Impressões Recentes

A Viagem, 2012.


A Viagem é um dos grandes filmes que chegaram aos cinemas no fim desse ano (estreando no Brasil dia 11/1) e traz aquela velha discussão sobre as obras dos Irmãos Wachowski (um deles, agora, irmã). Muita gente acha que eles fazem o suprassumo do cinema contemporâneo, com suas obras repletas de filosofia e questões transcendentais. Quando precisam desenvolver suas ideais (e acham que não vai caber em um único filme de quase 3 horas de duração), eles fazem uma trilogia: assim nasceu Matrix, em 1999. E assim eles também assassinaram o filme em 1999, quando resolveram transformá-lo em uma trilogia. Adoro Matrix. De verdade. Acho uma ideia bem legal, mesmo que já tenha sido explorada antes algumas vezes no cinema e na literatura. O filme é excelente e deveria ter acabado nele mesmo, só fazendo-se um. Mas quiseram "dar respostas" e afundaram o barco: Matrix Reloaded e Matrix Revolutions (2003) são duas grandes obras do Cinema que nos ensinam como encher linguiça em dois filmes, esticando-se uma ideia ao máximo, fazendo perder toda a sua essência inicial. 

Felizmente, A Viagem é um filme só (até onde eu sei; e espero!). Os irmãos aprenderam que podem, sim, fazer uma lambança fútil em apenas um filme, sintetizando suas "maravilhosas" ideias que devem agradar aqueles que frequentam as sessões de auto-ajuda das livrarias. Vejam que "maravilhoso": A Viagem conta seis histórias paralelamente, mas que, de algum modo, se cruzam e se complementam. Temos uma aventura nos EUA de meados do século XIX, onde um rapaz aristocrata luta para libertar um escravo negro. Temos uma história de amor entre dois homens no período pós-Segunda Guerra na Escócia, sendo que um deles trabalha com um famoso compositor e, sob sua tutela, acaba por se tornar famoso ao compôr a sua sinfonia "Cloud Atlas" (de onde deriva o nome do filme, mas que não faz sentido algum no contexto da obra). Temos  um futuro muito, muito distante onde uma pesquisadora de outro planeta chega à Terra e ajuda uma tribo a encontrar um novo lar. Temos, em 2012, um grupo de velhinhos liderado por um editor que foge de uma casa de repouso. Temos uma jornalista que, em 1973, descobre uma trama envolvendo poderosos do ramo da energia nuclear. E, por fim, temos, em 2144 na Coreia, uma garota fabricada que lidera uma revolução e se torna uma espécie de deusa para aquele povo que vive no futuro muito, muito distante que já mencionei.

Não tenho nada contra sambas do crioulo doido. Até gosto. Mas o problema é que o filme dos Wachowski é prepotente demais. Quer ser profundo sendo raso. Quer ser inteligente confundindo. Quer se mostrar como algo extremamente filosófico, um "ciclo" do qual, pelo jeito, não podemos fugir nunca, mas se torna maçante. É um filme sobre carma, sobre como tudo está relacionado de acordo com nossas ações (em vidas passadas ou no presente). Aí tiveram a ideia "genial" de usar 6 historietas pra explicar isso (e sem solucionar muito bem, diga-se de passagem). Tudo se tornou um teste de paciência. Mesmo sendo visualmente incrível, A Viagem decepciona por querer ser mais do que realmente é. Por sinal, mais uma vez as "autoridades" que traduzem títulos de filmes aqui no Brasil fizeram um trabalho pífio: o título traduzido não tem sentido algum; seria a mesma coisa de começarmos a chamar filmes como "A História" ou "A Narrativa"... Esse é um filme que precisa ter o título original traduzido, mesmo que, na obra, a sinfonia não tenha importância alguma.

De mérito, apenas as maquiagens, que fazem com que os diversos papéis vividos pelos mesmos atores durante o filme (lembrem-se, o carma) ganhem uma realidade bem grande. E quando o que há de melhor num filme é a maquiagem...

Alex Martire



O Amante da Rainha, 2012.



Há muita choradeira sobre esse filme dinamarquês. Muita gente dizendo que é um romance típico, convencional, que não "passa de mais um". Também muitos torceram o nariz quando O Amante da Rainha ganhou o Urso de Prata de Melhor Roteiro em Berlim esse ano. Sinceramente, só acha "convencional" esse filme quem acredita que todos os filmes de época são iguais e esperam, sei lá, viagens no tempo, explosões, ou que apareça algum alien - se o Spielberg dirigir (rogo aos deuses para que não haja nenhum no vindouro Lincoln quando chegar aqui no Brasil). A verdade é: estamos diante de um magnífico romance de época com tudo a que tem direito: amor proibido, traições, riqueza e fotografia espetacular. O Amante da Rainha chega entre os finalistas aos 5 candidatos ao Oscar estrangeiro de 2013. E como sabemos que a Academia adora filmes assim, as chances de O Amante da Rainha levar a estatueta caso fique para a final é imensa.

