Impressões Recentes

Noé, 2014.



Vou resumir o filme em uma frase agora: O Deus cristão é um cara malvado.

Dito isso, posso esboçar algumas palavras sobre o novo filme de Darren Aronofsky que chega aos cinemas com ares épicos e polêmicos. Épicos por ser uma história bíblica. Polêmicos por ter sido dirigido por uma pessoa assumidamente ateia. Sendo eu mesmo ateu, consegui me identificar com a visão de Aronofsky na telona e, sendo eu mesmo ateu, não acredito que o diretor em momento algum ofendeu a fé cristã. Como dizem por aí: " se a carapuça serviu..."

Pois bem, vamos lá. Aronofsky é um diretor pelo qual tenho paixão profunda. Dois de seus filmes estão na minha lista de melhores filmes que já vi, sendo O Lutador (2008) um dos top 10 da minha lista de preferidos de todos os tempos (o outro filme, se alguém tiver curiosidade, é Cisne Negro, de 2010). Lembro que, ao escrever sobre o filme da bailarina (ou falar sobre ele com alguém, não me recordo agora), eu disse que esperava uma conclusão para uma trilogia: a trilogia de pessoas que venceram pela derrota (o lutador  e a bailarina vão até o fim de seus sonhos, mesmo custando vidas). Confesso que, em certos momentos, senti em Noé um personagem que faria jus ao desfecho dessa trilogia, mas em outros pensei que ele simplesmente escapou a isso. De qualquer modo, Noé é um personagem forte, que pode vir a ser lembrado dentro da filmografia de Aronofsky, mesmo pertencendo a um filme mediano quando comparado aos demais do diretor.

Noé é um homem atormentado. Sendo neto de Matusalém, ele vive numa espécie de terra "Mad Max" bíblica, onde só há desertos e carência. Quando adulto, suas alucinações (ou visões, dependendo de quem assiste ao filme) começam a mostrar o fim do mundo sob a água. Essas alucinações são um ponto forte do filme, pois não há uma separação nítida entre realidade e imaginário quando ocorrem - acredito que foi uma decisão acertada de Aronofsky. Com o passar do tempo elas se tornam mais frequentes até o dia em que ele "escuta o chamado de Deus" e começa, junto com sua família e os gigantes de pedra denominados Guardiões (da linhagem de Set, ou Abel, não lembro) a construir a Arca. O resto a gente já sabe: um casal de cada animal do mundo (menos cães, gatos e porquinhos-da-índia - que devem ter sido criados por Deus depois que percebeu a falta de animais no mundo novo), chuva, inundação que faz inveja ao rio Aricanduva, e recomeço. Isso seria um spoiler de milhares de anos, então não me preocupo em contar.

Junto a isso temos os arcos paralelos sobre os filhos de Noé: Sem quer ter filhos com Illa (Emma "Hermione" Watson), enquanto Cam se torna frustrado, pois está cansado de se masturbar e Deus não mandou Noé colocar nenhuma mulher a mais na Arca (coitado); tem o Jafé também, mas ele não é muito relevante no filme. Mas para tentar tirar leite de pedra de uma mitologia milenar que pouco conteúdo escrito tem a oferecer, Aronosfky cria a tensão na obra com a figura de Tubal-cain, um rei do povo da terra de "Mad Max" que deseja embarcar na arca para se salvar mas é barrado por Noé e coloca seu povo em batalha contra a família de Noé e os Guardiões de pedra.

Sei que muitos podem se perguntar agora: Mas isso não é ficção fantasiosa no estilo Senhor dos Anéis? Sim, é! E o mais incrível é que houve críticos nos EUA que falaram mal do filme por ele não ser fiel bastante à bíblia, por ser "fantasioso" demais...

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Retomando...
Aronosfky faz críticas sutis ao cristianismo em seu filme. Ou nós poderíamos entender assim. O fato é: o diretor mostra como Deus matou todos os seres humanos até então viventes com um dilúvio. Se isso é amor, é difícil pensar o que é ódio, correto? Daren Aronosfky trabalha muitíssimo bem essa questão com a personagem de Noé e seu filho Cam: que Deus é esse que mata inocentes? Ou, se não eram inocentes, nós somos mais puros do que eles? Afinal, não somos tão ou mais pecadores por termos fechado a Arca à centenas de outras pessoas que também tinham filhos, pais, e amavam? 

Aronofsky não julga essas questões, apenas nos apresenta e isso, para mim, é um crédito tremendo! Quem for cristão, provavelmente irá dizer "Mas é isso o que está escrito na bíblia". Os ateus dirão: "Belo Deus esse que mostra amor matando a todos". Essa é a beleza de Noé: um filme que pode agradar a todos ou fazer todos odiarem. Aronofsky brinca a todo o momento com a Criação e a Evolução (especialmente na parte em que Noé narra o surgimento do mundo), sem tomar partido, respeitando a (des)crença alheia.

Com uma fotografia competentíssima e seus famosas tomadas que seguem as personagens pelas costas, Noé é um filme de Aronofsky. É nítido. Contudo, creio que seja o filme mais fraco do diretor e facilmente será esquecido. A culpa, porém, não é dele em sua execução, mas, sim, em uma história que originalmente pouco oferece de conteúdo.

No entanto, entre os filmes bíblicos que não estão relacionados à vida de Cristo, Noé é a obra mais brilhante já realizada até o momento: profundo na construção de personagens e coeso. O filme ficaria melhor se não deslizasse em seu fim, com explicações desnecessárias que ofendem a inteligência do espectador.

Se vale a pena assistir? É Aronofsky! Só por isso já vale! A única coisa que não vale é pagar a mais para ver um filme em que o 3D é totalmente dispensável...

Alex Martire


Hunger, 2008.


O corpo como alvo da opressão e como forma de resistência

Steve McQueen – cineasta inglês – não tem uma vasta produção de filmes, todavia, os três realizados até o momento tiveram uma boa recepção entre uma crítica especializada e conquistaram prêmios em festivais.  O seu  filme  mais recente, 12 Anos de Escravidão (2013), conquistou o Oscar de Melhor Filme, e continua aí rendendo algumas discussões, alguns posicionamentos  entre os críticos e entre uma parcela do público que o assistiu.

Sem mais delongas,  o tema da Escravidão no cinema norte-americano nos últimos anos vem sendo bem acolhido,  aqui não estou questionando o merecimento dos filmes que receberam indicações ao Oscar, os quais a  partir de alguma perspectiva  lidam com a problemática da  Escravidão na história dos Estados Unidos, e nem estou reafirmando as suas qualidades estéticas, e de produção de uma maneira mais ampla. Apenas menciono que são filmes importantes para o cinema contemporâneo dos Estados Unidos, provavelmente ficarão para a “história” desse. Mas não  apenas por isso eles cumprem um papel importante, entre outros aspectos, eles  representam  condições sociais, que infelizmente não se extinguiram  em um passado distante ou até mesmo recente, de algum modo algumas delas continuam acentuando as clivagens sociais, em linhas gerais, o racismo não apenas na sociedade norte-americana como em outras ainda mantém-se operante.

Sei que essa discussão rende muito “pano para manga”, e merece uma devida atenção, acho que alguns críticos de cinema – me refiro aos brasileiros – não estão negligenciando essa situação. Todavia, o objetivo desse meu texto é realizar uma  imersão  rasa, mas que de forma pretensiosa, espero que seja minimamente densa no filme Hunger (2008). Desculpem-me se algumas vezes estabeleço comparações, há a possibilidade de que para alguns elas parecem inapropriadas, mas enquanto assistia ao filme, outros filmes me vieram a mente, não consegui não lembrar    de  características e opções estilísticas de  outros cineastas.

