Impressões Recentes

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, 2014.


Lá e de volta outra vez...

Eu adoraria escrever que uma tremenda surpresa aconteceu e, milagrosamente, o terceiro filme sobre Bilbo Bolseiro foi algo espetacular que me fez rever minha vida e morder a língua por ter malhado os filmes anteriores. A vida nem sempre é justa e surpresas boas nem sempre acontecem...

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos consegue fechar a trilogia com chave de papelão: Peter Jackson, o megalomaníaco capitalista, tortura mais uma vez seus espectadores, tratando-os como estúpidos. O que vemos em tela é um desfile de inutilidades. Um emaranhado de gritos, espadadas e milhares de personagens em CG pululando na tela. É tudo tão execrável que fica difícil lembrar de tudo (e se tornaria uma impressão muito longa se assim o fosse). Vou apontar apenas aquilo que me incomodou mais (o que incomodou menos deixarei de fora). Só há um meio possível de expressar a ruindade da obra, e ela deve ocorrer por meio de "porquês". Vamos lá.

- Por que, ó Peter Jackson, você estendeu tanto o segundo filme?! Era plenamente possível encerrar toda a pataquada que você criou em apenas dois filmes. Você fez um verdadeiro coito interrompido com a questão do dragão Smaug no segundo filme para, agora, resolver tudo em 10 minutos.

- Por que, ó Senhor dos Filmes Longos, você pensou que duas horas de uma batalha que dura poucas páginas seria tão interessante para a plateia? Necessitava tanto torrar dinheiro com computação gráfica?

- Por que, ó Magnânimo Adorador de Tolkien, você simplesmente distorceu aquilo que é principal no livro: experimentarmos a Terra-Média através dos olhos de Bilbo Bolseiro? Somente no primeiro filme é que Bilbo tem destaque. Nesse último, em especial, ele nem precisaria aparecer. Foi um desperdício incrível da competente atuação do Martin Freeman (como Bilbo, ele se saiu um excelente Dr. Watson!).

- Por que, ó Mestre das Adaptações, você corrompeu uma das obras literárias mais belas, puras e graciosas já escritas em algo épico, falhando, também, miseravelmente em criar no espectador qualquer vontade de chegar em casa e assistir ao Senhor dos Anéis? O tom sério da trilogia d'O Hobbit é de embrulhar o estômago.

Outro ponto a ser destacado é a necessidade desnecessária de transformar o rosto de Dain Pé-de-Ferro em algo feito no computador. Por quê? Simplesmente, por quê?

Se há algo de bom neste novo filme é a sua duração: as quase 3 horas dos antecessores, agora se tornaram 2 horas e uns 10 minutos de tormento. O filme não tem história alguma, ele todo é uma sucessão de batalhas e decapitações (algo que praticamente, não ocorria nos filmes 1 e 2). Cansativo. Entediante.

Espero que o deslize imenso de Peter Jackson ao levar para as telonas a história de Bilbo Bolseiro não se repita em seus próximos filmes. Espero, sinceramente, que mais nenhum estúdio dê carta branca para Peter Jackson trabalhar com filmes que necessitem (ou que ele force) de continuações.

De tudo isso, uma questão paira no ar: " E se os filmes tivessem sido dirigidos por Guillermo Del Toro?" Pois é, nunca saberemos.

E eu achando que o filme novo das Tartarugas Ninja era a pior coisa que havia visto esse ano...



Alex Martire



Esse vídeo seria bem melhor:



Ou esse!




Garota Exemplar, 2014.


Creio já ter escrito em algum lugar por aqui que David Fincher é um dos meus diretores preferidos. Ele tem um certo dom para escolher roteiros complexos e destrinchá-los de modo ímpar. Para mim, o único deslize de Fincher até hoje foi o insosso "Millenium" (2011), que simplesmente parece fugir do tom de suas obras anteriores. Não que o filme tenha sido um desastre completo, mas, tratando-se de David Fincher, eu não espero nada mais que a excelência. Felizmente, ela está de volta!