Os méritos do filme dirigido por Nikolaj Arcel começam pelo simples fato de se narrar um episódio da história dinamarquesa: são raros os filmes de época escandinavos que chegam ao resto do mundo, então, por isso só, já valeria a pena assistir. Mas ainda há muitas qualidades nessa obra. A história conta o período em que a Dinamarca esteve à luz da Europa (perdoem o trocadilho...), quando os ideais do Iluminismo chegam à corte do Rei Christian VII( reinou de 1766 à 1808), que sofre de problemas mentais (possivelmente esquisofrenia), sendo bastante infantilizado e inapto ao governo o Estado. Os fatos se desenrolam contados por Caroline Matilda (ou Mathilde, quando chega à Dinamarca), a jovem inglesa filha do Príncipe de Gales que fora prometida ao trono dinamarquês e que, aos 15 anos, muda-se para a Dinamarca a fim de se casar com Christian. Logo no começo, Caroline percebe a deficiência do rei e tem de conviver com sua loucura, sendo humilhada e tendo de tomar conta do filho do casal, Frederick (Frederico VI, aquele que teve de enfrentar o Napoleão e perdeu a posse da Noruega), para manter-se presa à vida. Porém, sua existência toma novos contornos com a chegada de Johann Struensee, médico alemão que, ao medicar o rei durante sua viagem pela Europa, cai em suas graças e se torna doutor oficial da corte. Começa a haver um romance proibido entre Struensee e a Rainha, de onde nasce Louise Augusta, o estopim para desencadear uma série de eventos que vão resultar em dificuldades para todos os envolvidos e, principalmente, à Dinamarca.

O mais interessante do filme é que ele sabe dosar com perfeição o romance com a política: não é um filme que se esquece de tudo em nome do amor; tampouco, fica preso apenas a uma trama política pesada. É balanceado e isso faz com que suas quase 2 horas e 20 minutos passem bem rápido, prendendo a atenção, sem fazer com que o espectador durma ou deseje que acabe logo (aprenda, Peter Jackson). Confesso que desconheço a história da Dinamarca nesse período pré-Revolução Francesa (talvez pelo fato de os cursos de História nas faculdades daqui serem todos, infelizmente, "francófonos"), mas o filme serviu para despertar meu interesse pela figura de Struensee. Ele é um médico alemão profundamente imbuído de ideais iluministas, que carrega (ou melhor, esconde) consigo obras do Rousseau e do Diderot e escreve panfletos filosóficos anonimamente. Sua figura se sobrepõe a do rei: conforme vai ganhando confiança de Christian VII (e dormindo com sua esposa, claro), vai, cada vez mais, tomando poderes para si: graças a ele o Conselho da corte é dissolvido pelo rei, pois todas as leis ditadas pelo monarca esbarravam nos nobres que odiavam quaisquer mudanças que pudessem abalar suas vidas confortáveis, e Struensee fica como conselheiro, chegando até mesmo ao ponto de assinar decretos em nome do rei, ou seja, ele governa a Dinamarca! Struensee trouxe mudanças significativas para a Dinamarca como, entre outras, a diminuição das horas de trabalho dos camponeses, a proibição do castigo corporal aos camponeses por parte de seus senhores, o fim da tortura nos interrogatórios nas prisões e o fim da censura. Porém - e isso é muitíssimo bem construído no decorrer do filme - nem todas as mudanças acabaram por ser benéficas à própria corte: Struensee se vê inconformado ao ter de retomar a censura dos meios impressos quando começam a se espalhar panfletos acusando-o de dormir com a Rainha, gerando uma filha bastarda. Para piorar, o povo que antes aplaudia as atitudes e mudanças de Struensee, agora o condena a ponto de julgá-lo publicamente, mesmo com Struensee gritando: "Eu sou um de vocês!". A população de Copenhague, manipulada pela nobreza e pelo clero, se torna contra aquele que mais a ajudou, destruindo os ideais iluministas em seu próprio reino. 

O filme se completa com um elenco primoroso, principalmente quando falamos de seu trio principal de protagonistas. Mads Mikkelsen já é uma figura conhecida no cinema internacional, sendo seu filme mais recente o maravilhoso A Caça: ele interpreta de forma brilhante Johann Struensee, conseguindo passar todos os seus sentimentos principalmente pelo olhar. A linda sueca Alicia Vikander faz o papel da Rainha e, embora não roubando as cenas, cumpre com o que lhe é passado, me parecendo uma boa promessa para os próximos anos (espero ansioso para vê-la atuando na nova versão de Anna Karenina). Por fim, temos Mikkel Boe Følsgaard encarnando o rei Christian: embora sendo seu primeiro grande papel, o ator mostra uma atuação assombrosa, convencendo a todo momento que estamos diante de um rei fragilizado; não à toa, o ator recebeu o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim.

