibilidade  mora em um  vilarejo no norte da Escócia  impregnado de moralismos  arcaicos e hipócritas, um grupo social gerido por uma lógica patriarcal.  A  “menina especial”, uso o adjetivo especial  não no sentido que ele adquiriu para nos referirmos às pessoas que sofrem de algum tipo de deficiência, mas no seu sentido stricto sensu,  dependente das aprovações e dos perdões de Deus,   deixa-se manipular-se pelo desejo de seu “moribundo” e amado marido.  Resumindo, após um trágico acidente de trabalho em uma plataforma petrolífera, Jan (Stellan Stargarf)  acaba perdendo os seus movimentos e fica sujeito à morte.
Ele incapacitado de manter as relações sexuais cotidianas com a sua esposa, de cumprir com a sua função de homem saudável e viril, pede a Bess que transe com outros homens, que “faça amor” com desconhecidos e depois relate a ele como foi a experiência. A convence, dizendo que essa seria uma forma de curá-lo, de mantê-lo vivo.  Bess em um primeiro momento estranha o pedido do marido, mas  com  todo amor que nutre por ele  acaba deixando-se convencer e gradualmente acaba ficando obceca pela ideia de quanto mais ela transasse  com desconhecidos mais rápido seu querido  se  recuperaria.
Quando os “atos pecaminosos”  dela tornam-se públicos, os moradores do vilarejo a  repudiam , a excomungam, não entendem que o que Bess faz é por amor, amor ao seu marido, cujo o caráter tendo a afirmar que não seja um dos mais nobres.  Todavia, a sua maneira ele nutria um amor pela sua bela e inocente Bess. Não revelarei o desfecho do filme, para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de assistir, assisti-lo, e espero que assim com eu, fiquem com a impressão, que não na forma como realiza e concebe Terrence Malick, Lars Von Trier também com  sua maneira “torta”, ou melhor dizendo,  com a sua maneira pouco convencional, nesse filme especificamente,  acredita e defende  o Amor, no poder de  “cura” que esse sentimento pode proporcionar.
A fotografia do filme, na minha perspectiva, é bem interessante, tem elementos crepusculares, claro que ela não  supera a bela e a ousada fotografia de  Dançando no Escuro  (2000 ) e Melancolia (2011) filmes que pretendo retomar em outros textos. Em várias sequências as  cenas são filmadas com a câmera na mão, tal como ele recomenda em seu Dogma 95, mas aqui não prologarei as questões referentes à  estética do filme.
 Tendo em  vista a minha semi ou plena obsessão que nutro  pelos filmes de Lars Von Trier,  oportunidades não  faltaram para que eu escreva a respeito deles, quantas vezes me surgir a necessidade de não apenas divagar   sobre aspectos que compõem seus filmes, mas de  externar sensações e sentimentos que dizem respeito a mim, pois o cinema dentre outros  efeitos que provoca em nós não é o da identificação?
 Conversando com um amigo de longa data que também adora os filmes do cineasta dinamarquês, afirmei não lembro se sóbria ou levemente embriagada com uma garrafa de Heineken, sim uma mera garrafinha, que tenho quase que  uma relação  sadomasoquista  com os filmes de Von Trier, não que eu curta tal prática sexual, como também não repudio  aqueles que a adoram. Quando faço essa  comparação  refiro-me ao  sofrimento e as angústias que alguns dos filmes deles me causam, as quais ainda bem me  são passageiras,  logo as supero, e não sei bem porque percebo que coisas bacanas e até mesmo sensacionais podem tornar-se concretas não apenas na minha vida como na de muitos outros que assim com eu  estão por ai  em suas empreitadas, em suas buscas por realizações pessoais, amorosas, profissionais e afins. Em suma, que a humanidade ainda está por aí plantando seus bons frutos. Pode parecer uma grande contravenção, mas é assim que me sinto.
Nesse momento que finalizo este ensaio já me enchi  de coragem e fui assistir  ao Ninfomaníaca, claro, escolhi um horário estratégico para não me sentir acanhada em aparecer no cinema sozinha para assistir um filme que para os desenformados  é quase ou praticamente pornográfico.  Adotei como estratégia e também porque era o único dia que tinha livre,  ir   em uma sessão de sexta-feira, cujo início estava previsto, se não me engano,  para as 14h40. As coisas não saíram conforme o planejado,  cheguei atrasada perdi as cenas iniciais do filme, as que a Joe acaba sendo violentada  e é encontrada por Seligman. A sala de cinema  estava consideradamente lotada, e é obvio, o que é de se esperar  as luzes apagadas, por acanhamento e por não enxergar bem no escuro, também não costumo enxergar no claro, a não ser que esteja com os meus óculos de quatro graus de miopia ,  acabei não indo sentar no lugar o qual tinha escolhido no momento da compra do ingresso. 
E sentei na primeira fileira,  lamentavelmente, preocupada com algumas  pessoas que ao invés de estarem  prestando atenção no filme belíssimo por sinal ,  deixando-se envolver pela experiência fílmica,  não achassem extremamente esquisito e questionassem  “O que uma moça  como ela esta fazendo no cinema sozinha?”, e principalmente assistindo a um filme cujo tema principal é a ninfomania. Não sei que espécie de moça eu sou,  digo apenas  que costumo por incrível que pareça ir ao cinema para assistir filmes, às vezes acompanhada, muitas outras sozinha. Não é apenas um entretenimento, minhas idas ao cinema  também contribuem com o meu amadurecimento profissional e, sobretudo, pessoal.
Parando  com essa espécie  de crônica  e com os meus relatos  egocêntricos,  e voltando ao filme que é o que interessa, afirmo que ele não me decepcionou, também não sabia direito o que esperar dele, sabia que haveriam muitas e  muitas cenas de sexo, e dessa vez infelizmente ou felizmente, claro que estou sacaneando,  não me identifiquei com a protagonista do filme. Tirando uma onda com um amigo (o tal fã do Lars Von Trier)  nesse dia sim  eu estava consideravelmente bêbada afirmei: “Como eu sempre me identifico com as personagens do Lars adiei minha ida ao cinema para assistir ao Ninfomaníaca  com receio de reconhecer na Joe coisas que estão por aqui em mim!”, meu amigo logo gargalhou e disse: “Cléo, você não tem nada de ninfománica! Hahahahah! ”.
(…) Deixando as brincadeiras  de lado. Fui informada por esse mesmo amigo que em algumas das cenas foram utilizados dublês de corpo, nem me dei conta disso ao assistir ao filme, achei que as cenas formam muito bem feitas, ou como almejava  Lars Von Trier ao escrever o seu Dogma 95 “ficaram bem realistas”. Soube também que as atrizes utilizaram próteses que “imitam” o órgão genital feminino.
Joe começa sua narrativa linearmente, começando pela sua infância. A sua  mãe (Sophie Kennedy Clark) é uma figura ausente desprovida de qualquer amor materno, em contrapartida, Joe mantem uma relação de amizade e cumplicidade  muito especial  com o pai (Chistian Slater), admirador de botânica,  é na relação dos dois  que percebemos a primeira manifestação de Amor nesse filme de  Von Trier.
Confesso que admiro as mulheres que conseguem lidar com o sexo de um forma mais “desencanada”, sem grandes neuras, sem surtar no dia seguinte caso o  muchacho não ligue  ou não envie  uma mensagem  meia boca no facebook. Mas o caso da Joe é outro, ela sofre de uma patologia, ela e sua amiga Alex desde criança “danadas”, por sinal,  tinham curiosidade em entender as sensações que floresciam dentro delas, e buscavam  alternativas pouco convencionais para explorar tais sensações, refiro-me a cena do banheiro, em que elas encharcam o chão   de água e passam  a deslizar sobre ele.