Garota Exemplar é "Fincheriano" do início ao fim. Temos tudo o que consagrou o diretor: violência, reviravoltas, diálogos afiadíssimos... é um filme de "encher os olhos". E como toda obra boa de Fincher, é extremamente difícil escrever sobre ela sem entregar a trama. Vou tentar resumir, então, em apenas poucas palavras aquilo que vemos em tela durante a projeção: Nick Dunne ( o sem-conserto Ben Affleck) tem um casamento de 5 anos conturbado com Amy Dunne (a loira-porcelana Rosamund Pike); regado a desejos não concretizados e indícios de agressões verbais e físicas, a história do casal muda drasticamente quando, nas bodas de casamento, Amy misteriosamente desaparece de casa. A vida de Nick passa por transformações profundas quando passa a ser investigado pela polícia e julgado pela mídia e pela sociedade sobre o sumiço de Amy.

Falar mais do que isso estragaria o prazer em se assistir ao filme. E que prazer! É simplesmente delicioso ver um dos mestres do suspense novamente nos entregando uma obra praticamente impecável como Garota Exemplar. Se os filmes anteriores de Fincher são bastante psicológicos,  este explora um lado que não aparece tanto nos demais: a doença sexual. O filme é sobre sexo. O filme é sobre possessão. O filme é um tanto doentio também no modo como nos faz querer saber como aquilo tudo acabará. Fincher tem tanta segurança que joga a reviravolta do filme praticamente em sua metade e muda a história completamente, dando-nos uma outra visão de tudo. É um prazer quase sexual sentir que o clímax só virá mais tarde. O modo como monta a estrutura da obra colabora incrivelmente para isso: Fincher mistura trechos do diário de Amy com a cronologia de seu desaparecimento, nos colocando ora numa espiral, ora numa linearidade.

Antes de assistir ao filme eu havia lido que as interpretações de Affleck e Pike eram dignas de prêmios. Ok, não é para tanto. E a culpa, novamente, é a de Ben Affleck. Já abri mão dele, não tem mais salvação... Neste filme ele está um pouco menos pior, mas continua sendo aquele sujeito de uma face só. Felizmente, suas falhas são compensadas pelos atores coadjuvantes (como sua irmã e a investigadora policial) e, principalmente, pela encantadora Rosamund Pike, que consegue transmitir com veracidade os problemas que o amor pode gerar. Quase sempre coadjuvante na telona, acredito que Pike irá, daqui em diante, conseguir mais papéis de destaque, uma vez que provou, de vez, ser capaz de lidar com personagens extremamente complexos.

David Fincher dirigiu mais uma obra-prima. Garota Exemplar irá deliciar quem gostou de "Zodíaco" (2007), "Seven" (1995) ou "Clube da Luta" (1999). Certamente um dos melhores filmes que assisti esse ano e um dos principais na já excelente carreira de Fincher. Mais do que obrigatório.

Alex Martire


A Memória que me contam, 2013.



Um cinema de experiências e não político?


Propus-me a  um desafio, este resume-se e concretiza-se no estudo  da trajetória e a cinematografia da cineasta Lúcia Murat, ambas atreladas, pois como a cineasta afirma em entrevistas  seus filmes sobre a Ditadura Militar têm como ponto de partida suas experiências como uma jovem de classe média com pretensões revolucionárias, com uma presa política, vítima da tortura, esta um dos principais dispositivos utilizados pelo regime autoritário. Sendo que até hoje, apesar das medidas em prol dos Direitos Humanos  e das denúncias, mantem-se como um recurso recorrente e operante.

Escrevo aqui sobre o filme mais recente de Lucia,    A Memória que me contam, lançado no ano passado, assim como Quase dois irmãos (2005) e  Uma longa viagem (2011) uma das temáticas centrais é a  das  “utopias destruídas” de uma geração que resistiu ao regime político autoritário, e que buscava não apenas acabar com ele, mas de forma mais ampla uma sociedade mais justa, mais igualitária. É assim, que Lúcia consente a Revolução para sua geração, ela não se resumia apenas em derrubar o poder dos militares, mas transformar as estruturas remanescentes da sociedade brasileira. Lúcia e muitos de sua geração sonhavam e, o melhor de tudo, lutaram por uma “sociedade ideal”.