Primoroso. Essa é a palavra que me vem à cabeça quando penso em O Amante da Rainha. Um belíssimo filme de época que praticamente não tem erros de nenhuma espécie. Pessoalmente, eu gostaria que A Caça fosse o representante dinamarquês no Oscar 2013, por ser um filme mais ousado. Porém, do ponto de vista "acadêmico", a Dinamarca tem mais chances de levar a estatueta candidatando esse excelente filme. Pode até perder, mas já nos deu um grande prêmio ao nos presentear com um filme tão... primoroso.

Alex Martire






O Hobbit - Uma Jornada Inesperada, 2012.


Eis que chega aos cinemas o último grande lançamento de 2012 ("último" no sentido blockbuster, pois ainda falta As Aventuras de Pi e A Viagem - postergada para o início de janeiro aqui no Brasil). O Hobbit chega com status de gigante, em todos os sentidos: sendo exibido em salas gigantes, tendo público gigante e tendo duração gigante.

Antes de mais nada, devo confessar que sou muito apaixonado pela obra do Tolkien e já a reli várias vezes. Também adorei a trilogia do Senhor dos Anéis e a vi diversas vezes no cinema e tenho todas as edições lançadas em DVD e Blu-ray. Sou fã. Mas nem por isso fico cego aos problemas existentes tanto na trilogia antiga como nesse filme novo. É normal que existam problemas em filmes de grande porte e que envolvam somas astronômicas de dinheiro: isso deve ser relevado. O primeiro filme do Senhor dos Anéis tem um aspecto que sempre me incomodou, a edição: são cortes muito secos e não dá a mínima noção do quanto tempo que a irmandade ficou viajante pela Terra-Média. Felizmente, em O Hobbit não há esse deslize e tudo leva o seu tempo. Talvez tempo até demais.

A nova obra de Peter Jackson é um filme bom, que vale o ingresso. Mas fica por aí. Não adianta todo esse frenesi sobre o filme, com muita gente (ou fã fanático) dizendo que é um dos melhores filmes do ano. Não é. Está longe de ser e, infelizmente arrisco dizer, nem a trilogia, quando completada, será um marco no Cinema como foi O Senhor dos Anéis. Um dos principais problemas de O Hobbit está naquilo que, talvez para a maioria das pessoas, seja o seu grande mérito: a literalidade. É tudo muito literal, tudo muito baseado no livro - embora com algumas coisas a mais aqui e acolá. No geral, me pergunto: vale a pena fazer um filme que é quase uma transcrição do livro? Praticamente o tempo que você gasta lendo os 6 primeiros capítulos do livro equivale à duração do filme. O Hobbit, então, é um "livro em movimento". Muito bonito visualmente, muito longo cinematograficamente. Não chega a ser extremamente cansativo de assistir, pois prende a atenção, mas há muitos momentos que poderiam ser deixados de fora, pra tornar a narrativa mais fluida. Tirasse meia hora de filme, seria uma obra bem mais agradável.

Começa com a opção de Peter Jackson em conectar a trilogia antiga com essa nova. Desnecessário, mas é uma opção do diretor. Assim sendo, somos apresentados ao Bilbo velho um pouco antes da festa em que acontece seu sumiço na Sociedade do Anel. Nesses primeiros minutos (que poderiam ser mais curtos) Bilbo conta a história de como Smaug destruiu a antiga Erebor e afugentou os anões da Montanha. Tudo muito bonito e que ganha uma dimensão incrível quando visto em IMAX: achei ótima a reconstituição da cidade dos anões, embora no livro sempre apareça bem mais simples.Tendo narrado o prólogo, Bilbo começa a lembrar o seu primeiro encontro com Gandalf e é assim que o filme, de fato, começa. Há o famoso diálogo do "bom dia" entre o mago e o Bilbo de 60 anos atrás e isso é legal de ver na tela. Também é legal ver a chegada dos anões, embora eles tenham ficado mais parecidos com homens do que com o próprio povo: Thorin Escudo-de-Carvalho, por exemplo, em nada lembra um anão - está mais para a versão Aragorn em O Hobbit. E é aí que começam, pra mim, os grandes problemas no filme.