O filme é ambientado a maior parte do tempo dentro da prisão irlandesa Maze, na qual se encontram presos os seguidores do IRA, no contexto da década de 1980.  O espaço e os personagens  nos  são apresentados de forma gradativa, os planos longos e lentos (que me remeteram imediatamente a  Abbas Kiarostami)  vão nos revelando aspectos da prisão fria e opressora. O mesmo ocorre com os personagens do filme, que não precisam dizer muita coisa, boa parte do que percebemos neles vem à tona  a partir de seus gestos, de seus olhares, de suas respirações ofegantes,  etc. Nos primeiros momentos dos filmes há uma alternância de planos mais fechados para planos mais abertos, é através dessa dinâmica que vamos conhecendo aos poucos a Maze e os sujeitos que nela encontram-se.

Inicialmente não  nos é apresentado o protagonista (Bobby Sands, interpretado por Michel Fassbender, ator que marca presença nos outros filmes de McQueen), mas sim, um dos guardas da prisão (vivido por Stuart Graham), sujeito que parece sentir-se claustrofóbico dentro desse  espaço, que não consegue interagir com seus colegas de trabalho. A cena dele encostado   no muro sob a neve, tomando ar fora da prisão, com sua mãos feridas (que o close up  faz questão de mostrar) nos revela  características desse personagem, que precipitadamente pensei que cumpriria um papel “decisivo” na trama. Diria que ele é um personagem que tem como função  evidenciar alguns dos “efeitos colaterais”  gerados por uma prisão, mesmo ele não estando trancafiado dentro de uma cela, sente-se  de alguma forma oprimido, enclausurado.

Os presos são apresentados aos poucos, praticamente não sabemos nada da vida deles antes da prisão (algo semelhante faz  Francisco J. Lombardi, com a adaptação de La Ciudad  y los Perros). Os diálogos são poucos, sem grande profundidade, a profundidade do filme manifesta-se pela ordenação dos planos cujas principais características já foram mencionadas.

Há uma beleza peculiar nesse espaço  inóspito, em uma das primeiras greves de fome um dos presos com os restos de comida “tinge” as paredes de sua cela, riscos ordenam-se  compondo pinturas que remetem a de alguns artistas expressionistas.  Um plano de uma cena externa  apresenta um  enquadramento de cima pra baixo evidenciado  as árvores cuja fotografia privilegia o tons azulados (esses muitos presentes também em Shame (2011), Sean Bobbitt é o responsável pela direção de fotografia ) na minha perspectiva é um dos mais bonitos do filme, ele aparece mais ao fim do  filme e nas   primeiras sequências  quando uma voz off   feminina desolada  nos apresenta uma leitura/discurso sobre a condição desses presos, e de forma mais generalizada do status político ( ou de sua ausência) no movimento IRA e da repressão dirigida a ele,  me arrisco a  afirmar que McQueen o consente nessa conjuntura como  esvaziado e desarticulado.

Não existe isso de assassinato político, bombardeio político ou violência política. Não nos comprometeremos com isso, não haverá status político.”

Parece-me que o que ainda se mantêm  das pretensões revolucionárias do  IRA manifestam-se  por meio das rebeliões – práticas  políticas e até mesmo buscas pela sobrevivência por parte desses presos: que se negam  a vestir “as roupas dos  criminosos”, que jogam urina no corredor da prisão, que fazem greves de fome, visando com isso conseguir algumas concessões do governo britânico.

A tensão que nas primeiras sequências do filme é insinuada pela profundidade  que  acentua-se  com a ordenação dos planos, concretiza-se. Os presos rebelam-se quebram objetos da prisão e são brutalmente punidos pelas tropas da polícia, esses “presos políticos”  nus têm seus corpos agredidos, a violência concretiza-se como é de se esperar de forma  desumana– os corpos desses sujeitos são deflorados (uso esse termo, apesar de não existir a violência sexual),  são agredidos, violados. 

Bobby Sands (Fassbender  aqui não é o sádico fazendeiro sulista, e nem um homem solitário obcecado por sexo, e sim um revolucionário que apesar do pesares mantém algumas de suas convicções políticas vivas) em mais uma tentativa de conquistar as concessões inicia uma greve de fome, que durou 66 dias. De forma inebriante Fassbender dá vida ao personagem Sands, se os outros dizem muitos como seus gestos, ele diz muito com seus olhos (muito bonitos por sinal). O seu ato político (a greve de fome) motivado por aquilo que ainda lhe resta de utopias políticas e revolucionárias, mas também por pretensões que almejam a  liberdade, acaba de forma gradativa com a saúde de seu corpo.  Ao vermos a magreza progressiva de seu corpo não há  como não lembrar  da  do corpo do protagonista do filme  O operário (Brad Anderson, 2005),  interpretado por Christian Bale.   A greve de fome de Babby Sands  é um ato político, de resistência e até quem  sabe de esperança.

A sua morte é lenta, nesse processo todo McQueen não faz usos de exageros sentimentalistas, é como se ele estivesse ali como “testemunha ocular” que possui um grande diferencial entre as demais – uma câmera nas mãos ou sobre um tripé. Parece que ele não  interfere nos desdobramentos dos fatos, apenas os registra.

Antes de Sands dar início ao seu ato  político, mais uma vez a mesma voz off  nos traz uma interessante reflexão de caráter quase conclusivo, sobre a “última tacada” dos presos de Maze:

"Direcionar a violência contra eles próprios. Como uma greve de fome até a morte, buscam trabalhar sobre uma das emoções humanas mais básicas: a compaixão. Como um meio de criar tensão e aumentar os fogos da amargura e do ressentimento.”

Para finalizar faço menção a  um  trecho de Hotel Ruanda (Terry George, 2004), quando um jornalista inglês interpretado por  Joaquim Phoenix consegue captar através de sua câmara os genocídios promovidos naquela região, todo esperançoso envia as imagens para um canal de televisão britânico. Todavia,  um de seus colegas, não lembro  exatamente os detalhes do diálogo, o diz que o máximo que essas imagens irão causar é uma compaixão momentânea , e logo os europeus seguiram com sua vidas,  e os genocídios em Ruanda, apesar da denúncia, continuaram ocorrendo.

Enfim, para que a compaixão deixe de ser apenas um sentimento passageiro, nos fazendo ficar em paz com as nossas consciências, e que engendre práticas sociais, essas necessariamente não precisam ser revolucionárias, bastam apenas serem bem intencionadas,  devemos  considerar que a humanidade é multifacetada, e que as diferenças devem ser incorporadas nas dinâmicas sociais não como problemáticas e catalizadoras de conflitos, mas como a principal essência que constitui não uma humanidade, mas sim as humanidades.

Cleonice Elias









Blue Jasmine, 2013.



Quando o que parece perfeito desmorona

Já que a Cate Blanchett  recebeu da Academia o Oscar  de Melhor  Atriz neste ano de 2014, merecido sem dúvida, mas o páreo  estava duríssimo, cabe aqui  da minha parte deixar claro, se restam dúvidas com relação a isso, que todas elas  são maravilhosas. Amy Adams por Trapaça,  Sandra Bullock pelo badaladíssimo  Gravidade, o mais premiado desse ano, ganhando sete estatuetas, a maravilhosa e bota maravilhosa nisso Meryl  Streep por Álbum de Família, que já tem a sua pequena coleção particular de estatuetas do Oscar, e Judi Dech por Philomena.

Tenho que confessar  que nesse ano cometi um crime super capital: não consegui assistir a todos  os filmes indicados para a premiação antes de sua realização. Sabe como é: os afazeres do dia dia, as obrigações de uma adulta “responsável” às vezes impedem-me de ir ao cinema todas às vezes que bate a vontade, e olha que ela bate com certa frequência, mas eu os assistirei agora no conforto do meu lar.

Mas o Blue Jasmine (2013) eu assisti, lembro exatamente o dia, e as reações que esse filme causou-me. Não sei quanto tempo durará a minha permanência no meio da crítica cinematográfica, porque dificilmente algum filme me causa grande repúdio, grandes implicâncias. Mas que fique aqui só entre nós que não morri de amores por Trapaça, de David O. Russel: o seu filme anterior  O Lado Bom da Vida (2012) agradou-me muito mais, achei que ele encontrou uma fórmula eficaz para falar de durezas usando como principal recurso as sutilizas. Mas  voltando para Blue Jasmine, pois o Trapaça não é o filme que me motivou nessa segunda-feira de carnaval estar sentada em frente ao computador ao invés de estar curando-me de um ressaca ou de dores nas solas do pé por ter sambado ou dançado frevos a noite anterior inteira.