Lúcia resiste um pouco em definir o seu cinema como sendo político, apesar da dificuldade que encontramos de dissociá-lo dessa condição, e quem sabe objetivo.  A cineasta acredita que o termo seja mais apropriado para fazer referências a um gênero, do que propriamente a seus filmes. Para ela, os seus filmes não são continuidade de sua luta, mas muito mais de sua vida. Os seus filmes têm como fundamento as suas experiências no passado, principalmente, a da resistência à ditadura, por essa razão as situações associadas à violência, à diferença e à tortura são recorrentes em suas obras. Essas são situações limites que viveu e que acha impossível fugir delas. 

“Pelo resto da minha vida eu repito nos meus filmes as mesmas coisas de maneiras diferentes.”

Apesar de possíveis repetições, os filmes de Lúcia Murat  possuem singularidades que os diferenciam uns dos outros, há uma aproximação no campo temático, o uso do lúdico,  este interligado às idas e voltas – um trânsito dissonante, revelador, às vezes doloroso da memória. No entanto, sua obra corresponde a “propostas estéticas e buscas diferentes”, mesmo que eles digam respeitos a momentos passados de sua vida. 

Em A Memória que me contam  vamos conhecendo de forma gradativa a militante Ana, por meio das falas de seus antigos “companheiros”, que tentam no período contemporâneo lidar com a condição de terem sobrevivido à perseguição, à prisão e à tortura. Como declara Lúcia Murat e uma das personagens de seu filme, há um sentimento de culpa cercando esses indivíduos devido ao fato de terem continuado vivos, enquanto outros envolvidos na mesma luta que eles não tiveram o mesmo destino.

Sendo assim, a figura de Ana, ou melhor dizendo, a lembrança que eles têm de Ana é um dos  principais elementos que os mantêm ligados ao passado de resistência e militância política. A narrativa do filme estrutura-se a partir de flashes de memórias de seus personagens, por essa razão podemos dizer que ela é fragmentada,   descontínua  e parcial. Com molduras nostálgicas e afetivas. Há a dor da perda da amiga, mas há outra dor  de um  não lugar no mundo dessa geração de presos políticos, que apesar de terem se tornando pessoas bem sucedidas, sentem-se ora injustiçados, ora culpados. 

O revelar as histórias implica em mexer em um passado doloroso, que alguns não querem trazer à tona, não diria que Ana represente essa parte dolorosa do passado desses amigos ex-militantes contra o regime militar.  Ana de certa forma representa o que de bom existiu naquela época. Se por um lado,  eles reconhecem que não foram apenas vítimas, pois também usaram da violência como meio de defesa e como forma para tornar suas lutas mais efetivas, alguns deles reconhecem que na atualidade afastados de suas pretensões revolucionárias de outrora começaram a fazer política de fato. Entre os ex-militantes, encontramos profissionais bem resolvidos e com influência significativa na sociedade, por exemplo, um ministro. 

O filme apresenta como pano de fundo  questões ligadas aos “reparos” e buscas por verdade, esta longe de ser única, no que diz respeito aos impasses de lidar com as memórias da ditadura civil-militar na sociedade brasileira. As recusas e insistências de abertura dos arquivos, um novo momento da nossa história  iniciado com a implementação das Comissões da Verdade, as quais tentam lidar com os pilares: Memória, Verdade e Justiça.

Ana mantem-se jovem e bonita na lembrança de seus companheiros. Ela, na minha leitura, representa a utopia de outrora.

“Ana nossa eterna rebelde, que nos unia e de quem precisávamos!”

 Mas ela não sobreviveu. Ana confessa à amiga: “Minha identidade se foi nessa revolução perdida (...) Estou sobrevivendo a mim mesma!”

As utopias derrotadas e os sentimentos de injustiça  e culpa que aparecem no filme não fazem dele uma obra extremamente pessimista. As revoluções diferente daquela de meados e segunda metade do século passado assumem outras especificidades e pretensões em nossa sociedade contemporânea, cabendo a cada um de nós acreditar ou não, defender ou repudiar suas possibilidades e intenções.

Uma das vias possíveis no meu ponto de vista é a arte. O jovem Eduardo afirma: “Micro revoluções , explosões de afetos, insisto persisto, levo minhas artes para as ruas, é a minha revolução!”