Quem viveu no planeta terra nos últimos 10 anos assistiu ao primeiro filme da trilogia d'O Senhor dos Anéis. E quem vai ao cinema assistir ao Hobbit, verá o mesmo filme! Incrível como Peter Jackson não teve vergonha na cara e usou a mesma estrutura narrativa do SdA nesse filme, incluindo tomadas idênticas. Sabe aquela batalha do começo do SdA entre elfos, homens e o exército de Sauron? Pois é, a batalha em Erebor no começo do filme é igual, com o voice over. Lembra de Moria, com a Sociedade fugindo pelos corredores e escadarias? É a fuga dos anões e Gandalf pelas Montanhas Sombrias. E quando Gandalf fica preso na torre de Saruman e conversa com a mariposa? Mesmo tendo essa cena no livro do hobbit, ela é filmada exatamente igual a dez anos atrás! Aquele esquema Condado-Floresta-Valfenda-Montanha com Orcs-Ermos se mantém também: não seria problema, pois no livro é assim, mas o desenvolvimento das cenas é praticamente igual ao de SdA. Ou seja: inovação narrativa não foi o que Peter Jackson quis. Uma pena... As vozes dos trolls e do Grão-Orc também são um problema sério, a meu ver: em nada lembram monstros: parecem apenas com homens normais. Vou pular comentários desnecessários sobre a inutilidade da figura de Radagast  e falar sobre aquilo que realmente me incomodou em O Hobbit: ele é sério demais. Tirando uma piadinha aqui e outra acolá, o tom do filme é muito pesado. Aposto que você, ao ler O Hobbit pela primeira vez, se divertiu com o livro escrito para crianças: é uma leitura agradável, leve, fluida, até mesmo bobinha - é um livro para se divertir sem maiores preocupações. Pois bem, Peter Jackson deixou isso de lado e apresenta um filme épico que, ao tentar tornar uma história simples em algo grandioso e sério, descaracterizou a obra que ele tanto quis filmar ao pé da letra. Deu um tiro no pé. Quer uma prova enorme sobre isso? Os animais não falam no filme! Muitos podem dizer "Ah, mas animais falantes, como no livro, vai tirar o tom realista da obra". E eu respondo: magos, elfos, anões, hobbits e anéis mágicos são realistas pra caramba, né?! O Senhor das Águias não fala nada (nem dá um pio, literalmente), e isso pode já revelar algo que acontecerá no desfecho do terceiro filme (ou no segundo, dependendo do teste de paciência que Jackson quiser infligir em seu público): o tordo que conta ao pé do ouvido de Bard como matar Smaug provavelmente não existirá. Até os wargs, que têm voz no livro, não falam nada no filme. Ah, é: isso se deve ao fato de O Hobbit ser um épico grandioso e sério.

Por fim, mesmo sendo um filme que não me agradou, é ótimo ver que estamos diante de mais uma revolução  tecnológica na História do Cinema, e em menos de 4 anos após a vinda de Avatar: os 48 quadros por segundo. É absurdamente lindo e impressionante ter uma espécie de quadro na parede do cinema, onde tudo se assemelha à realidade. A nitidez é embasbacante e o 3D se torna quase natural aos olhos. Esse, pra mim, é o grande destaque de O Hobbit: ele dividiu o cinema em antes de depois. A tendência é que os 48 fps cheguem pra ficar, pois trazem uma qualidade nunca antes vista, embora ainda necessite de alguns ajustes (há momentos no filme em que tudo parece estar em câmera acelerada). Saldo: O Hobbit não é um filme ruim. Ele funciona como filme e deverá agradar a muita gente. Mas esse "agradar", na verdade, é apenas uma repetição daquilo que já foi feito 10 anos atrás em termos de narrativa e até mesmo de enquadramentos. Nesse ponto, preciso me desculpar um pouco com o Christopher Nolan quando escrevi a impressão do filme novo do Batman: ao menos, Nolan só copiou a mesma história do primeiro filme - Peter Jackson copiou o filme todo.

Alex Martire






Amour, 2012.


Michael Haneke é um diretor bem curioso pra mim: a cada filme que lança, gosto de um e acho o outro chato demais. Tem sido assim com os últimos filmes que assisti dele: adorei Violência Gratuita (1997), odiei A Professora de Piano (2001) e Caché (2005), gostei ainda mais da refilmagem de Violência Gratuita (2007), não entendi nada do maçante A Fita Branca (2009), e fiquei encantado com este Amour, seu mais novo filme.

O filme tem abocanhado alguns prêmios ao redor do mundo (todos merecidos), dentre eles o de Melhor Filme na Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles e a Palma de Ouro em Cannes. A atriz Emmanuelle Riva também vem conquistando prêmios expressivos e não seria surpresa se aparecesse concorrendo ao Oscar 2013 (por sinal, seria uma concorrente extremamente forte ao prêmio). Em outras palavras, o filme tem competência de sobra tanto para agradar aos críticos de cinema como para adentrar a "alma" dos espectadores.