Esse, para quem é totalmente desinformado, é um dos muitos filmes de Woody Allen. Aqui não vou entrar nas discussões que voltaram a repercutir na imprensa internacional a respeito do seu envolvimento no passado com a sua enteada e os ressentimentos remanescentes de sua ex-esposa, que decidiu mais uma vez jogar a sujeira no ventilador, acho que como mulher consigo entendê-la, mas enfim, deixo assunto morrer por aqui. 

Talvez a maioria dos que lerem esse texto (espero que pelo menos alguém além de mim o leia) tenha assistido ao referido filme, porque Woody Allen ainda continua chamando/ levando o público ao cinema.

Em síntese, Cate Blanchett  interpreta Jasmine uma socialite falida e traída pelo marido Harold (Alec Baldwin),  que sem ter para onde ir vai morar no subúrbio de São Francisco  com a sua irmã adotada Ginger, interpretada por Sally Hawkins -  muito boa atriz por sinal, que em  nenhum  momento tem o seu brilho ofuscado pelo o da Cate Blanchett. Como podemos prever,   de socialite ela não tem nada, e por sinal tem uma personalidade e posturas diferentes de sua irmã Jasmine, mas as duas têm lá suas semelhanças; a principal delas: ambas  possuem uma vida amorosa um tanto quanto que mal resolvida, Ginger também tem um ex-marido.

 No entanto, ela  apesar de não ser refinada e ter um “mau gosto” para os homens é uma mulher mais pra frente, mais “bem resolvida” que Jasmine, que sofre de uma série de problemas psíquicos, que se encontra totalmente perdida  na vida, não apenas porque deixou de ser rica e porque deixou de ter uma “família perfeita” (uso aspas porque dentre outros problemas, a relação com filho é muito problemática no final do filme ficamos sabendo por qual motivo). Jasmine  passa por um momento de completa desestabilidade interna,  não saberia afirmar se ela sempre teve esse problema adormecido  dentro dela e os acontecimentos negativos fizeram com ele viesse à tona, a impedindo de seguir adiante e ter uma vida “normal”.

Então, Jasmine é esta mulher que apesar do sofrimento, da desestabilidade, continua bonita, interessando aos homens: o seu chefe, por exemplo, sem muito sucesso tenta umas investidas. Mas pelo que me parece, Jasmine meio que deixou de “ser mulher”, talvez eu não esteja utilizando a colocação mais adequada, mas eu quero simplesmente dizer que, apesar das insistências de sua irmã, que adora sair “caçando” homens, ela parece ter desistido de ter relacionamentos amorosos, apesar de ter ensaiado um romance com o charmoso Dwight, ela parece ter desistindo de sentir o que a vida tem para oferecer, mesmo que às vezes nesse oferecimento venham coisas não muito agradáveis. Afinal de contas viver é assim, às vezes um dia é sensacional e alguns outros um porre, um dureza total, mas com bem dizem os franceses  C’est la vie!

E é essa vida que Jasmine não consegue encarar, a não ser com sua coleção  de medicamentos psiquiátricos (os seus coquetéis)  confesso que mantenho uma grande resistência a eles, mas também reconheço que em determinados casos e para determinadas pessoas eles são necessários e podem ajudar muitas delas a voltarem a viver de forma mais saudável, de terem uma “normalidade” retomada em suas vidas. 

Woody Allen ao escrever e dirigir esse filme recusa a linearidade narrativa, nos primeiros minutos do filme conhecemos Jasmine já divorciada, e no seu decorrer  nos é revelado como era a sua relação com o marido, como ela desfrutava de sua luxuosa vida, há uma contraposição do que ela tinha desfrutado enquanto rica e o que no momento presente ela tem que “suportar” e  adequar-se. 

Tratando-se de gênero esse filme é categorizando como uma comédia dramática, eu particularmente em alguns momentos não me dou bem com categorias, por achar que elas às vezes não dão conta de expressar o que uma certa coisa ou certo evento significam ou significaram. Blue Jasmine, na minha leitura não se trata de um filme de superação, mas muito mais de enfrentamentos, de idas e recuos. Ela não consegue  desapegar-se de um passado, ela tem muito a dizer, mas não tem quem a escute. Acho que muitas de nós mulheres, até as que não são socialites falidas, temos algo de  Jasmine em nós, mas que diferente dela consigamos seguir adiante seja a base de “coquetéis”  ou simplesmente com a cara e a coragem enfrentando  o que a vida tiver que nos oferecer.



Cleonice Elias





La Ciudad y los Perros, 1985.



O filme La Ciudad y los Perros a ausência e presença da cidade


 As impressões que apresento aqui  sobre o filme  La Ciudad y los Perros (Francisco J. Lombardi, 1985), adaptação da obra literária de Mario Vargas Llosa  publicada em 1963,  foram apresentadas na mesa de encerramento do Ciclo Mario Vargas Losa: A arte de narrar organizado pelo  Movimento Cineclubista do Memorial da América Latina, o evento ocorreu no dia 26 de outubro de 2013.

Não sou apenas uma pesquisadora do Cinema  Latino-Americano, mas sua uma defensora, nutro perspectivas otimistas com relação a ele,  às vezes até utópicas.  Todavia, não deixo de  considerar pertinentes as declarações de Paulo Paranaguá na apresentação de seu livro  Cinema na América Latina – Longe de Deus e Perto de Hollywood, na qual  autor  afirma que a maioria dos filmes realizados na América Latina desapareceram, e que um  crítico deve torna-se “historiador e este, arqueólogo”. Não nos deparamos com  dificuldades apenas ao “recompor o quebra-cabeça”, mas principalmente, ao tentarmos “decifrá-los".

Diante dessa dificuldade de se escrever e falar sobre a história do Cinema Latino- Americano,   não situarei o filme em questão dentro de uma conjuntura de produção do cinema peruano, e muito menos do Cinema Latino-Americano de forma mais ampla, o que implicaria de fato em uma abordagem muito genérica, a qual deixaria muitos aspectos importantes da cinematografia peruana e das cinematografias latino-americanas passarem desapercebidos, desconsiderar as particularidades  e conjunturas específicas desses cinemas seria uma grande negligência.

Em linhas gerais, uma produção de filmes mais significativa no Peru começa a ser notada a partir da década de 1990, isso devido principalmente aos fomentos estatais.  Na história do cinema peruano não é possível notar movimentos cinematográficos coesos, nos quais um grupo de determinados cineastas compartilham das mesmas orientações teóricas e estéticas ao realizarem os seus filmes.

De fato, há algumas produções na contemporaneidade interessadas em discutir a cultura peruana , a que mais conseguiu manter muitos de seus elementos pré-colonização, dentre as demais da América Latina, por exemplo, o Quechua e o Amará têm o status de língua oficial no país, juntamente com o espanhol.

No Peru praticamente não foram produzidos filmes sobre a história política do país, situação que pode ser explicada devido ao fato de o governo peruano ser o principal fomentador da produção de filmes, limitando assim o campo temático e as pretensões críticas de alguns cineastas.

Há afirmações isoladas de que talvez  Pataleão e as Visitadoras (2000), também de Francisco J. Lombardi e uma adaptação de um romance de Vargas Llosa,  tenha sido o filme peruano que  alcançou  o maior número de espectadores.

Uma característica marcante no cinema peruano são as adaptações literárias, dentre os autores que mais tiveram suas obras “transpostas” para linguagem cinematográfica, estão Mario Vargas Llosa e Jaime Bayly. Francisco J.  Lombardi é considerado como o cineasta que mais realizou adaptações literárias no cinema peruano, também é o que mais produziu filmes no decorrer de sua carreira.