Por mais que Lúcia Murat seja relutante em denominar os seus filmes como políticos, e que eles expressem a sua luta, diria, assim como a própria, que reconhece que o lidar com um passado traumático e continuar criando é incrível. Para ela, é uma maneira de lidar com a culpa, para mim a de continuar envolvida numa causa revolucionária, não aquela que buscava uma sociedade ideal, mas uma que recusa um hipócrita e conveniente esquecimento, que escancara uma história, que apoia-se na memória como experiência, fundamento e legitimação, por mais que o seu trânsito às vezes seja confuso e doloroso.


Cleonice Elias da Silva    


A Ilha de Bergman, 2006.


                                  Bergman sua Ilha, sua solidão, eterna juventude e seus demônios


Este filme comprei  entre outros em  um momento de impulso consumista, mas impulsos consumistas que resultam em compras de filmes e livros são altamente recomendáveis.  Não sou uma especialista em Ingmar  Bergman, ainda estou conhecendo pouco a pouco a sua filmografia, mesmo não sendo uma especialista da  produção Bergeniana uma coisa eu afirmo, seus filmes não são recomendados para domingos à tarde, quando estamos lamentando gradativamente a chegada da segunda-feira. 

Os filmes de Bergman por falta de um adjetivo mais apropriado são de uma densidade que nos fazem ficar indo e voltando a eles, buscando as melhores interpretações, as melhores leituras, todas essas no meu ponto de vista são tentativas inconclusas. Interpretações e leituras nem sempre implicam no conhecimento  de uma determinada coisa. Diante dessa minha constatação, fiquem  à vontade em discordar, o que nos resta e  nos rendermos  a nossas experiências como espectadores,  essas muito  únicas e muito particulares. Daí entre outros aspectos a  maravilha  do cinema. Li não sei direito onde uma declaração, acho que do Andrea Tonacci, - um dos ícones do nosso Cinema Marginal – que o cinema não deve ser encarado como um retrato da realidade – e de fato ele não é.

Minimizamos seus efeitos, seus valores, seus  significados, sua essência se o consentimos dessa forma.  De fato ele é a representação de uma  dada e pretensa realidade, mas acredito veemente que ele pode em maior ou menor escala nos ajudar a “lidar”,  compreendê-la  e conviver de forma mais amena com ela. Não sei se para vocês ?  Mas  para mim o cinema não é apenas uma  válvula de escape,  é  muito mais o meu lugar   de conforto  - um porto de chegada acolhedor que  me ajuda a  encarar e ler melhor a realidade ou quem sabe as  realidades que me rodeiam.

Sendo assim , não só os filmes de Bergman como dos demais cineastas que lidam com temáticas densas, existencialismo, dramas pessoais  etc; podem nos conduzir nesse processo. Mas é claro que cabe a cada espectador  optar em encarar o cinema como apenas uma diversão, não que isso seja ruim, mas aconselho experimentá-lo   também como um meio de “crescimento pessoal”. 
A Ilha de Bergman  (2004)  foi realizado por  Marie Nyreröd   e  exibido no Festival Internacional de Cinema de São Paulo no ano de sua morte, 2007. Lançado em DVD no Brasil pela Versátil.
 Na minha leitura o ponto de partida do filme é a solidão vivida pelo cineasta que resolveu por escolha própria morar na Ilha de Färö, para ele, nela ele sente-se cercado por outra realidade. A primeira vez que esteve na ilha foi em 1960: “Senti a estranha sensação de ter chegado em casa!”

Mas no transcorrer do filme essa solidão pareceu-me amena  e a história de vida do cineasta – suas lembranças  - seu entusiasmo com o cinema e com a vida a ofuscam, mas percebi que ele a considera  necessária para sua vida.

“Às vezes eu penso  que deveria ligar para alguém, mas depois deixo pra lá. Não há nada mais maravilhoso do que a solidão. ”

Com seus 88 esbanja muita  simpatia e coerência em todas as suas declarações. Desde jovem engajou-se com a causa do cinema,  dirigindo  no total  67 filmes, muitos deles para televisão, além disso,  Ingmar Bergman  escreveu  70 roteiros . Estes, para o cineasta, surgem geralmente quando ele vê uma imagem.  A história de  Gritos e Sussurros (1972), por exemplo, surgiu a partir de uma imagem  de um quarto de castigo com mulheres.