Amour é um filme mais leve do Haneke como muitas pessoas o tem descrito? Sim, é. Não tem a violência poética e maravilhosa de Violência Gratuita nem o desconforto causado por A Fita Branca, contudo, eu ainda o achei um filme bem pesado. Haneke leva 2 horas para construir e desconstruir o universo, pequeno, de um casal de octogenários vividos por Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Riva). Eles têm uma vida confortável em Paris, indo a concertos de piano (Anne era professora de piano - uma tara de Haneke, pelo jeito) e apreciando e colecionando quadros e livros; vivem em um amplo apartamento tomado pelo silêncio causado por um casal de velhinhos e banhado também pela luz do dia e da noite que atravessa a janela do corredor (juntamente com os pombos). Um simpático casal, de diálogo inteligente e muito amoroso. Porém, a situação muda drasticamente quando Anne dá sinais de que não está se sentindo muito bem, esquecendo coisas, ficando "perdida" por vezes: para piorar, a senhora sofre um derrame e a cirurgia pela a qual passa não tem sucesso - o que antes era uma senhora muito vívida, independente e alegre agora se torna uma pessoa com dificuldades locomotoras e tendo o lado direito de seu corpo parcialmente paralisado. O que é mais triste nisso tudo: a doença não tem cura e só piora com o tempo.

Com essa base, Haneke vai explorar o amor já bem realizado, aquele amor de um casamento jovem que durou décadas, aquele amor em que, envelhecer juntos, é a única coisa que o casal sabe. Embora a filha do casal apareça esporadicamente para ver como a mãe está e tentando convencer o pai a interná-la em um asilo para cuidados próprios, praticamente todo o filme é uma obra de dois atores. Dois fabulosos, estupendos atores. Emmanuelle Riva fez um estudo fenomenal sobre pessoas com deficiência locomotora e fragilidade mental: ela convence a cada minuto e, mais importante, nos emociona a cada instante. É bom avisar, Amour vai lhe fazer chorar, mas não é, em nenhum momento, um filme repleto de sentimentalismo barato, forçado. É extremamente triste e belo acompanhar os esforços de Georges para cuidar de Anne: dois velhinhos tendo de passar pelas dificuldades das doenças: algo que acontece com muitas pessoas. Georges dedica sua vida à Anne, a ama profundamente, e podemos ver como isso está presente em seus olhos assutados e compreensivos, e podemos sentir como o tapa que dá no rosto de Anne quando ela está na cama e, de certo modo, afirma que deseja morrer a viver daquele modo, dói mais em sua alma do que na da esposa. Haneke perturba o espectador, mas não de um jeito apelativo: ele mostra imparcialidade e nos faz perguntar se não faríamos a mesma coisa se estivéssemos na pele de um dos dois velhinhos.

Apesar de ser um belíssimo filme, não se pode louvar Haneke como original: e esse tem sido o centro daqueles que criticaram o prêmio dado em Cannes esse ano. A história já foi contada algumas vezes, incluindo o maravilhoso filme islandês Vulcão, de 2011, dirigido por Rúnar Rúnarsson. O final é praticamente o mesmo, com a diferença de que a obra de Haneke me parece mais profunda. Haneke, então, mostra os dissabores do amor quando ele atinge a etapa final de sua vida: não é fácil. Mas amar nunca o é.

Alex Martire





Pietà, 2012.



Pietà foi o grande vencedor do Festival de Veneza de 2012, abocanhando o Leão de Ouro. Ele dividiu muito a crítica, tendo gente que saiu da sala no meio de projeção vaiando e sendo aplaudido de pé por quem ficou. Muitos ficaram revoltados quando saiu o resultado do prêmio, dizendo que o filme não merecia tal honra. Pois bem, assistindo ao filme, eu seria um daqueles que aplaudiria, mas não sei se mereceu ganhar o prêmio, pois não assisti aos demais. De qualquer modo, é uma obra muito boa, no melhor estilo coreano.

E quando digo "estilo coreano", refiro-me ao modo com que tratam a vida: muito crua, muito real, sem  muitos enfeites poéticos. Quando são filmes dramáticos, são belos e levam um tempo a mais para serem contados - talvez até tempo demais -, mas não se tornam chatos. Quando são filmes policiais ou de vingança, aí a coisa se torna mais específica: não é todo mundo que tem estômago pra assistir a filmes assim, vide a trilogia da vingança (Mr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança) filmada por Chan-wook Park de 2002 à 2005. Pietà se enquadra nesse segundo caso: é um filme que choca pela violência, mas praticamente sem mostrar a carnificina - é uma violência quase toda social. 