Um dos trabalhos mais bem recebidos na atualidade por uma crítica internacional é o da cineasta Cláudia  Llosa, sobrinha de Mario Vargas Llosa, sendo a aculturação uma das principais temáticas abordada em seus filmes. Com o seu segundo filme O leite da Amargura (A Teta Assustada) conquistou o Urso de Ouro em 2009 e uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, reconhecimento inédito para o cinema peruano. Um outro filme de Cláudia Llosa é Madeinusa (2006). A cineasta dá prioridade para as personagens indígenas, a atriz Magaly Solier protagonizou dois filmes seus, além disso, alguns diálogos e a trilha sonora são em Quechua. 

Como ocorre na maioria das adaptações literárias para o cinema, muitos elementos do texto acabam não sendo “respeitados”, ou melhor,  acabam não sendo reproduzidos na linguagem cinematográfica. A leitura de um texto está atrelada a um processo do imaginário, esse influenciado diretamente pelas subjetividades do leitor, por essa razão uma mesma obra literária pode ser adaptada de diferentes formas (a partir de diferentes perspectivas) para o cinema. Outros fatores, além das subjetividades e impressões do diretor e roteirista influem nos recortes escolhidos, e na ênfase dada a um determinado assunto/situação  em detrimento de outro/outra.

A narrativa de Llosa é complexa, fato que em um primeiro momento pode dificultar a sua transposição para a narrativa fílmica. Em suma,  há um predomínio no filme de planos mais fechados, os planos panorâmicos são poucos (destaque para o treinamento dos cadetes no deserto e para a cena final, na qual o travelling desloca-se da fachada do Colégio Militar Leoncio Prado apresentando ao espectador o espaço a sua volta, congelando na costa marítima, o Colégio fica de frente para o mar). A trilha sonora cumpre um papel mínimo na narrativa: as únicas músicas tocadas no filme são o  hino do exército peruano  e um bolero quando Fernandez visita o prostíbulo.

A partir de um flashback de Alberto Fernandez “o herói” da narrativa conseguimos intuir o porquê da palavra  perros ser um elemento constituinte do título da novela e mantido na versão cinematográfica.  Em uma espécie de trote ou “ritual de iniciação” alguns cadetes são obrigados a fingir que são cachorros. Uma frase ecoa na lembrança de Fernandez “Es un  perro o un ser humano ?”. Contraditoriamente, um espaço cujo objetivo é disciplinar, na verdade comporta ações violentas e de selvageria.

Apesar de não termos informações anteriores conseguimos pré-estabelecer que Jaguar (loiro de olhos claros, quase um galã) é o manda chuva do pedaço e o tímido Ricardo - o capacho -, o cadete que é constantemente humilhado pelos demais. Já Fernandez (O Poeta)  é o personagem que vamos conhecendo melhor no decorrer da narrativa. Lombardi não é fiel ao romance de Llosa, não nos apresenta elementos referentes aos cadetes fora do Colégio, ou seja, a cidade, a qual está  muito presente no romance. Lombardi dá ênfase para o enclausuramento, o qual intensifica a tensão entre as relações que são estabelecidas dentro do espaço fechado que corresponde ao Colégio Militar.

Fernandez não se enquadra plenamente nos moldes de um herói (aos moldes de Clarck Kent, por exemplo), pois tem algumas condutas morais que podem ser vistas como  “transgressoras” (“rouba” a Tereza do cadete Ricardo, escreve novelas pornográficas, cola durante o exame, trai  Tereza com uma prostituta, enfim). Mas talvez seja esse um dos pontos marcantes nessa obra de Llosa, os personagens são dúbios, não expressam sentimentos plenamente bons ou ruins, através de um típico maniqueísmo do melodrama. Outro exemplo, é a indiferença de Tereza e dos demais cadetes do Colégio com a morte de Aranas (cadete Ricardo). Apesar de não ter seguido à risca a novela de Llosa, Lombardi consegue dá ênfase a uma crítica intensa  às relações configuradas entre os muros do Colégio Militar Leoncio Prado,  as quais de uma forma mais amena ou gritante manifestam-se na “lógica” e na “dinâmica” da cidade narrada por Llosa.

A crítica de Llosa, dentre outras,  centra na disciplina tão necessária na vida militar, a qual rege o Colégio, todavia, percebemos que essa disciplina é constantemente burlada (vendas de cigarro, revistas de mulheres nuas, consumos de bebidas alcoólicas, entre outros). O circulo constitui um novo regimento dentro do regimento institucionalizado pelo Colégio, no primeiro momento, ambos coexistem. Sendo a figura do Tenente (Gamboa),  a expressão máxima do cumprimento da disciplina institucionalizada e aclamada pelo exército. A cena dentro da sala de aula demonstra “a supremacia” da disciplina militar, os alunos não respeitam o professor que não  se posiciona diante deles da  mesma forma autoritária e rígida do tenente Gamboa, o qual é muito respeitado pelos cadetes.Uma situação que exemplifica esse respeito, é quando  Fernandez o procura para denunciar o assassinato de Ricardo, e no final do filme o mesmo faz Jaguar.

Forçando um pouco a barra diria que é possível traçar um paralelo com o “romance de formação”, pois alguns personagens passam por modificações no decorrer da narrativa, não que elas necessariamente sejam “boas”. Por exemplo, Jaguar ao final do filme confessa a autoria do crime, mas continua defendendo o mesmo discurso,  o qual por sua vez é muito próximo do difundido e institucionalizado pelo exército. “Eu ensinei todos eles a serem homens!”.  Este trecho encontra-se na página 144 da versão online do romance, momento em Jaguar confessa a Gamboa a autoria do crime (a morte do cadete Ricardo). E o “herói” Fernandez acaba  tomando o posto que anteriormente era de Jaguar.

Enfim, a leitura apresenta por mim do filme foi plana, priorizei alguns aspectos que em um primeiro momento me chamaram mais atenção. Gostaria apenas de pontuar que em algumas instituições de nossa contemporaneidade a disciplina permanece “altiva” como discurso e como prática, ambos cercados por contradições e tensões.

Espero de forma otimista que mais olhares “polifônicos” (vindos de diferentes áreas de conhecimento e de diferentes cantos desse mundo) se direcionem para as singularidades da produção cultural latino-americana. E que o nosso hibridismo cultural continue dinâmico e criativo! O importante não é ter uma resposta para pergunta: “O que é ser latino-americano?” e sim, simplesmente, sentir-se “latino-americano”!


Cleonice Elias



Ninfomaníaca, 2014.