Assim, como em alguns outros filmes de Von Trier, Ninfomaníaca está organizado em oito capítulos.  E ficamos sabendo da história de Joe a partir de  flashbacks das experiência que ela relata a Seligman (Stellan Stargard) homem solitário,  que a acolhe machucada  em sua casa. E de certa forma, esse também relata algumas das suas. Tenta convencê-la de que ela não é uma pessoa tão ruim tal como ela se julga. Seria  um grande relapso de minha parte não mencionar que a Charlotte Gainsbourg, atriz que atou nos filmes até agora mais “importantes” de Von Trier, nos que tiverem maior “visibilidade”, que acaloraram as discussões entre os críticos e os cinéfilos de plantão: Anticristo (2009) e Melancolia (2011), mostra-se mais uma vez fantástica como atriz.
As sapecas garotinhas crescem e começam a por em prática as suas buscas em satisfazer os seus desejos sexuais, na cena do trem elas fazem uma aposta para ver quem consegue transar com mais homens.  E assim segue a vida dessas duas garotas – Joe (Stacy Martin)  e Alex - que tentam doutrinar outras moças a seguirem as suas “seita”, a  regra número 1 a mais importante de todas: “Jamais transar duas vezes com o mesmo cara”. Joe, assim como alguns homens que existem por aí,  aprende a dizer tudo aquilo que eles querem ouvir, fazê-los sentir  especiais, pobre são os rapazes que caem na conquista da bela e ninfomaníaca Joe, cujo o único interesse que nutre por eles  é satisfazer seus desejos sexuais, dentre um deles está o jovem judeu Jerôme (Shia Labeouf).  Alex a seguidora mais fiel e líder  da seita rende-se aos encantamentos do Amor, quebrando a tão necessária regra número 1. Com toda convicção afirma para sua amiga Joe “O ingrediente secreto do sexo é o amor!”. E não é que mais uma vez nos  deparamos como o Amor nesse filme Lars Von Trier, a mais  sedenta por sexo, a mais desprovida de qualquer amarra  e couraça moral, apaixona-se, e opta por não mais seguir os preceitos e as práticas  de sua “seita”.
Joe por sua vez  passa a seguir sua empreitada ninfomaníaca sozinha, até que se dá conta que  foi infectada pelo mesmo veneno  de sua amiga Alex,  por uma armadilha do destino acaba indo trabalhar na empresa da família de  Jerôme, rapaz ao qual fiz referência anteriormente, ele magoado pelo fato de ser sido enganado, tendo a como sua funcionária passa a ter  todas as oportunidades  para  vingar-se, como seu chefe a expõe a várias situações de humilhação.
Com o passar dos dias, com a convivência, apesar dos abusos de poder e humilhações cotidianas,  Joe percebe que algo de diferente ocorreu consigo, sim, Joe  apaixona-se por Jerôme, como ela mesma afirma, passa a enxergar no caos uma ordem, e isso momentaneamente a agrada, da mesma forma que  a assusta. Pois a única relação de afetividade que a personagem de Lars Von Trier tem é com o seu pai, que no meu ponto de vista, cumpre um papel de coadjuvante na trama do filme, todavia, importante porque ele é  a única pessoa antes de Jerôme por quem Joe conseguia nutrir sentimentos afetivos.
Todavia, o Amor de Joe por Jerôme não se concretiza, ela mal consegue declarar-se, ao chegar ao escritório com a intenção de entrega-lhe uma carta revelando seus sentimentos descobre que ele foi embora e decidiu-se casar-se com a sua secretária. Diante do seu  fracasso nas instâncias do Amor, Joe decide que irá seguir religiosamente e de forma exaustiva e  obsessiva os preceitos da seita que outrora ela e Alex eram as principais  membras.
Diria que nesse filme a câmera aproxima-se e afasta-se em algumas situações  como se ela assim como em Breaking The Wages  estivesse nas mãos de  Lars Von Trier ou na de seus cinegrafistas. Ela é reveladora, incisiva, não como as dos filmes pornôs que dão closes up constrangedores nas penetrações  durante os atos sexuais.  Ela é reveladora e incisiva com relação a Joe, com relação ao seu prazer  durante o ato sexual,  ao seu sofrimento, ao seu não lugar no mundo, a sua ausência consigo mesmo.  Por mais que em alguns momentos no diálogo que ela traça com Seligman  nos são reveladas características que nos fazem precipitadamente concluir que ela é mesmo um ser egocêntrica, que não se preocupa com as pessoas, que não consegue nutrir bons sentimentos por essas, acabamos, ou pelo menos, eu acabei sentido “pena” dela. Pois, o que ela  é , é algo que foge ao seu controle  ou até mesmo a sua essência.
Não acredito que Lars Von Trier tenha lidado com sexo nesse  filme de forma banalizada e constrangedora, na minha perspectiva, ele tratou dele a partir de um viés ainda pouco explorado pelo cinema. Uma opção acompanhada por uma estratégia ousada que como percebemos deu muito certo, tendo em vista o tempo que o filme permaneceu nas salas de cinema do grande circuito e na expectativa que paira entre nós para a estreia da segunda parte, para então, tomarmos ciência  qual o “fim” ou “novo início”  que Von Trier reserva a  Joe.
A morte de seu pai aparentemente não causou o sofrimento esperado, mas na minha leitura Joe a sua maneira sentiu dolorosamente a perda do pai. Quando reencontra Jerôme, agora separado e ainda apaixonado por ela, nós espectadores acostumados com algumas convenções e clichês do cinema norte-americano, acreditamos equivocadamente que agora Joe, com o seu amor, seguirá por novos caminhos, quais seriam esses eu não sei, talvez o da monogamia, ou aqueles  dos finais felizes que tanto nos agrada e nos convém.
A cena de sexo entre os dois é dotada de uma delicadeza, cheia de detalhes, de toques,  de nuances que não me soaram pornográficos, nem constrangedores. O que talvez tenha me feito encarar essa cena dessa forma é o fato de saber que ambos estavam apaixonados. Assim como Alex,  também defendo que o melhor ingrediente do sexo é o amor. Mas Lars Von Trier não é um sujeito adepto às convenções de lugares comuns que tanto contaminam algumas produções cinematográficas. E logo somos surpreendidos, com o choro rasgado e desesperado de Joe, confessando a Jerôme que não consegue sentir nada. Então quer dizer que Lars Von Trier tirou uma onda com a nossa cara, querendo dizer que o Amor e o Sexo são instâncias separadas, que às vezes a combinação entre eles não dá muito certo? Não sei, mas a princípio acho que não, às vezes prefiro não ter algumas certezas, para ficar aberta a diferentes possibilidades de compreensão de um determinado fato.
Não acho que esse filme seja extremamente pessimista e que tenha como  principal objetivo chamar  atenção para a “ruína da humanidade”. É um filme, que dentre outros aspectos, lida de forma escancarada com a sexualidade feminina, claro que há uma patologia nisso. Não me identifico em nenhum aspecto com a  Joe, mas acho que consigo entendê-la, não julgá-la por antecipação.
Discordo plenamente da afirmativa de José  Geraldo Couto ao escrever que: “ Lars von Trier optou por encarar o drama humano com humor, sem perder a gravidade. Seu cinema, de certo modo, é uma versão engenhosa e complexa do dito popular ‘a gente sofre, mas se diverte’.”[1]
Encarar a obra de Lars Von Trier a partir dessa perspectiva é uma péssima  simplificação que tende a deixar os fãs do cineasta um tanto quanto que injuriados. Conforme já havia escrito, não se trata  apenas de sofrimento e muito menos de divertimento, tratam-se se reflexões profundas, de provocações, de “socos em nossos estômagos” que nos fazem sair da nossa zona de conforto, e nos fazem de forma egocêntrica  olharmos para nós mesmos, e até mesmo de forma mais complacente e humana para as outras pessoas que nos rodeiam, são encontros e desencontros,  e vice-versa.
Espero aqui ansiosa pela continuação do filme, e tentarei dessa vez, assim como tão bem o faz Lars Von Trier, me esquivar de algumas convenções e moralismos existentes em nossa sociedade, e irei assistir ao filme sem qualquer tipo de acanhamento, estratégia ou receio com relação ao olhar alheio. Não sou ninfomaníaca,  mas gosto de falar, ler e escrever sobre sexo, e é claro de sua práxis.