O 18º filme de Ki-duk Kim é uma ode contra o capitalismo: poderíamos também assisti-la desse modo. Embora não fique claro no filme, provavelmente toda a ação ocorre em Seul, em uma de suas regiões mais pobres, formada por uma espécie de "cortiços de refugo", onde todos vivem a partir de serviços metalúrgicos oferecidos em suas pequenas lojinhas espalhadas por vielas lotadas de escombros e lixos: cenário que me lembrou muito aquele construído por Shin'ya Tsukamoto para o seu filme cyberpunk Tetsuo, de 1987. Nessa "cidade à parte", somos apresentados a Lee Kang-do, um homem de 30 anos solitário, que trabalha como cobrador de dívidas oriundas de empréstimos. Mas não é uma cobrança normal, dessas que a gente recebe por telefone: Kang-do vai até o local de trabalho do devedor para cobrar-lhe uma dívida que chega a ser até 10 vezes mais alta do que o empréstimo; vivendo numa região miserável, as pessoas não têm como quitar seus débitos; desse modo, Kang-do arruma um outro jeito de conseguir o dinheiro das pessoas, usando seus seguros contra acidentes e invalidez: para tanto, Kang-do causa um "acidente" à pessoa que deve, tornando-a aleijada. Tudo muito objetivo, pois Kang-do é um homem bem centrado. Ele atua em nome de um chefão agiota que, por sua vez, nunca pediu que o homem fizesse esse tipo de mal às pessoas. Kang-do, numa leitura  mais extremista, seria a representação do ideal máximo do capitalismo: conseguir o dinheiro a qualquer custo. Creio que fazer esse tipo de leitura torne o filme mais atraente, embora nada impeça o espectador de simplesmente ver Kang-do como um homem sem alma, frio e violento. Fica à vontade do freguês escolher o que pensar. O que importa aqui é o fato de Kang-do sempre conseguir cobrar sua dívida, não importando as consequências e, principalmente, sem pensar nelas.

Mas tudo (quase) muda quando entra em cena a figura de uma mulher, que aparece num certo dia dizendo a Kang-do que é sua mãe que o abandonou 30 anos atrás. E é aí que o filme ganha mais peso, se torna mais interessante e tenta fazer jus ao seu título. As pietà surgiram na Baixa Idade Média, sendo imagens que mostram a Virgem Maria segurando Jesus em seu colo após a crucificação. Talvez a mais famosa seja a escultura feita por Michelangelo em 1499, que está na Basílica de São Pedro, em Roma. Não entendo nada de religião (e não faço questão de entender), mas acredito que a Pietà (piedade) não seja bem um símbolo de redenção, como Ki-duk Kim quer nos mostrar. Ao menos, vendo a escultura não me parece que Maria está segurando seu filho que só fez coisas erradas (numa visão bíblica), mas se redimiu: ela apenas está segurando seu filho morto (assim eu vejo). Acredito que seja essa a causa de tanta polêmica em torno do filme: Ki-duk Kim quis mostrar que o assassino Kang-do também é santo, ou quis mostrar que Jesus foi um grande pecador?  De qualquer modo, há uma mudança significativa na vida do cobrador quando sua suposta mãe aparece. No começo ele a nega, mas aos poucos a sua solidão vai sendo preenchida pela figura maternal, a tal ponto de ele dizer que não sabe como viveria mais sem sua mãe. A mulher passa a viver na casa de Kang-do e não se importa com o fato de ele ser um assassino, mas ele decide se "aposentar" da profissão e se dedicar mais à vida com sua mãe. Tudo vai bem até que, um dia, o filho filosofa sobre o que é o dinheiro e o que ele traz: sua mãe responde: "Ele pode trazer a vingança". Kang-do nunca havia pensado nisso ou, se tivesse pensado, talvez nunca se importasse, pois era solitário. mas agora ele tem uma mãe e sofre com o medo de ver algum dos aleijados se vingando nela. 

O filme, então, entra em seu ato final e fica interessantíssimo. A opção de Ki-duk Kim para o desfecho não é original, mas é muito bem construída e chega mesmo a enganar o espectador (não vou dizer o que é para não estragar o prazer de quem ainda não assistiu). É muito legal ver Kang-do revisitando seu passado ao investigar aqueles que um dia foram "cobrados" por ele. Kang-do se dá conta de que destruiu a vida dessas pessoas, deixando-as ainda mais miseráveis. A vingança, então, se apresenta de modo muito pragmático, fazendo-nos pensar até que ponto é necessário ter coragem para nos vingarmos. Finalmente, Kang-do encontra um sentido em sua vida e, talvez na visão que Ki-duk Kim quis passar, se redime. Ele é o Cristo que foi crucificado pelo grande Mal do Capitalismo? Ele é a vítima da história? Talvez sim. Talvez não. Ki-duk Kim deixa que você reflita sobre o que deseja interpretar. 

E esse é um grande mérito para qualquer filme.

Alex Martire



A Caça, 2012.



Se a Dinamarca é um país marcado pelo inverno rigoroso, não podemos acusar o seu povo de ser frio. Como A Caça mostra, os dinamarqueses também têm o sangue bem quente quando se trata de questões delicadas. O novo filme de Thomas Vinterberg (o último foi o excelente Submarino, de 2010) é perfeito ao explorar a tensão existente que se origina em uma mentira e alcança níveis altíssimos, como está escrito no poster. Mas eu seria injusto se dissesse que o filme só é bom ao explorar essa temática de forma competente: A Caça é uma das obras mais completas que já tive prazer em assistir, aliando drama e tensão de maneira ímpar. 