Porque  eu sofro, me encontro e me desencontro com os filmes de Lars Von Trier


Quando comecei a  escrever este ensaio  ainda não tinha tido  a oportunidade ou quem sabe a coragem de assistir ao esperado  e comentado Ninfomaníaca (2014), longa-metragem do polêmico, criativo e audacioso Lars Von Trier. Lendo as críticas e ouvindo os  comentários de alguns amigos, convenci-me que o filme apesar do título, e do marketing prévio,  não é uma espécie de  pornô cult, tal como alguns críticos definem  o Nove Canções (Michael Winterbotton, 2005). Reproduzindo  os ditos de José Geraldo Couto para o blog Instituto Moreira Sales  “não é um filme de sexo ou sobre sexo”, é mais umas das produções  de Von Trier  que escancaram  os conflitos, os sentimentos poucos nobres, que nós meros seres humanos nos deparamos e estamos sujeitos a confrontá-los em alguns momentos da nossa pretensa existência.
Se  Terrece Malick com a sua fotografia exuberante, com a sua formação filosófica, com a sua calmaria,  leva-nos  a acreditar que apesar  dos percalços, o Amor, algo imprescindível para nossas vidas, para a consolidação das nossas relações,  permanece vivo, manifesta-se como algo possível e, principalmente, como o essencial. Von Trier  com uma perspectiva que acaba sendo esvaziada, mal interpretada  se nomeada como  “pessimista” nos joga na cara situações  que nos tiram da nossa zona de conforto, situações  que dependendo do nível de sensibilidade dos espectadores  geram consideráveis mal-estares. Mas esses mal-estares fazem parte da nossa experiência como  tais, e tornam as obras de Lars Von Trier não apenas polêmicas, provocativas, mas também catalisadoras  de encontros e desencontros com nós mesmos, com experiências passadas, ou com aquelas que permanecem latentes em nosso presente.
O meu primeiro contato com a produção do referido cineasta deu-se recentemente, em 2011, assisti na mostra realizada pela Cinemateca  Breaking The Waves (1996), traduzido para o  Brasil, como Ondas do Destino,  categorizado pela pesquisadora da Universidade Federal da Bahia Virginia José Silva Rodrigues  como um melodrama, sim um melodrama, o qual desde que o cinema é cinema continua “comovendo”, comunicando-se  “efetivamente” com o grande público, derramando lágrimas dos mais sentimentais, categoria a qual me enquadro.  A linguagem melodramática repudiada por uma ala fascinada e admiradora das estéticas e movimentos cinematográficos modernos movimenta uma parte significativa do mercado cinematográfico e televisivo. Como bem destaca  Silvia Oroz em seu livro sobre  a produção de filmes de melodrama na América Latina,  o grande público gostava/gosta dessas produções, porque identifica-se com elas. Aliás,  restam algumas dúvidas de que nas suas devidas proporções  as nossas vidas ou de alguns de nós  às vezes, ou quase sempre,  são melodramas? Que atire a primeira pedra aquele que não suspirou pelos cantos por causa de uma paixão, e que se descabelou, feriu-se por causa da mesma, deparou-se com situações inusitadas, com situações desesperadoras, quem de nós não viveu  ou está vivendo nesse exato momento dramas “existências”? Quem de nós não consegue esquivar-se de alguns clichês? Enfim.
E logo, identifique-me com a personagem Bess Moneill (Emily Watson), não em tudo é claro, mas algumas de suas perspectivas, e lamentei o futuro trágico que a esperava, o qual progressivamente Lars Von Trier  nos revela a cada um dos seus capítulos, esses um dos principais elementos  que imprimem uma das muitas singularidades que caracterizam suas  obras.
Para os que não assistiram, recomendo, mas adianto que sou extremamente suspeita.  Bess é uma jovem que “sofre” ou é “dotada” de uma hipersensibilidade  mora em um  vilarejo no norte da Escócia  impregnado de moralismos  arcaicos e hipócritas, um grupo social gerido por uma lógica patriarcal.  A  “menina especial”, uso o adjetivo especial  não no sentido que ele adquiriu para nos referirmos às pessoas que sofrem de algum tipo de deficiência, mas no seu sentido stricto sensu,  dependente das aprovações e dos perdões de Deus,   deixa-se manipular-se pelo desejo de seu “moribundo” e amado marido.  Resumindo, após um trágico acidente de trabalho em uma plataforma petrolífera, Jan (Stellan Stargarf)  acaba perdendo os seus movimentos e fica sujeito à morte.
Ele incapacitado de manter as relações sexuais cotidianas com a sua esposa, de cumprir com a sua função de homem saudável e viril, pede a Bess que transe com outros homens, que “faça amor” com desconhecidos e depois relate a ele como foi a experiência. A convence, dizendo que essa seria uma forma de curá-lo, de mantê-lo vivo.  Bess em um primeiro momento estranha o pedido do marido, mas  com  todo amor que nutre por ele  acaba deixando-se convencer e gradualmente acaba ficando obceca pela ideia de quanto mais ela transasse  com desconhecidos mais rápido seu querido  se  recuperaria.
Quando os “atos pecaminosos”  dela tornam-se públicos, os moradores do vilarejo a  repudiam , a excomungam, não entendem que o que Bess faz é por amor, amor ao seu marido, cujo o caráter tendo a afirmar que não seja um dos mais nobres.  Todavia, a sua maneira ele nutria um amor pela sua bela e inocente Bess. Não revelarei o desfecho do filme, para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de assistir, assisti-lo, e espero que assim com eu, fiquem com a impressão, que não na forma como realiza e concebe Terrence Malick, Lars Von Trier também com  sua maneira “torta”, ou melhor dizendo,  com a sua maneira pouco convencional, nesse filme especificamente,  acredita e defende  o Amor, no poder de  “cura” que esse sentimento pode proporcionar.
A fotografia do filme, na minha perspectiva, é bem interessante, tem elementos crepusculares, claro que ela não  supera a bela e a ousada fotografia de  Dançando no Escuro  (2000 ) e Melancolia (2011) filmes que pretendo retomar em outros textos. Em várias sequências as  cenas são filmadas com a câmera na mão, tal como ele recomenda em seu Dogma 95, mas aqui não prologarei as questões referentes à  estética do filme.
 Tendo em  vista a minha semi ou plena obsessão que nutro  pelos filmes de Lars Von Trier,  oportunidades não  faltaram para que eu escreva a respeito deles, quantas vezes me surgir a necessidade de não apenas divagar   sobre aspectos que compõem seus filmes, mas de  externar sensações e sentimentos que dizem respeito a mim, pois o cinema dentre outros  efeitos que provoca em nós não é o da identificação?
 Conversando com um amigo de longa data que também adora os filmes do cineasta dinamarquês, afirmei não lembro se sóbria ou levemente embriagada com uma garrafa de Heineken, sim uma mera garrafinha, que tenho quase que  uma relação  sadomasoquista  com os filmes de Von Trier, não que eu curta tal prática sexual, como também não repudio  aqueles que a adoram. Quando faço essa  comparação  refiro-me ao  sofrimento e as angústias que alguns dos filmes deles me causam, as quais ainda bem me  são passageiras,  logo as supero, e não sei bem porque percebo que coisas bacanas e até mesmo sensacionais podem tornar-se concretas não apenas na minha vida como na de muitos outros que assim com eu  estão por ai  em suas empreitadas, em suas buscas por realizações pessoais, amorosas, profissionais e afins. Em suma, que a humanidade ainda está por aí plantando seus bons frutos. Pode parecer uma grande contravenção, mas é assim que me sinto.
Nesse momento que finalizo este ensaio já me enchi  de coragem e fui assistir  ao Ninfomaníaca, claro, escolhi um horário estratégico para não me sentir acanhada em aparecer no cinema sozinha para assistir um filme que para os desenformados  é quase ou praticamente pornográfico.  Adotei como estratégia e também porque era o único dia que tinha livre,  ir   em uma sessão de sexta-feira, cujo início estava previsto, se não me engano,  para as 14h40. As coisas não saíram conforme o planejado,  cheguei atrasada perdi as cenas iniciais do filme, as que a Joe acaba sendo violentada  e é encontrada por Seligman. A sala de cinema  estava consideradamente lotada, e é obvio, o que é de se esperar  as luzes apagadas, por acanhamento e por não enxergar bem no escuro, também não costumo enxergar no claro, a não ser que esteja com os meus óculos de quatro graus de miopia ,  acabei não indo sentar no lugar o qual tinha escolhido no momento da compra do ingresso. 
E sentei na primeira fileira,  lamentavelmente, preocupada com algumas  pessoas que ao invés de estarem  prestando atenção no filme belíssimo por sinal ,  deixando-se envolver pela experiência fílmica,  não achassem extremamente esquisito e questionassem  “O que uma moça  como ela esta fazendo no cinema sozinha?”, e principalmente assistindo a um filme cujo tema principal é a ninfomania. Não sei que espécie de moça eu sou,  digo apenas  que costumo por incrível que pareça ir ao cinema para assistir filmes, às vezes acompanhada, muitas outras sozinha. Não é apenas um entretenimento, minhas idas ao cinema  também contribuem com o meu amadurecimento profissional e, sobretudo, pessoal.
Parando  com essa espécie  de crônica  e com os meus relatos  egocêntricos,  e voltando ao filme que é o que interessa, afirmo que ele não me decepcionou, também não sabia direito o que esperar dele, sabia que haveriam muitas e  muitas cenas de sexo, e dessa vez infelizmente ou felizmente, claro que estou sacaneando,  não me identifiquei com a protagonista do filme. Tirando uma onda com um amigo (o tal fã do Lars Von Trier)  nesse dia sim  eu estava consideravelmente bêbada afirmei: “Como eu sempre me identifico com as personagens do Lars adiei minha ida ao cinema para assistir ao Ninfomaníaca  com receio de reconhecer na Joe coisas que estão por aqui em mim!”, meu amigo logo gargalhou e disse: “Cléo, você não tem nada de ninfománica! Hahahahah! ”.