“Tanto em Persona (1966)  como em Gritos e Sussurros a criatividade veio me socorrer em situações difíceis (...) A criatividade de Persona salvou minha vida! Já no outro a criatividade foi confortante e tranquilizante” – afirma ele.  

Em 1944, realiza seu primeiro filme Tortura do Desejo  e em  2005 seu último,  Bergmanova Sonata,  um filme para televisão.

Os lugares de memória são revistados por ele em companhia de Marie Nyeröd, a partir desses espaços  que marcaram momentos  do passado do cineasta, histórias selecionadas por ele vêm  à tona, uma vez que a memória é seletiva e influenciada  diretamente por laços afetivos ou desavenças que não deveríamos, mas trazemos conosco. E acredito que tal aspecto influi nos relatos privilegiados pelo cineasta. Bem humorado  topou a proposta da cineasta de encenar algumas situações que remeteriam às vivenciadas em momentos de seu passado.

Sobre o filme Tortura do Desejo afirma:

“Quando realizei o meu primeiro filme, só gritei e briguei  não tinha nenhuma autoconfiança!”

Para ele,  Sorrisos de uma Noite de  Amor  (1955) foi um divisor de águas para sua carreira, um grande sucesso que rendeu bastante dinheiro, exibido em Cannes.  A partir de então segundo ele: “(...) Tive a oportunidade de filmar como queria!” Levando consigo sempre que possível sua câmera de  16 mm.
No decorrer do documentário  trechos de seus filmes são  exibidos de forma aleatória. E compartilha  com a cineasta eventos ocorridos no momento das filmagens de alguns  deles.

Bergman no decorrer de sua vida casou-se várias vezes, teve 9  filhos e sempre prezou pela sua juventude:  afirma que costumava  dizer que saiu da puberdade apenas aos 58 anos. Mesmo mantendo  esse espírito jovial que sempre esteve presente na forma como Bergman lidava com as situações de sua vida,  o assunto morte aparece no documentário. Reconhece que ela é um  fantasma que ora o ronda.  Em um determinado momento de sua vida fez uma lista com seus demônios, o pior dentre eles  é o desastre (quando as coisas não saem conforme o planejado)  e o medo, afirma sentir medo de tudo. Confessa que tem um gênio terrível e que é rancoroso: “Tenho uma memória de elefante!” O nada também o apavora, quando  sua criatividade e imaginação o abandonam: “(...) as coisas se tornam totalmente silenciosas e vazias.”

Recomendo demais  esse documentário para os que já são conhecedores  da obra de Ingmar Bergman ou para aqueles que assim como eu ainda estão conhecendo aos poucos.  Pois uma coisa é obvia as experiências vivenciadas pelos artistas influem diretamente na sua produção artística. Sendo assim, talvez possamos utilizar adjetivos mais apropriados  para caracterizar , assim como,  alguns termos com a ambiciosa pretensão de  “explicar”  seus filmes.

Cleonice Elias 

A Dama do Lotação, 1978.





A  Dama do Lotação:  a sexualidade feminina e a sua busca por satisfação 

Para quem não está inteirado da história do nosso cinema brasileiro,  não que isso seja um grande lapso, ou má conduta, talvez por falta de oportunidades e  incentivos de debruçar-se um pouco mais sobre a produção cinematográfica nacional, e quem sabe a latino-americana de forma mais ampla. O filme de Neville de Almeida  A Dama do Lotação (1978)  que contou com a produção e também a participação na escrita do  roteiro  de Nelson Pereira dos Santos  é umas das maiores bilheterias alcançadas pelo cinema brasileiro,  tem como protagonista  a exuberante Sônia Braga, e a trilha sonora  de Caetano Veloso.

Há tempos assisti a esse filme, e há tempos andava com vontade de escrever sobre ele ... 