Cleonice Elias










Frances Ha, 2012.



Eu tenho essa coisinha de ser meio influenciável às vezes. 

Tem gente que funciona na minha vida como uma espécie de guru para certos assuntos, tipo música, e cinema, e livro, e gastronomia, e mais tudo e qualquer coisa. E daí que eu vi num blog de um amiguinho uma nota altíssima pra esse filme, com comentários profundos do tipo ‘fofura, amor, coração’. E fiquei mui interessada e tentei umas treze vezes escolher esse filme no Netflix, até que, finalmente, o assisti numa dessas noites de desespero e calor.

Eu não fazia a mais remota ideia de quem era Greta Gerwig. Pra falar bem a verdade, ainda não sei direito não. A única coisa que eu sei, é que eu a vi pela primeira vez “dançando” no clipe Afterlife do Arcade Fire, e eu passei os cinco minutos e um segundo na frente do youtube em prantos. Bom, se é que vale a informação, Arcade Fire normalmente me faz chorar desde 2005, e Spike Jonze, que dirigiu o clipe, me faz ter sentimentos lacrimosos desde o clipe Praise You do Fatboy Slim até, claro, Onde vivem os monstros (2009), filme para o qual chorei o dia seguinte inteirinho. 
O nível de lágrimas é sempre importante como termômetro para o sucesso da arte na minha vida.