(…) Deixando as brincadeiras  de lado. Fui informada por esse mesmo amigo que em algumas das cenas foram utilizados dublês de corpo, nem me dei conta disso ao assistir ao filme, achei que as cenas formam muito bem feitas, ou como almejava  Lars Von Trier ao escrever o seu Dogma 95 “ficaram bem realistas”. Soube também que as atrizes utilizaram próteses que “imitam” o órgão genital feminino.
Joe começa sua narrativa linearmente, começando pela sua infância. A sua  mãe (Sophie Kennedy Clark) é uma figura ausente desprovida de qualquer amor materno, em contrapartida, Joe mantem uma relação de amizade e cumplicidade  muito especial  com o pai (Chistian Slater), admirador de botânica,  é na relação dos dois  que percebemos a primeira manifestação de Amor nesse filme de  Von Trier.
Confesso que admiro as mulheres que conseguem lidar com o sexo de um forma mais “desencanada”, sem grandes neuras, sem surtar no dia seguinte caso o  muchacho não ligue  ou não envie  uma mensagem  meia boca no facebook. Mas o caso da Joe é outro, ela sofre de uma patologia, ela e sua amiga Alex desde criança “danadas”, por sinal,  tinham curiosidade em entender as sensações que floresciam dentro delas, e buscavam  alternativas pouco convencionais para explorar tais sensações, refiro-me a cena do banheiro, em que elas encharcam o chão   de água e passam  a deslizar sobre ele.
Assim, como em alguns outros filmes de Von Trier, Ninfomaníaca está organizado em oito capítulos.  E ficamos sabendo da história de Joe a partir de  flashbacks das experiência que ela relata a Seligman (Stellan Stargard) homem solitário,  que a acolhe machucada  em sua casa. E de certa forma, esse também relata algumas das suas. Tenta convencê-la de que ela não é uma pessoa tão ruim tal como ela se julga. Seria  um grande relapso de minha parte não mencionar que a Charlotte Gainsbourg, atriz que atou nos filmes até agora mais “importantes” de Von Trier, nos que tiverem maior “visibilidade”, que acaloraram as discussões entre os críticos e os cinéfilos de plantão: Anticristo (2009) e Melancolia (2011), mostra-se mais uma vez fantástica como atriz.
As sapecas garotinhas crescem e começam a por em prática as suas buscas em satisfazer os seus desejos sexuais, na cena do trem elas fazem uma aposta para ver quem consegue transar com mais homens.  E assim segue a vida dessas duas garotas – Joe (Stacy Martin)  e Alex - que tentam doutrinar outras moças a seguirem as suas “seita”, a  regra número 1 a mais importante de todas: “Jamais transar duas vezes com o mesmo cara”. Joe, assim como alguns homens que existem por aí,  aprende a dizer tudo aquilo que eles querem ouvir, fazê-los sentir  especiais, pobre são os rapazes que caem na conquista da bela e ninfomaníaca Joe, cujo o único interesse que nutre por eles  é satisfazer seus desejos sexuais, dentre um deles está o jovem judeu Jerôme (Shia Labeouf).  Alex a seguidora mais fiel e líder  da seita rende-se aos encantamentos do Amor, quebrando a tão necessária regra número 1. Com toda convicção afirma para sua amiga Joe “O ingrediente secreto do sexo é o amor!”. E não é que mais uma vez nos  deparamos como o Amor nesse filme Lars Von Trier, a mais  sedenta por sexo, a mais desprovida de qualquer amarra  e couraça moral, apaixona-se, e opta por não mais seguir os preceitos e as práticas  de sua “seita”.
Joe por sua vez  passa a seguir sua empreitada ninfomaníaca sozinha, até que se dá conta que  foi infectada pelo mesmo veneno  de sua amiga Alex,  por uma armadilha do destino acaba indo trabalhar na empresa da família de  Jerôme, rapaz ao qual fiz referência anteriormente, ele magoado pelo fato de ser sido enganado, tendo a como sua funcionária passa a ter  todas as oportunidades  para  vingar-se, como seu chefe a expõe a várias situações de humilhação.
Com o passar dos dias, com a convivência, apesar dos abusos de poder e humilhações cotidianas,  Joe percebe que algo de diferente ocorreu consigo, sim, Joe  apaixona-se por Jerôme, como ela mesma afirma, passa a enxergar no caos uma ordem, e isso momentaneamente a agrada, da mesma forma que  a assusta. Pois a única relação de afetividade que a personagem de Lars Von Trier tem é com o seu pai, que no meu ponto de vista, cumpre um papel de coadjuvante na trama do filme, todavia, importante porque ele é  a única pessoa antes de Jerôme por quem Joe conseguia nutrir sentimentos afetivos.
Todavia, o Amor de Joe por Jerôme não se concretiza, ela mal consegue declarar-se, ao chegar ao escritório com a intenção de entrega-lhe uma carta revelando seus sentimentos descobre que ele foi embora e decidiu-se casar-se com a sua secretária. Diante do seu  fracasso nas instâncias do Amor, Joe decide que irá seguir religiosamente e de forma exaustiva e  obsessiva os preceitos da seita que outrora ela e Alex eram as principais  membras.
Diria que nesse filme a câmera aproxima-se e afasta-se em algumas situações  como se ela assim como em Breaking The Wages  estivesse nas mãos de  Lars Von Trier ou na de seus cinegrafistas. Ela é reveladora, incisiva, não como as dos filmes pornôs que dão closes up constrangedores nas penetrações  durante os atos sexuais.  Ela é reveladora e incisiva com relação a Joe, com relação ao seu prazer  durante o ato sexual,  ao seu sofrimento, ao seu não lugar no mundo, a sua ausência consigo mesmo.  Por mais que em alguns momentos no diálogo que ela traça com Seligman  nos são reveladas características que nos fazem precipitadamente concluir que ela é mesmo um ser egocêntrica, que não se preocupa com as pessoas, que não consegue nutrir bons sentimentos por essas, acabamos, ou pelo menos, eu acabei sentido “pena” dela. Pois, o que ela  é , é algo que foge ao seu controle  ou até mesmo a sua essência.
Não acredito que Lars Von Trier tenha lidado com sexo nesse  filme de forma banalizada e constrangedora, na minha perspectiva, ele tratou dele a partir de um viés ainda pouco explorado pelo cinema. Uma opção acompanhada por uma estratégia ousada que como percebemos deu muito certo, tendo em vista o tempo que o filme permaneceu nas salas de cinema do grande circuito e na expectativa que paira entre nós para a estreia da segunda parte, para então, tomarmos ciência  qual o “fim” ou “novo início”  que Von Trier reserva a  Joe.
A morte de seu pai aparentemente não causou o sofrimento esperado, mas na minha leitura Joe a sua maneira sentiu dolorosamente a perda do pai. Quando reencontra Jerôme, agora separado e ainda apaixonado por ela, nós espectadores acostumados com algumas convenções e clichês do cinema norte-americano, acreditamos equivocadamente que agora Joe, com o seu amor, seguirá por novos caminhos, quais seriam esses eu não sei, talvez o da monogamia, ou aqueles  dos finais felizes que tanto nos agrada e nos convém.
A cena de sexo entre os dois é dotada de uma delicadeza, cheia de detalhes, de toques,  de nuances que não me soaram pornográficos, nem constrangedores. O que talvez tenha me feito encarar essa cena dessa forma é o fato de saber que ambos estavam apaixonados. Assim como Alex,  também defendo que o melhor ingrediente do sexo é o amor. Mas Lars Von Trier não é um sujeito adepto às convenções de lugares comuns que tanto contaminam algumas produções cinematográficas. E logo somos surpreendidos, com o choro rasgado e desesperado de Joe, confessando a Jerôme que não consegue sentir nada. Então quer dizer que Lars Von Trier tirou uma onda com a nossa cara, querendo dizer que o Amor e o Sexo são instâncias separadas, que às vezes a combinação entre eles não dá muito certo? Não sei, mas a princípio acho que não, às vezes prefiro não ter algumas certezas, para ficar aberta a diferentes possibilidades de compreensão de um determinado fato.
Não acho que esse filme seja extremamente pessimista e que tenha como  principal objetivo chamar  atenção para a “ruína da humanidade”. É um filme, que dentre outros aspectos, lida de forma escancarada com a sexualidade feminina, claro que há uma patologia nisso. Não me identifico em nenhum aspecto com a  Joe, mas acho que consigo entendê-la, não julgá-la por antecipação.
Discordo plenamente da afirmativa de José  Geraldo Couto ao escrever que: “ Lars von Trier optou por encarar o drama humano com humor, sem perder a gravidade. Seu cinema, de certo modo, é uma versão engenhosa e complexa do dito popular ‘a gente sofre, mas se diverte’.”[1]
Encarar a obra de Lars Von Trier a partir dessa perspectiva é uma péssima  simplificação que tende a deixar os fãs do cineasta um tanto quanto que injuriados. Conforme já havia escrito, não se trata  apenas de sofrimento e muito menos de divertimento, tratam-se se reflexões profundas, de provocações, de “socos em nossos estômagos” que nos fazem sair da nossa zona de conforto, e nos fazem de forma egocêntrica  olharmos para nós mesmos, e até mesmo de forma mais complacente e humana para as outras pessoas que nos rodeiam, são encontros e desencontros,  e vice-versa.
Espero aqui ansiosa pela continuação do filme, e tentarei dessa vez, assim como tão bem o faz Lars Von Trier, me esquivar de algumas convenções e moralismos existentes em nossa sociedade, e irei assistir ao filme sem qualquer tipo de acanhamento, estratégia ou receio com relação ao olhar alheio. Não sou ninfomaníaca,  mas gosto de falar, ler e escrever sobre sexo, e é claro de sua práxis.