Ouvi de uma professora querida no início deste ano, ela um exemplo de intelectualidade, de personalidade forte e  de estilo (adoro os modelitos que ela usa, os acessórios, e afins),  que  na vida a passividade  nem sempre é a melhor  opção para se “viver bem”. E eu aqui com os meus reflexos chequei acho que tarde, mas ainda em tempo a “conclusão” -  que o fazer e o não fazer implicam em julgamentos, leituras, especulações da mesma maneira.  Sendo assim, quando estivermos com vontade de fazer algo, façamos! Seja lá o que for esse algo!  O que os outros vão pensar ou vão dizer não pode nos privar  de seguir aquilo que achamos  que é o melhor para cada um de nós.  Cada pessoa funciona a partir de suas próprias lógicas, tem seus valores,  seus pontos de vista, e por aí vai.  Isso não é sentir-se superior a ninguém! É ser o que você é, e pronto! Mas podemos fazer tudo isso sem prejudicar uns aos outros!

 A felicidade não é um substantivo concreto, eu sei, ele é abstrato, mas abstrações muitas vezes podem nos ajudar a segurar a onda em momentos  nos quais  as coisas estão desestruturadas. Quando as palavras e atos esperados não vêm.  Mas ultimamente, desculpem a redundância, me enchi de coragem  e estou encarando a realidade super que de frente!

Enfim, vou   parar com a minha filosofia de botequim (essa sempre mais promissora se banhada a Heineken) , como o meu egocentrismo   e   resumir a história do filme. Apresento uma leitura muito rasa destacando elementos que mais chamaram a minha atenção, não me atendo aos aspectos estéticos. 

 Solange (Sônia Braga) é uma belíssima  mulher de uma classe social  abastada  e casa-se com  Carlos (Nuno Leal Maia).  Sinceramente, antes de escrever este texto não fiz uma pesquisa sobre os trabalhos realizados até o momento a seu respeito, mas no meu ponto de vista acredito que ele seja merecedor  de análises mais bem fundamentadas, pois aqui apresento uma leitura particular (a minha leitura, e apenas).

Em suma,  Solange não consegue ter uma vida sexual normal com o seu marido, e procura reverter essa situação,  busca conselhos com a mãe, a qual eu achei sensatíssima.

 “Quem não pode se satisfazer com um homem pode se satisfazer com outro, ou com outros (...)!”

Nas conversas com seu excêntrico  analista  afirma que  ama o marido. “O meu marido é tudo para mim!”. Mas que não consegue satisfazer-se com ele.

Eu esqueci  de mencionar que o filme lida com essas questões por um víeis  que tende a ser cômico, sem apelos profundos às  reflexões sobre a conduta humana, e muito menos críticas ácidas, como as de Von Trier, mesmo sendo o filme a adaptação de um texto de Nelson Rodrigues. No entanto, ele não deixa de ser provocativo.

Provocativo porque Solange diante da vida sexual mal resolvida com o marido sai à procura de aventuras meramente sexuais, sem qualquer vínculo de afetividade. Ela, que acho que é uma heroína dos anos 70, por ser danadíssima e corajosa a esse ponto, busca  realizações  sexuais, algo impossível de conseguir  com o marido. Ele a chama de fria. Mas vamos percebendo no decorrer do filme que de fria Solange não tem nada.

Sendo assim, ela sai  à “caça” e delicia-se com suas “presas”,  sortudas essas por sinal.

Carlos ao saber das “buscas” de sua esposa fica indignado e torna-se um “defunto vivo” e ela como sempre com seu figurino impecável – só que dessa vez um pretinho básico, vela pelo marido. Mas sem, é claro, parar de continuar aproveitando-se  das limitações espaciais dos transportes coletivos.

O que mais me agradou nesse filme é a maneira como Nelson e Neville lindaram com a temática  sexo por sexo, e pronto!  E o melhor sendo a personagem uma mulher, e o melhor de tudo ainda de “família”, e não entre as garotas de programa, sendo elas de luxo ou não. Ainda sonho com o dia que  elas sejam reconhecidas como profissionais  por aqui, como já o fizeram alguns países da Europa, mas esse assunto deixo para uma outra oportunidade.

Eu sei que nem todas de nós  somos tão “danadas” (uso o  termo com uma conotação positiva), e não temos a mesma coragem e até mesmo a necessidade de Solange. Mas estamos no século XXI (não estamos?) Vamos buscar satisfação! Seja com um fiel e comparecedor parceiro, ou com quantos o nosso bel  prazer achar necessário. 