Tá, voltando à Greta.

Ela é roteirista de Frances Ha. Roteirista, e personagem principal. A Frances. Ela não tem nada demais, é bonitinha normal, do tipo a mocinha da casa ao lado, saca? Não tem exatamente muitos dotes dançarinos, ela se chacoalha bem mondrongamente, mas seu papel exige que ela nos convença que pode ser dançarina em uma companhia de dança moderna. Não, ela não convence nem à diretora da companhia, mas convence a gente que, puxa, ela bem podia ter um espaço na companhia porque, né, ela é tão esforçada (e nem vamos entrar no debate que ‘dança moderna’ é algo bem, hum, artístico. Vamos rever o clipe do Fatboy Slim?). 

A Frances/Greta (não vou separar nunca) também é uma mocinha como qualquer outra que a gente conhece/foi. Ela tem essa paixão, e ela tem essa vida real. Ela tem 27 anos, saiu da faculdade e foi morar com a melhor amiga em NY, tem um subemprego e esse namorado falido. Aí tudo começa a desandar, porque a melhor amiga vai se mudar, o namoro termina, o subemprego vai ficando cada vez mais sub e pronto. A vida.

Mas sabe que o filme não é nada demais, né? É só isso. É só isso em preto e branco, que é pra gente ficar pensando o tempo todo em filme francês, de arte. E tem até Paris, a Frances vai pra Paris num momento de loucurinha momentânea. Quem nunca foi pra Paris num fim de semana nesses momentos de loucurinha?

E são 86 minutos. São 86 minutos de filminho em preto e branco, contando a vidinha da Frances/Greta, e tudo de normal que acontece e desacontece ali. E você fica olhando, esperando quando é que o filme vai acontecer. Quando é que a película vai desenrolar, quando tudo vai deixar de ser só uma sequência de coisas normais no dia-a-dia de uma menina bonitinha normal.

Mas aí, meu amigo, quando acontece, quando o ‘plim’ aparece você já tá danado, chorando de boca aberta na frente da tela, segurando Frances/Greta no colo e pedindo pelamordedeus pra entrar pra companhia de dança moderna e sair pulando com Frances/Greta na rua ao som de David Bowie.

“Fofura, amor, coração” são comentários profundos e certeiros pra esse filminho. São 86 minutos de vida normal em preto e branco. De amor em preto e branco. Acho que isso já vale à pena.

Greta Gerwig foi indicada ao Globo de Ouro por esse papel, neste ano (e perdeu pra Amy Adams). Essa menininha bonitinha normal, que dança mal pra caramba, que ama seus amigos... 

Ela VAI te fazer chorar.

Quéroul




O Lobo de Wall Street, 2013.


Martin Scorsese é um dos diretores mais profícuos de Hollywood, com toda a certeza. Não apenas isso - pois de nada adiantaria produzir muito se a maioria das coisas fosse ruim (ou se tornasse ruim após alguns anos de estrada, não é, Steven Spielberg?): Scorsese faz muitos filmes, e muitos filmes que, os mais fracos, já são, no mínimo, bons. Então Martin Scorsese tem filmes bons, ótimos e excelentes - e a cada ano em que alguma obra sua vai estrear, fica a expectativa sobre em qual das três categorias o seu novo filme vai se enquadrar. Sou fã incondicional confesso do trabalho de Scorsese e, aos poucos, tento constituir minha coleção de suas obras. Espero, sinceramente, jamais ver um filme ruim dele. Até agora, Scorsese não me decepcionou!

Seu mais recente filme, O Lobo de Wall Street, é a maior porra-louquice já feita por Scorsese até hoje (maior até do que Vivendo no Limite, de 1999). E o que torna essa Ode às drogas, sexo e pilantragem tão especial e saborosa é saber que ela foi baseada em uma personagem real, o senhor Jordan Belfort, que no fim da década de 1980 se tornou milionário com um esquema ilegal de comercialização de ações na chamada Bolsa do Centavo (aquela em que os não-ricos costumam se arriscar, investindo pouco). A história é essa, aliás: a vida de Jordan Belfort e seus meios de enriquecimento. Seria extremamente maçante assistir a um filme de 3 horas que ficasse mostrando a vida de um dono de uma empresa de comercialização de ações em Wall Street. Porém, aliando a autobiografia de Belfort com o maravilhoso roteiro de Terence Winter (que escreveu Família Soprano) e a fabulosa direção de Martin Scorsese, temos um dos grandes filmes de 2013 (e que não por acaso está concorrendo a todos os grandes prêmios de 2014).

O Lobo de Wall Street é bastante diferente das demais obras de Scorsese no quesito violência física: aqui não há sangue, espancamentos, vingança, nada disso. Sendo uma comédia, a obra abusa de diálogos afiadíssimos e que dá gosto de assistir, pois não insulta a inteligência dos espectadores com piadas sem motivo. Pessoalmente, isso só faz aumentar minha admiração por Scorsese, pois o diretor vem de um excelente filme infantil, o Hugo (2011), e agora se arrisca em uma comédia bastante longa (mas nada cansativa), acertando em ambos! Como dito, acompanhamos a trajetória de Jordan Belfort em todos os seus momentos. E com isso quero dizer realmente todos. Então, se você tem problemas com cenas de sexo, uso de drogas à baciada e palavrões dos mais diversos, esse filme não é para você. Belfort é uma espécie de pastor em sua área (e seus discursos na empresa são justamente o retrato de um sujeito que converte e ganha a confiança dos demais com a lábia) que não fez nada honesto na vida. E não bastando ser ele mesmo desonesto, Jordan Belfort ensina seus amigos e funcionários a como ludibriar os investidores na Bolsa. É impressionante ver como Jordan Belfort foi um cara-de-pau.