Mads Mikkelsen é Lucas, um professor de Jardim de Infância que realmente gosta do que faz. Divorciado e lutando pela guarda de seu filho Marcus, Lucas divide seus dias entre o trabalho com as crianças e o encontro com os amigos, sendo Theo (Thomas Bo Larsen) o seu mais antigo e querido amigo. Theo, que é casado com Agnes, tem uma filha pequena, a Klara: menina que sofre com transtorno obsessivo-compulsivo. Tudo está tranquilo até o dia em que o irmão mais velho de Klara chega em casa com um amigo olhando fotos pornográficas na internet; os garotos chamam Klara e mostram as fotos à ela. Sofrendo com as discussões constantes entre Theo e Agnes, Klara encontra em Lucas uma figura querida, protetora, por quem desenvolve um carinho que vai um pouco além do normal. Certo dia, enquanto estava tendo aulas no jardim de infância, a menina dá um beijo na boca de Lucas. O professor a repreende e Klara não gosta nada disso: antes de sair da escola, no fim do dia, a menina diz à diretora que odeia Lucas; ao ter o motivo indagado, Klara fala que Lucas havia mostrado seu pênis a ela (como ela havia, anteriormente, visto nas fotos do irmão). A partir daí, o filme mostra como a vida de alguém consegue ser destruída por conta de uma mentira: Lucas, apesar das tentativas de explicação, é demitido da escola e, pior, se vê sendo julgado por toda a pequena comunidade de onde mora, sofrendo agressões morais, verbais e físicas, incluindo a de seu velho amigo Theo, que não acredita na inocência de Lucas perante sua filha. O que já era ruim, piora com a chegada de Marcus, a quem o preconceito da sociedade também é transferido. Lucas chega a ser preso para averiguações e, depois das investigações, é solto por falta de provas: pelo olhar da lei, Marcus foi absolvido. Contudo, a sociedade não aceita tal "veredicto" e continua a julgar Lucas (e seu filho Marcus, por extensão), depredando sua casa e o espancando publicamente. Na noite de Natal, Theo vai conversar com Klara em seu quarto, onde a menina afirma que tudo não havia passado de uma mentira. Repleto de arrependimento, Theo procura Lucas para conversar. O filme, então, dá um salto de um ano, e chega a outubro, quando Marcus, enfim, alcança a idade necessária para ter uma licença de caça. Todos estão bem e sorridentes, Lucas está de volta ao seio da sociedade, e então os homens saem para caçar na floresta. Porém, algumas marcas do passado nunca se apagam...

De forma brilhante, Vinterberg vai desenrolar essa trama em 2 horas de filme. A questão que fica no ar o tempo todo é: afinal, Lucas cometeu abuso sexual ou não com a pequena Klara? Pelo recorte do filme, fica claro que Lucas é inocente: não vemos nada de anormal em sua atitude. Porém, observando suas expressões e atitudes, podemos reparar que Lucas não fica tão abalado no começo das acusações: seu rosto não demonstra isso ou Lucas é um homem realmente forte, ou será que ele tem, sim, alguma culpa? Não dá para saber, resta ao espectador desconfiar ou não do homem. O filme, contudo, de maneira espetacularmente imparcial, vai partir do pressuposto de que Lucas é inocente e nos mostrar como o julgamento precipitado pode ser cruel e danoso a uma pessoa. Se pararmos pra pensar, podemos dizer "Ah, a população está sendo injusta contra Lucas, atacando-o, até mesmo fisicamente, dessa maneira", mas, olhando pelo outro lado - e se colocando na pele dos pais - quem teria sangue frio para aturar uma situação dessas, quem não gostaria de fazer justiça com as próprias mãos? Sendo Lucas inocente perante a Justiça, é justificado que ele seja espancado dentro de um mercado pelos funcionários? Não é esse o papel da Justiça, afinal: julgar a inocência ou a culpa de alguém e aplicar a sentença (ao invés da população o fazer)? A verdade é que esse caso simplesmente mina a vida de Lucas: ele se torna uma sombra do que foi. E isso vai ser mostrado muito bem na excelente cena da Missa de Natal, onde Lucas adentra a Igreja repleta de "inimigos" e agride Theo, forçando-o a olhar bem dentro de seus olhos e gritando "Você consegue ver alguma coisa?!"; inocência e/ou vida, já não há mais nada dentro desse homem. 

Magistralmente, Vinterberg vai mostrar o porquê de o cinema escandinavo não ser como o hollywoodiano no ato final de seu filme. Na cena da igreja tinha tudo para virar uma redenção, uma choradeira sem fim, com aquele final típico de todos se abraçando e admitindo seus erros, mas não é isso o que acontece: lidando com uma história humana, acima de tudo, Vinterberg joga o desfecho para a caça no fim do filme, mostrando que, apesar das aparências e das superfícies dos homens, há manchas internas que não se apagam, e que continuam a nos fazer julgar uns aos outros, mesmo que já tenhamos "desculpado" quem nos fez alguma coisa de grave. Brilhante.