Cleonice Elias










Frances Ha, 2012.



Eu tenho essa coisinha de ser meio influenciável às vezes. 

Tem gente que funciona na minha vida como uma espécie de guru para certos assuntos, tipo música, e cinema, e livro, e gastronomia, e mais tudo e qualquer coisa. E daí que eu vi num blog de um amiguinho uma nota altíssima pra esse filme, com comentários profundos do tipo ‘fofura, amor, coração’. E fiquei mui interessada e tentei umas treze vezes escolher esse filme no Netflix, até que, finalmente, o assisti numa dessas noites de desespero e calor.

Eu não fazia a mais remota ideia de quem era Greta Gerwig. Pra falar bem a verdade, ainda não sei direito não. A única coisa que eu sei, é que eu a vi pela primeira vez “dançando” no clipe Afterlife do Arcade Fire, e eu passei os cinco minutos e um segundo na frente do youtube em prantos. Bom, se é que vale a informação, Arcade Fire normalmente me faz chorar desde 2005, e Spike Jonze, que dirigiu o clipe, me faz ter sentimentos lacrimosos desde o clipe Praise You do Fatboy Slim até, claro, Onde vivem os monstros (2009), filme para o qual chorei o dia seguinte inteirinho. 
O nível de lágrimas é sempre importante como termômetro para o sucesso da arte na minha vida.

Tá, voltando à Greta.

Ela é roteirista de Frances Ha. Roteirista, e personagem principal. A Frances. Ela não tem nada demais, é bonitinha normal, do tipo a mocinha da casa ao lado, saca? Não tem exatamente muitos dotes dançarinos, ela se chacoalha bem mondrongamente, mas seu papel exige que ela nos convença que pode ser dançarina em uma companhia de dança moderna. Não, ela não convence nem à diretora da companhia, mas convence a gente que, puxa, ela bem podia ter um espaço na companhia porque, né, ela é tão esforçada (e nem vamos entrar no debate que ‘dança moderna’ é algo bem, hum, artístico. Vamos rever o clipe do Fatboy Slim?). 

A Frances/Greta (não vou separar nunca) também é uma mocinha como qualquer outra que a gente conhece/foi. Ela tem essa paixão, e ela tem essa vida real. Ela tem 27 anos, saiu da faculdade e foi morar com a melhor amiga em NY, tem um subemprego e esse namorado falido. Aí tudo começa a desandar, porque a melhor amiga vai se mudar, o namoro termina, o subemprego vai ficando cada vez mais sub e pronto. A vida.

Mas sabe que o filme não é nada demais, né? É só isso. É só isso em preto e branco, que é pra gente ficar pensando o tempo todo em filme francês, de arte. E tem até Paris, a Frances vai pra Paris num momento de loucurinha momentânea. Quem nunca foi pra Paris num fim de semana nesses momentos de loucurinha?

E são 86 minutos. São 86 minutos de filminho em preto e branco, contando a vidinha da Frances/Greta, e tudo de normal que acontece e desacontece ali. E você fica olhando, esperando quando é que o filme vai acontecer. Quando é que a película vai desenrolar, quando tudo vai deixar de ser só uma sequência de coisas normais no dia-a-dia de uma menina bonitinha normal.

Mas aí, meu amigo, quando acontece, quando o ‘plim’ aparece você já tá danado, chorando de boca aberta na frente da tela, segurando Frances/Greta no colo e pedindo pelamordedeus pra entrar pra companhia de dança moderna e sair pulando com Frances/Greta na rua ao som de David Bowie.

“Fofura, amor, coração” são comentários profundos e certeiros pra esse filminho. São 86 minutos de vida normal em preto e branco. De amor em preto e branco. Acho que isso já vale à pena.

Greta Gerwig foi indicada ao Globo de Ouro por esse papel, neste ano (e perdeu pra Amy Adams). Essa menininha bonitinha normal, que dança mal pra caramba, que ama seus amigos... 

Ela VAI te fazer chorar.

Quéroul




O Lobo de Wall Street, 2013.


Martin Scorsese é um dos diretores mais profícuos de Hollywood, com toda a certeza. Não apenas isso - pois de nada adiantaria produzir muito se a maioria das coisas fosse ruim (ou se tornasse ruim após alguns anos de estrada, não é, Steven Spielberg?): Scorsese faz muitos filmes, e muitos filmes que, os mais fracos, já são, no mínimo, bons. Então Martin Scorsese tem filmes bons, ótimos e excelentes - e a cada ano em que alguma obra sua vai estrear, fica a expectativa sobre em qual das três categorias o seu novo filme vai se enquadrar. Sou fã incondicional confesso do trabalho de Scorsese e, aos poucos, tento constituir minha coleção de suas obras. Espero, sinceramente, jamais ver um filme ruim dele. Até agora, Scorsese não me decepcionou!

Seu mais recente filme, O Lobo de Wall Street, é a maior porra-louquice já feita por Scorsese até hoje (maior até do que Vivendo no Limite, de 1999). E o que torna essa Ode às drogas, sexo e pilantragem tão especial e saborosa é saber que ela foi baseada em uma personagem real, o senhor Jordan Belfort, que no fim da década de 1980 se tornou milionário com um esquema ilegal de comercialização de ações na chamada Bolsa do Centavo (aquela em que os não-ricos costumam se arriscar, investindo pouco). A história é essa, aliás: a vida de Jordan Belfort e seus meios de enriquecimento. Seria extremamente maçante assistir a um filme de 3 horas que ficasse mostrando a vida de um dono de uma empresa de comercialização de ações em Wall Street. Porém, aliando a autobiografia de Belfort com o maravilhoso roteiro de Terence Winter (que escreveu Família Soprano) e a fabulosa direção de Martin Scorsese, temos um dos grandes filmes de 2013 (e que não por acaso está concorrendo a todos os grandes prêmios de 2014).