E é ainda mais impressionante ver a impressionante (sei que já falei essa palavra duas vezes na mesma frase, mas realmente é impressionante) atuação de Leonardo DiCaprio como Jordan Belfort. Um dos maiores injustiçados da história do Oscar, Leonardo DiCaprio prova mais uma vez (como se precisasse provar mais alguma coisa...) o porquê de ser um dos maiores atores que existem. Torço demais para que ele abocanhe o Oscar de Melhor Ator esse ano, pois ele é a alma do filme. É assustador ver em cena um ator da excelência de DiCaprio fazendo o papel tão difícil de Belfort: ele convence como cara-de-pau, como líder de uma empresa, como bêbado, como drogado... enfim, ele, em nenhum momento, nos faz lembrar que existe alguém interpretando aquele papel. Mesmo que você (por algum milagre) não goste de Martin Scorsese, vale a pena ver o filme só pela atuação impressionante (de novo) de Leonardo DiCaprio.

Martin Scorsese, assim, entrega um filme delicioso. É fascinante ver a experiência de um diretor como ele em cena: a comparação de Belfort com o Popeye, por exemplo, é digna de se tornar referência no mundo cinematográfico. Pessoalmente, gosto mais das obras violentas de Scorsese, mas assistir a'O Lobo de Wall Street me deixa desejoso em aguardar seu próximo filme. Quero ver o Scorsese assim: cada vez mais ousado nas telas. Sem sombra de dúvidas ele se divertiu fazendo O Lobo de Wall Street. É possível notar isso no filme todo. E é possível se divertir junto o filme todo.

Scorsese é um Mestre. Um dos maiores. Um dos melhores.


Alex Martire





Ela, 2013.


Spike Jonze é um diretor com uma obra bastante curiosa, que geralmente desperta um estranhamento em quem assiste. Creio que Quero Ser John Malkovich (1999) seja o filme que melhor ilustra a capacidade criativa de Jonze. Até agora.

Ela é um dos melhores filmes de Ficção Científica (gênero pelo qual, confesso, tenho uma queda muito grande) dos últimos tempos. Não há espacionaves, tampouco explosões: o filme se enquadra no gênero científico por lidar com computadores em um futuro não tão distante (ou, conforme podemos deduzir durante a projeção, um futuro bastante presente). A brilhante história criada por Spike Jonze é, ao mesmo tempo, simples, delicada e encantadora. Dificilmente alguém ficará apático à vida de Theodore Twobly (interpretado por Joaquin Phoenix, que injustamente ficou fora da disputa pelo Oscar 2014 de Melhor Ator): um homem de grande sensibilidade que trabalha como escritor de cartas pessoais para pessoas que não têm, digamos, esse dom. Theodore está sofrendo de depressão pois seu casamento terminou há pouco tempo e ele não consegue seguir em frente. Desse modo, seus dias são bastante rotineiros e suas horas se passam entre o trabalho e seu apartamento. 

Porém, estamos no futuro, e a tecnologia da época vai além da que conhecemos atualmente. Todas as pessoas possuem uma espécie de celular-computador que se comunica por voz através de um fone no estilo Bluetooth. E se você acha estranho hoje em dia todos andarem curvados olhando para seus smartphones, em Ela as pessoas andam fazendo gestos como se realmente estivessem conversando com alguém a sua frente. Praticamente as pessoas não conversam entre si, preferindo seus computadores. Com Theodore não é diferente: preso em sua depressão, o rapaz acaba se isolando em seu mundo computacional. Contudo, ao andar pelas ruas certo dia, Theodore se depara com um anúncio sobre o "OS 1", o Sistema Operacional 1. Tomado pela curiosidade, o homem compra o produto e instala em seu computador pessoal. Sua vida, então, ganha novo rumo.

OS 1 é o primeiro sistema operacional inteligente do mundo, que trabalha a partir de todo o conteúdo do HD e na Nuvem do usuário. Sendo assim, o OS 1 é capaz de analisar sua personalidade e corresponder as suas emoções. Tal como os "celulares", o OS 1 se comunica por voz principalmente. E nessa hora entra a deliciosa voz de Scarlett Johansson como Samantha, a personificação de todo o OS 1. Samantha é uma pessoa (?) maravilhosa: bem humorada, cheia de vida, meiga e confidente - em outras palavras, Samantha é tudo o que Theodore precisa em sua vida no momento. A relação dos dois vai se tornando cada vez mais íntima até que, ambos, descobrem-se apaixonados um pelo outro. O filme ganha novos ares e sua delicadeza conquista os espectadores. É difícil não se emocionar com a relação dos dois e também, ao mesmo tempo, não sentir certo estranhamento pelo fato de Theodore ter uma namorada-computador.

E isso é o que mais nos faz refletir: é realmente tão estranho assim amarmos algo que não possua um corpo? O amor está essencialmente ligado a algo físico ou às emoções oriundas do relacionamento? Até os amigos de Theodore acabam aceitando o casal, pois, no futuro, a questão de Turing parece solucionada: as máquinas, realmente, conseguem se comunicar como os humanos. A paixão de Theodore o faz seguir em frente com a vida: é correto julgarmos esses passos como uma aberração se isso faz bem a ele?