Cleonice Elias 

Que estranho chamar-se Federico, 2014.




O homenageado é Fellini os presenteados somos nós


Sabe uma dessas experiências que a gente fica rememorando? Torcendo para que a cada rememorada os detalhes não se tornem opacos,  que a nitidez não se desvaneça, pois é, o filme de Ettore Scola,  Que estranho chamar-se Federico,  é uma dessas experiências.
Pela sutileza, pelo humor na dose certa, nem constrangedor, nem antiquado e muito menos desnecessário.

 Um filme ideal para um domingo à tarde, nesse momento em que a cidade de São Paulo passa por umas “pequenas turbulências”, mas turbulências  para o bem e para o mal são que ditam as dinâmicas das grandes ou pequenas metrópoles. Mas muitas delas não podem ficar sob panos quentes. Ando passado por uma fase de otimismo, conhecendo jovens  inteligentes, generosos, e outros adjetivos que andam me enchendo de motivação. 
Continuemos por aí cada um com seus métodos e meios questionando, porque as coisas estão muito longe de estarem perdidas!

Mas voltando para  Que estranho chamar-se Federico,  que tendo a acreditar que agradou os cinéfilos de plantão, pois  Scola explora de forma muito inteligente elementos estéticos e narrativos da sétima arte,  esta nem inferior ou superior as demais.

Com esse filme Scola não presta  apenas  uma homenagem ao seu  amigo Fellini, deixa uma marca na história do Cinema, sei lá, talvez eu  esteja exagerando. Optei antes de escrever este texto não ler as críticas até então já feitas para não ficar acanhada ou até insegura ao expor as minhas  impressões sobre o filme.

A montagem privilegia imagens de arquivos, fotografias,  trechos dos filmes do Fellini e encenações, ora tendendo mais ao “naturalismo” outras ao “teatral”. A fotografia transita entre o nostálgico, mas sempre belo preto e branco,  e o colorido vibrante, que muito remente às cores de Fellini.

Scola conta a história de Fellini de uma maneira bem peculiar, o que está em jogo não é uma linearidade, por mais que  exista a tradicional figura do narrador, sabe o tal sujeito onisciente? Só que na história de Scola ele tem mais privilégios que os demais:  não precisa pagar a conta.

Então, a partir dos recursos estilísticos mencionados   vamos conhecendo as buscas de Fellini tanto na juventude quanto na maturidade, o seu trânsito não apenas pelo mundo das artes, sobretudo,  pela vida “real”.  Nos diálogos  que ficam mais bonitos devido à sonoridade do italiano deparamo-nos com frases  que  mereceriam ser tatuadas.

Acho que nessas buscas de Fellini podemos perceber muitas coisas que estão por aqui fazendo parte de nós, ou até aquelas que podem vir a fazer.

Eu recomendo a experiência.



Cleonice Elias

Mulher de Verdade, 1954.


Uma  Amélia que de Amélia não tem nada!


Este filme eu tirei do fundo do baú, em outras palavras, é um filme que tem mais de 50 anos. Não. Não é um clássico de hollywood, nem um super surrealista, super  expressionista (...).  É um filme brasileiro produzido pelos estúdios Kino em parceria com a Maristhela, sendo o realizador um sujeito de grande importância, dentre outros, para a história do nosso cinema  - Alberto Cavalcanti.

O nome da película é Mulher de Verdade (1954)  divertido e até que bem  provocativo  para época em que foi realizado. 

O filme alinha-se em determinados aspectos com  os  “filmes musicais” produzidos pelos estúdios cinematográficos da  época tanto em São Paulo, quanto no Rio, nos quais  predominavam o tom cômico, histórias  tranquilas, que não “exigiam” tanto do espectador. Devido aos ossos dos meus ofícios há quase dois anos venho estudando outra vertente do cinema, ou como diria o incrível Salles Gomes  um outro “ciclo” do cinema brasileiro, por essa razão não tenho muito  a dizer sobre essas produções no momento, apenas  que: elas não são “obras primas” marcadas por descontinuidades narrativas, estéticas provocativas, modernas e com pretensões revolucionários,  e também não são “as mais políticas” dos filmes políticos do cinema nacional, mas merecem o nosso respeito.