O Lobo de Wall Street é bastante diferente das demais obras de Scorsese no quesito violência física: aqui não há sangue, espancamentos, vingança, nada disso. Sendo uma comédia, a obra abusa de diálogos afiadíssimos e que dá gosto de assistir, pois não insulta a inteligência dos espectadores com piadas sem motivo. Pessoalmente, isso só faz aumentar minha admiração por Scorsese, pois o diretor vem de um excelente filme infantil, o Hugo (2011), e agora se arrisca em uma comédia bastante longa (mas nada cansativa), acertando em ambos! Como dito, acompanhamos a trajetória de Jordan Belfort em todos os seus momentos. E com isso quero dizer realmente todos. Então, se você tem problemas com cenas de sexo, uso de drogas à baciada e palavrões dos mais diversos, esse filme não é para você. Belfort é uma espécie de pastor em sua área (e seus discursos na empresa são justamente o retrato de um sujeito que converte e ganha a confiança dos demais com a lábia) que não fez nada honesto na vida. E não bastando ser ele mesmo desonesto, Jordan Belfort ensina seus amigos e funcionários a como ludibriar os investidores na Bolsa. É impressionante ver como Jordan Belfort foi um cara-de-pau.

E é ainda mais impressionante ver a impressionante (sei que já falei essa palavra duas vezes na mesma frase, mas realmente é impressionante) atuação de Leonardo DiCaprio como Jordan Belfort. Um dos maiores injustiçados da história do Oscar, Leonardo DiCaprio prova mais uma vez (como se precisasse provar mais alguma coisa...) o porquê de ser um dos maiores atores que existem. Torço demais para que ele abocanhe o Oscar de Melhor Ator esse ano, pois ele é a alma do filme. É assustador ver em cena um ator da excelência de DiCaprio fazendo o papel tão difícil de Belfort: ele convence como cara-de-pau, como líder de uma empresa, como bêbado, como drogado... enfim, ele, em nenhum momento, nos faz lembrar que existe alguém interpretando aquele papel. Mesmo que você (por algum milagre) não goste de Martin Scorsese, vale a pena ver o filme só pela atuação impressionante (de novo) de Leonardo DiCaprio.

Martin Scorsese, assim, entrega um filme delicioso. É fascinante ver a experiência de um diretor como ele em cena: a comparação de Belfort com o Popeye, por exemplo, é digna de se tornar referência no mundo cinematográfico. Pessoalmente, gosto mais das obras violentas de Scorsese, mas assistir a'O Lobo de Wall Street me deixa desejoso em aguardar seu próximo filme. Quero ver o Scorsese assim: cada vez mais ousado nas telas. Sem sombra de dúvidas ele se divertiu fazendo O Lobo de Wall Street. É possível notar isso no filme todo. E é possível se divertir junto o filme todo.

Scorsese é um Mestre. Um dos maiores. Um dos melhores.


Alex Martire





Ela, 2013.


Spike Jonze é um diretor com uma obra bastante curiosa, que geralmente desperta um estranhamento em quem assiste. Creio que Quero Ser John Malkovich (1999) seja o filme que melhor ilustra a capacidade criativa de Jonze. Até agora.

Ela é um dos melhores filmes de Ficção Científica (gênero pelo qual, confesso, tenho uma queda muito grande) dos últimos tempos. Não há espacionaves, tampouco explosões: o filme se enquadra no gênero científico por lidar com computadores em um futuro não tão distante (ou, conforme podemos deduzir durante a projeção, um futuro bastante presente). A brilhante história criada por Spike Jonze é, ao mesmo tempo, simples, delicada e encantadora. Dificilmente alguém ficará apático à vida de Theodore Twobly (interpretado por Joaquin Phoenix, que injustamente ficou fora da disputa pelo Oscar 2014 de Melhor Ator): um homem de grande sensibilidade que trabalha como escritor de cartas pessoais para pessoas que não têm, digamos, esse dom. Theodore está sofrendo de depressão pois seu casamento terminou há pouco tempo e ele não consegue seguir em frente. Desse modo, seus dias são bastante rotineiros e suas horas se passam entre o trabalho e seu apartamento. 

Porém, estamos no futuro, e a tecnologia da época vai além da que conhecemos atualmente. Todas as pessoas possuem uma espécie de celular-computador que se comunica por voz através de um fone no estilo Bluetooth. E se você acha estranho hoje em dia todos andarem curvados olhando para seus smartphones, em Ela as pessoas andam fazendo gestos como se realmente estivessem conversando com alguém a sua frente. Praticamente as pessoas não conversam entre si, preferindo seus computadores. Com Theodore não é diferente: preso em sua depressão, o rapaz acaba se isolando em seu mundo computacional. Contudo, ao andar pelas ruas certo dia, Theodore se depara com um anúncio sobre o "OS 1", o Sistema Operacional 1. Tomado pela curiosidade, o homem compra o produto e instala em seu computador pessoal. Sua vida, então, ganha novo rumo.

OS 1 é o primeiro sistema operacional inteligente do mundo, que trabalha a partir de todo o conteúdo do HD e na Nuvem do usuário. Sendo assim, o OS 1 é capaz de analisar sua personalidade e corresponder as suas emoções. Tal como os "celulares", o OS 1 se comunica por voz principalmente. E nessa hora entra a deliciosa voz de Scarlett Johansson como Samantha, a personificação de todo o OS 1. Samantha é uma pessoa (?) maravilhosa: bem humorada, cheia de vida, meiga e confidente - em outras palavras, Samantha é tudo o que Theodore precisa em sua vida no momento. A relação dos dois vai se tornando cada vez mais íntima até que, ambos, descobrem-se apaixonados um pelo outro. O filme ganha novos ares e sua delicadeza conquista os espectadores. É difícil não se emocionar com a relação dos dois e também, ao mesmo tempo, não sentir certo estranhamento pelo fato de Theodore ter uma namorada-computador.

E isso é o que mais nos faz refletir: é realmente tão estranho assim amarmos algo que não possua um corpo? O amor está essencialmente ligado a algo físico ou às emoções oriundas do relacionamento? Até os amigos de Theodore acabam aceitando o casal, pois, no futuro, a questão de Turing parece solucionada: as máquinas, realmente, conseguem se comunicar como os humanos. A paixão de Theodore o faz seguir em frente com a vida: é correto julgarmos esses passos como uma aberração se isso faz bem a ele?

Se por um lado Ela possa parecer uma crítica à sociedade atual, ou seja, o fato de usarmos mais os computadores para relações interpessoais do que "reais", por outro, também afirma: "o que importa é tentar ser feliz". Pessoalmente, sou contrário à ideia de que os computadores nos afastam das pessoas, que computadores nos fazem viver em mundos "virtuais" (ie. não "reais"): basta parar pra pensar - provavelmente hoje em dia nos comunicamos mais com as pessoas graças à internet. Isso não nos afasta dos seres humanos, mas nos aproxima. Há não muito tempo, víamos um ou outro amigo pessoalmente e, quando não, íamos a um telefone público de vez em quando para telefonarmos (ou mandávamos alguma carta): hoje é instantâneo e, além disso, conseguimos reencontrar pessoas que, alguma vez, fizeram parte de nossas vidas.

Ela tem o mérito gigantesco de nos fazer pensar. E de nos emocionar. Antes de ser favorável ou desfavorável aos computadores, o filme é uma ode ao amor. Todos nós já nos sentimos como Theodore. E, muitos de nós, talvez tivéssemos sobrevivido se houvesse alguém como Samantha para nos dar um sopro de vida.

Alex Martire




 
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