Se por um lado Ela possa parecer uma crítica à sociedade atual, ou seja, o fato de usarmos mais os computadores para relações interpessoais do que "reais", por outro, também afirma: "o que importa é tentar ser feliz". Pessoalmente, sou contrário à ideia de que os computadores nos afastam das pessoas, que computadores nos fazem viver em mundos "virtuais" (ie. não "reais"): basta parar pra pensar - provavelmente hoje em dia nos comunicamos mais com as pessoas graças à internet. Isso não nos afasta dos seres humanos, mas nos aproxima. Há não muito tempo, víamos um ou outro amigo pessoalmente e, quando não, íamos a um telefone público de vez em quando para telefonarmos (ou mandávamos alguma carta): hoje é instantâneo e, além disso, conseguimos reencontrar pessoas que, alguma vez, fizeram parte de nossas vidas.

Ela tem o mérito gigantesco de nos fazer pensar. E de nos emocionar. Antes de ser favorável ou desfavorável aos computadores, o filme é uma ode ao amor. Todos nós já nos sentimos como Theodore. E, muitos de nós, talvez tivéssemos sobrevivido se houvesse alguém como Samantha para nos dar um sopro de vida.

Alex Martire




12 Anos de Escravidão, 2013.


Steve McQueen tem apenas três longa-metragens no currículo e, desde o seu primeiro (Fome, 2008), vem ganhando destaque no mundo da Sétima Arte. E o faz por merecer: Fome e Shame (2011) são dois grandes filmes que são capazes de fazer - no melhor estilo -  aquilo que o cinema é suposto a entregar ao espectador: emoção. Uma das marcas registradas do trabalho de McQueen é a dupla com o ator Michael Fassbender (que, apesar de dispensar elogios a sua atuação, é simplesmente impossível não fazê-lo): desde Fome eles trabalham juntos e isso, creio, seja aquilo que dê um tempero especial aos filmes do McQueen. Quando diretores e atores se dão bem, dificilmente falta algo nas telas - é só ver o caso de Scorsese e DiCaprio, por exemplo (ou, em menor grau - bem menor, aliás - Tim Burton e Johnny Depp). O mais recente filme de Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão, para mim, é o melhor entre seus trabalhos. Mais: é um marco na história do cinema estadunidense, um filme que há muito tempo deveria ter sido feito mas que só agora chega ao circuito comercial de todo o mundo.

Há vários fatores que "assustam" quem assiste à 12 Anos de Escravidão. O primeiro é o que surge na tela bem no começo: o filme é baseado em uma história real; isso só faz aumentar o nó na garganta e o enjoo no estômago que estão presentes durante toda a projeção. O último é o que nos diz, antes dos créditos finais, que tudo o que assistimos foi baseado no livro - que dá título ao filme - escrito pelo próprio Solomon Northup: personagem principal da obra vivido pela atuação embasbacante de Chiwetel Ejiofor. Entre o primeiro e o último fatores, estão uma série de pequenos momentos que sempre nos fazem perguntar: "Por que? Por que seres humanos são assim?". E esse é o maior mérito de 12 Anos de Escravidão, jogar na plateia a natureza, muitas vezes, horrenda e nojenta dos seres humanos.

12 Anos de Escravidão tem uma história relativamente simples, mas que, infelizmente, parece ter sido muito comum nos EUA momentos antes da Guerra Civil. Acompanhamos a trajetória de Solomon Northup, homem negro livre, casado e pai de um casal de crianças, que certo dia é enganado por dois brancos com a promessa de tocar violino em um circo na Capital e acaba sendo vendido como escravo (esse tipo de situação era chamada de "sequestro" na época). Enviado para trabalhar nas fazendas do sul, Solomon enfrenta a desumana realidade de centenas de milhares de escravos negros, sofrendo todos os abusos físicos e psíquicos oriundos da sociedade escravocrata dominada pelos homens brancos.

Narrado de forma não linear, 12 Anos de Escravidão é permeado por momentos marcantes e que nos fazem refletir sobre a história dos EUA (e talvez por isso o filme não tenha ido bem de bilheteria por lá) e também do Brasil. É absolutamente impossível ficar apático à primeira surra/espancamento que Solomon recebe no cativeiro logo após ter sido traído e vendido. Creio que a importância das cenas de violência estabelecidas por McQueen é o que tornam o filme tão bom: não são cenas gratuitas, estão lá como força-motriz da narrativa. Do mesmo modo, não são apelativas, exageradas em sangue: McQueen opta por mostrar a face, a dor dos castigados ao invés de sangue jorrando na tela. Decisão brilhante! Isso cria, ainda mais, empatia do espectador pelos escravos. O chicoteamento quase no final do filme, realizado pelo Mestre Edwin Epps (Fassbender) contra a escrava é uma das cenas mais marcantes que já vi, e se torna ainda pior e mais dolorosa quando Solomon é obrigado por seu senhor a chicotear sua companheira.

Outro ponto que achei bastante interessante no filme é o fato de haver diferenciações entre a sociedade negra estadunidense: os homens e mulheres negros nascidos livros chamam os escravos de "negros" (niggers), em tom pejorativo, e não parecem se importar em, eles mesmos, terem escravos. Acho que Steve McQueen foi extremamente feliz na escolha de apontar esses preconceitos (ou contextos) durante o filme: a obra mostra os dois lados da sociedade escravocrata estadunidense com imparcialidade mas que, obviamente, condena o tratamento dos homens brancos dados aos homens negros (e que qualquer pessoa com o mínimo de inteligência vai concordar que a escravidão é algo execrável). E toda a tristeza que permeia o filme e o espectador se torna em revolta ao final da projeção, quando os letreiros dizem o que ocorreu a Solomon e o julgamento de seus sequestradores.

O que mais assusta, contudo, é que fica a questão em nossas cabeças após vermos o filme: "Será que isso realmente mudou?". Sabemos que os EUA é uma sociedade extremamente racista. E sabemos que o Brasil também o é (por mais que discursos vazios tendam omitir esse fato). São duas nações que têm sangue de escravos em suas mãos e que parecem não querer lavá-las tão cedo. Por isso, 12 Anos de Escravidão é um filme importantíssimo.