Lá vem eu com as minhas pedras novamente.

Que atire a primeira pedra o ser humano pretensiosamente normal ou aquele  que vive bem por ai com a suas maluquices e esquisitices  que nunca cantarolou ou ouviu alguém  cantarolando ? 
 “Amélia  não tinha a menor vaidade (...) às vezes passava fome ao meu lado, e achava bonito não ter o que comer  (...)”. E por aí vai.

Então, pois é. Amélia é o  nome da protagonista da história de Cavalcanti, uma enfermeira dedicada, espirituosa e bonita.  Vou encurtar a história porque ela é um pouco longa. Amélia devido  às circunstâncias acabou  se casando com dois homens. Sim, eu disse dois.  O filme é bem divertido em um primeiro momento Amélia consegue  cumprir bem o seu papel de esposa no subúrbio  e em um bairro nobre da cidade de São Paulo.

Achei o filme como proposta temática bem interessante porque rompe com vários paradigmas e quem sabe até tabus, mas isso tudo de forma muito tranquila e despretensiosa. Talvez ele sirva de incentivo para algumas moças de nossa contemporaneidade que queiram   ter dois amores simultâneos, já conheci casos em que as coisas até que funcionaram – nunca os recriminei. Para todas que quiserem seguir pelos caminhos duplos de Amélia divirtam-se, e aproveitem da forma que ela fez, sem culpas, remorsos e hipócritas moralismos.

Fico por aqui na torcida. Dando um grande apoio moral.


Cleonice Elias 

Orgulho e Preconceito, 2006.





Este filme não é tão recente, mas  é o tipo de filme que vale a pena assistir quantas vezes  as nossas autossuficiências femininas, masculinas ou GLS  não estiverem  nem tão mais auto nem muito menos suficientes. 

 Ainda não consegui  arrumar um tempo digno, me culpo por isso,  para ler os  romances  da Austin, mas pretendo começar  essa  empreitada que certamente será  bem bacana,  esse projeto   está na minha lista de milhares de coisas que quero fazer o mais breve possível. Numa madrugada despretensiosamente  assisti ao Clube de Leitura de Jany Austin (Robin  Swicord, 2007), filme que indiquei para uma amiga querida, o qual ela adorou, filme que chamei de “bobinho” e fui repreendida por uma outra amiga querida. Inclusive,  foi essa quem me falou de Orgulho e Preconceito (Joe Wright, 2006),  acho que talvez eu tenha conseguido   sentir algo próximo daquilo que ela me disse sentir ao assistir esse filme.

Confesso que eu  nas minhas idas as locadoras (lugares onde há  algum tempo atrás as pessoas iam para alugar filmes para assistirem em casa) 70% dos meus filmes alugados eram as comédias românticas, mas fui gradativamente deixando-os de lado, pois  mulheres modernas  e bem resolvidas são donas de si, vão para onde querem e quando  querem, na hora que querem, sem  ou com alguém. E acabei as excluindo da minha vida.  De fato Orgulho e Preconceito jamais pode ser comparado às comédias românticas  bobinhas, que querendo ou não nós mulheres mesmo modernas  e mesmo bem resolvidas não conseguimos em determinados momentos de nossas vidas  ignorá-las.

Estamos vivendo  uma época de curtidas e compartilhamentos superficiais, volumosos e sem qualquer concretude. Por isso decidi, não quando assisti ao Orgulho e Preconceito, apesar de ter me rendido pela história e ter me dado conta que não sou  tão auto e nem suficiente quanto eu pensava ser ,   dar vazão para os meus sentimentos, de preferência os bons. Espero que aqueles que o tenham  assistido ou que venham assisti-lo passem por algo parecido.

O Amor nesse filme é multifacetado, por pouco boicotado, não entrarei em detalhes vale a pena assisti-lo.  É possível que muitos  de nós reconheçamos  nuances nossas  na Elizabeth (Keira Knightley), no Darcy (Matthew Macfadyen),  na Jane (Rosamund Pike), e talvez nos demais personagens da história.


Cleonice Elias

 
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