É necessário assisti-lo. Refletir. Se possível, passá-lo a alunos em sala de aula. Usá-lo como ponto de partida para estudos da sociedade escravocrata do Dezenove. E, o mais importante, jamais deixar cair no comodismo e no senso geral o fato de que, sim, fomos modelados tendo por base o trabalho escravo - e que isso é uma mácula com a qual devemos, sempre, conviver e analisar.

Mérito de McQueen. Sorte a nossa de podermos assistir a um filme assim.


Alex Martire





The Broken Circle Breakdown, 2012.


Felix Van Groeningen é um nome que eu nunca havia ouvido falar. O diretor belga tem 5 filmes no currículo (todos com notas muito boas no IMDB) e, agora, ganha um destaque maior por ter sua obra mais recente, The Broken Circle Breakdown, como pré-candidata ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014. Porém, de agora em diante ficarei mais atento ao seu trabalho, pois competência Felix Van Groeningen  tem de sobra!

The Broken Circle Breakdown é um filme que, ao mesmo tempo, parece tão familiar e tão original a quem assiste. Contudo, creio que sua maior qualidade seja a de casar a tristeza profunda que impera no filme com a sutileza de momentos felizes e, ponto para os roteiristas, música bluegrass de alta qualidade. O filme não tem uma estrutura fácil, pois é montado em forma helicoidal, ou seja, a todo momento há passagens mescladas do passado, presente e futuro, mas é justamente aí que reside sua força: ele deixa o espectador curioso, tentando adivinhar o que está se passando. E, além de instigar a curiosidade, The Broken Circle Breakdown também arranca algumas lágrimas (ou muitas) de quem assiste - mas sem jamais se tornar apelativo e cair no dramalhão.

Uma história de alegria e tristeza. Acompanhamos a vida do casal Didier - tocador de banjo - (brilhantemente interpretado por Johan Heldenbergh) e sua amada (e carismática e cheia de vida) Elise (a bela atriz Veerle Baetens). Embora, como dito, não sendo linear, podemos acompanhar todo o ciclo que dá título ao filme, vendo o primeiro encontro e acompanhando o desfecho de suas vidas. A união do casal é marcada pela vinda de sua filha, Maybelle, que representa uma negação, uma alegria e uma preocupação. O filme começa justamente com o diagnóstico de câncer na garota de 7 anos mas, ao invés de ficar apenas focado nisso, The Broken Circle Breakdown vai além e entra no campo religioso: Didier é ateu, Elise é cristã. No entanto, evitando todos os clichês possíveis, o filme torna-se inteligentíssimo ao abordar esses temas (a cena de Didier explanando à esposa como teria de explicar a morte de um passarinho à filha é genial). A obra entra em um crescendo que nos faz querer ver mais e mais da história, em nenhum momento se tornando cansativa. E, um pouco antes da metade da projeção, ocorre um marco que afeta a vida do casal de músicos e vai minguando a felicidade.

Para não entrar em mais detalhes sobre o filme, vale destacar aqui a estonteante fotografia de The Broken Circle Breakdown: simples, como a vida do casal (as cenas de nudez no campo são bastante poéticas), e que valoriza as tatuagens de Elise, que faz questão de marcar na pele cada etapa (boa e ruim) de sua existência. As tatuagens tornam Elise uma figura muito interessante, e ver sua pele nua é um exercício de decodificação. Do mesmo modo, as músicas são elemento essencial na narrativa: o casal canta junto com os amigos da banda, e muitas vezes cantam aquilo que aconteceu em suas vidas: a parte em que Elise canta sobre a filha que quer ver a mãe é tocante, e a cena quase final do casal cantando sobre o amor com Elise ignorando Didier é de uma dor gigantesca. Mas a música, que inicia o filme, chega a fechá-lo e nos mostra uma das cenas mais belas já feitas até hoje! É impossível ficar apático ao momento: é lindamente triste, embora soando alegre - é um paradoxo que nos faz repensar muitas coisas sobre o ato de existir.

E a existência é o cerne de The Broken Circle Breakdown. Existimos por causa de um deus - como pensa Elise - ou somos um acaso surgido de uma explosão como pensa Didier? A verdade é que ateus e teístas nem sempre conseguem um convívio tranquilo e isso tende a piorar quando nasce uma filha e uma tristeza abala nossas vidas. Elise e Didier entram em uma discussão séria sobre almas e vida pós-morte e isso gera um dos momentos inesquecíveis da obra: o discurso acalorado de Didier durante um show sobre a proibição de pesquisa com células-tronco nos EUA (durante o governo Bush) - dita como algo que vai contra Deus - e a figura maligna de Deus retratado na Bíblia. Quando a tristeza abala a família, Didier encontra em seu ateísmo a razão de continuar a viver; Elize, por sua vez, busca na espiritualidade o seu conforto. A situação torna-se insustentável e o círculo quebrado.

The Broken Circle Breakdown é um belíssimo filme em todos os sentidos. Um dos melhores que vi esse ano. Torço para que chegue a concorrer ao Oscar 2014: é um reconhecimento à altura de tão grande obra. Um filme marcante.

Alex Martire








O Hobbit: A Desolação de Smaug, 2013.


Há filmes que simplesmente se tornam desnecessários quando vistos com mais atenção. Em 2003, os irmãos Wachowski mostraram isso ao jogarem no mundo o seu Matrix Reloaded: sem acrescentar praticamente nada de útil à história central, o filme foi claramente feito com o intento de se montar uma trilogia. Confesso que até estava confiante quando Peter Jackson anunciou que a adaptação do livro O Hobbit seria em duas partes - embora achando que um filme de 4 horas desse conta, até que repensei e acabei concordando com a divisão em duas partes. Elas seriam suficientes. Porém, pouco antes da estréia de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012), o diretor anunciou que a obra ganharia mais um capítulo, formando a trilogia (numa clara tentativa de se igualar ao Senhor dos Anéis (2001-2003). Há um problema central nessa escolha: o livro sobre as aventuras de Bilbo Bolseiro tem cerca de 1/4 do tamanho do Senhor dos Anéis. Desse modo, ficou claro desde o começo que o diretor Peter Jackson tomaria liberdades maiores do que as que tomou na trilogia anterior e teria de inventar passagens para produzir 3 filmes com quase 3 horas de duração cada. 

Quando assisti ao O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, tive a surpresa de que ocorreu justamente o contrário: o filme é extremamente longo e cansativo não por causa de invencionices, mas justamente pela decisão do diretor de simplesmente ser literal demais, levando às telas cada trecho do livro. Dessa vez, porém, com a simples justificativa de que era necessário transformar 2 filmes em 3, Jackson assassina finalmente a obra de Tolkien, deixando pouquíssimos elementos originais na tela e, o pior, errando a mão em cada elemento novo que traz ao público. O Hobbit: A Desolação de Smaug é um filme que não precisaria ter sido feito e, tornando-se real, é uma das piores coisas lançadas nesse já fraquíssimo ano cinematográfico de 2013.

Fazendo um esforço hercúleo, pude enxergar dois pontos positivos no filme: 1) em uma passagem na Floresta Negra (Mirkwood), quando os anões são atacados por aranhas gigantes, Bilbo coloca o Anel e passa a ouvir vozes dos aracnídeos - isso é algo que reclamei sobre a ausência no primeiro filme, já que os animais falam no livro... contudo, no filme, só falam quando estão no "outro lado", quando Bilbo bota o Anel e vê o mundo diferente; 2) Smaug é realmente impressionante do ponto de vista técnico: num filme em que a computação gráfica é, no geral, muito ruim (claramente percebe-se que certos personagens são feitos em CG), o dragão surge como uma grata surpresa, mas deixa a questão: ele só parece impressionante porque todas as passagens ocorrem em ambientes de pouca luz? De qualquer modo, a captação facial e o vozeirão de Benedict Cumberbatch, é um passo além do belo trabalho que vem sendo realizado desde o Gollum do Senhor dos Anéis.

Afora esses pontos acima mencionados, o filme é um desastre e deixa-nos realmente desolados... Peter Jackson esforça-se para acabar de vez com a obra original ao optar por um tom extremamente sombrio nesse segundo filme. O pior é que é um tom sombrio que simplesmente não reflete nas personagens: você não consegue sentir angústia ou sofrimento neles e não sei se isso é falha de roteiro (que acredito ser) ou falha de interpretação (que também não descarto). A impressão que me fica é a de que Peter Jackson desencanou nessa trilogia do Hobbit: ele fez um trabalho tão bom nos filmes anteriores que, me parece, isso justifica todas as suas faltas para com os filmes novos. 

E o que dizer de Beorn, uma figura interessante no livro e que, aqui, não tem a sua presença justificada? Seu aparecimento é tão rápido e desconexo que não dá pra engolir a retirada de Tom Bombadil da trilogia anterior: se fosse pra fazer algo tão superficial quanto fizeram com Beorn, deixassem o velho Tom em cena. Enfim, Beorn chega, fala umas 5 frases, e some parta não voltar. Sem contar que sua aparição como urso é muito grosseira, deixando claro que empregaram uma computação gráfica que não está à altura do orçamento gigantesco dos filmes. Outro ponto extremamente negativo no filme é a figura da belíssima-semi-deusa Evangeline Lilly (a Kate de Lost) como a elfa Tauriel: não tenho nada contra a inserção de personagens novos no filme, porém, Tauriel não se justifica. Ela existe apenas para mostrar que é a versão feminina de Legolas e para estabelecer uma historieta paralela dentro do filme simplesmente fútil: sua paixonite pelo anão Kili. Não entendo a necessidade de se colocar elementos românticos numa história em que nada disso acontece... De qualquer modo, se for fazer, que se faça direito, e não torno tudo em um martírio aos espectadores, já que as cenas são longas demais e quebram o fraquíssimo ritmo do filme.

Muitos podem dizer que o filme tem um ritmo alucinante. Bom, se por ritmo entende-se "batalhas atrás de batalhas", então eu teria de concordar. Isso é o que mais acontece em O Hobbit: A Desolação de Smaug: batalhas, batalhas e batalhas. Batalhas que não desenvolvem o filme em nenhum aspecto. Longas batalhas que fazem a gente pensar "falta muito para acabar?". Eternas batalhas que levam o filme a seus 160 minutos de tortura. Não há tempo para se desenvolver nenhum dos personagens nesse segundo filme (lembrem-se, eram 2 filmes que se tornaram 3, então teriam de "encher linguiça" em algum momento), pois eles estão lutando a todo momento! Assistir a mais de duas horas e meia de batalhas (bem feitas e coreografadas, tenho de concordar) é cansativo demais. Temos uns 15 personagens principais em cena e não descobrimos praticamente nada deles nesse tempo.

Enfim, Peter Jackson cometeu seu segundo erro seguido em O Hobbit: A Desolação de Smaug. Acredito que o filme só concorrerá em prêmios nas categorias técnicas: não acontecerá como em O Senhor dos Anéis, em que o último filme foi coroado com o Oscar numa espécie de conjunto da obra. Essa trilogia de hobbits e anões é simplesmente ruim demais para sequer sonhar em levar algo tão valioso quanto a Pedra Arken para casa.

Alex Martire


 
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