Com certeza, A Caça faz o espectador sair com um leve sorriso no rosto. Um sorriso meio trêmulo, é verdade, pois se há alguma alegria em tudo o que se passou nas 2 horas, é a da satisfação de ter visto um maravilhoso filme. No mais, é uma obra pesada ao extremo, conduzida de forma a "martelar" na cabeça das pessoas por dias e, talvez, até mesmo para sempre. Dificilmente quem assiste à A Caça vai esquecer do filme. Vinterberg fez um dos melhores filmes de 2012, e será injusto se, ao menos, não concorrer ao Oscar estrangeiro em 2013. Agora é contar os meses para que ele lance, novamente, mais uma obra-prima nos cinemas!

Alex Martire


Frankenweenie, 2012.



Eis que chega aos cinemas o segundo filme de Tim Burton nesse ano. A pergunta que faço é: nós merecemos isso? Se fossem dois filmes maravilhosos, certamente a resposta seria "Sim, sim!", mas não é esse o caso... Depois do horrendo Sombras da Noite (que veio logo após o execrável Alice no país das Maravilhas), eu esperava a redenção de um dos meus diretores preferidos com Frankenweenie, mesmo se tratando de uma refilmagem. Mas não foi dessa vez...

Creio que o grande problema de Frankenweenie seja a história mesmo, muito fraquinha. Desde que o original foi feito, em 1984 - mas só lançado em 1985, pois a Disney não achou "apropriado" exibi-lo antes do relançamento de Pinóquio nos cinemas -, ele se mostrou um filme meio sem sal. Tudo bem que é uma declaração de amor aos filmes clássicos de terror da Universal, tudo bem que é uma releitura da obra de Mary Shelley, mas não é um filme burtoniano: é meramente uma história refeita com outro personagem, o cachorro. O original também conta com problemas sérios de edição, que avançam a história demais, causando um desconforto anormal, mesmo que se tratando de um curta metragem. Enfim, a Disney não gostou na época, Tim Burton não gostou de não terem gostado, e o casamento entre o funcionário criativo e "estranho", um prata-da-casa formado no CalArts, e a Disney, acabou ainda na década de 1980. A relação só foi retomada com a produção de Alice no País das Maravilhas, em 2010: ou seja, era melhor terem continuado brigados. Com o sucesso absurdo de bilheteria do novo filme da menina loira, a Disney bancou a versão nova de Frankenweenie que Burton já vinha preparando há um tempo e deu carta branca ao diretor.

Para quem não viu o original (que consta como extra na edição especial de O Estranho Mundo de Jack, 1993), a história é a seguinte: na época em que o sonho americano transbordava, a família Frankesntein vivia feliz com seu cão (um pitbull) Sparky. Victor, garoto dono do cão, gostava de lançar bolas de baseball para o cachorro apanhar; porém, certo dia, a bola vai parar no meio da rua e o bicho é atropelado. Triste com a perda, o menino encontra esperanças ao ver as aulas de ciências na escola, onde o professor mostra como a eletricidade pode movimentar o sistema nervoso de cadáveres. Victor desenterra Sparky e monta um pequeno laboratório no sótão de sua casa onde, com a ajuda de relâmpagos, revive o costurado cãozinho Sparky. Seus vizinhos não aceitam tamanha bizarrice e passam a perseguir Sparky, que acaba refugiado no moinho velho da cidade. Então ocorre um final no melhor estilo Frankenstein.

Tudo isso em uns 30 minutos. E nesse tempo, funciona muito bem. Contudo, Burton dividiu essa história em algumas partes e, entre elas, realmente "encheu linguiça" para transformar num longa de 87 minutos. Se a história original não empolga, ao menos elas não sofre de tédio, pois é curta. Isso não ocorre com a nova versão: o filme parece longo demais e, tirando uma ou outra parte interessante e/ou engraçada (que são poucas), muitas vezes o filme se torna chato. Obviamente, para fazer "render" a obra, Burton teve de criar outras historietas, incluindo alguns personagens, amigos de Victor. De todos eles, tirando o seu "colega" Edgar (o Igor dos filmes de terror), o que mais me chamou a atenção foi a garota Garota Estranha (isso mesmo, Weird Girl) e seu gato, que dão um tom engraçado ao filme. Victor Frankenstein também é interessante, mas parece demais com a versão infantil de Victor Van Dorst de A Noiva Cadáver (2005): além de deixar claro que Tim Burton só sabe usar um nome para seus personagens... O cão Sparky ficou ótimo em stop-motion, lembrando demais o bicho do desenho Vida de Cachorro (que envolve Burton também), e ele vale o ingresso para assistir ao filme. Porém, acho que o grande deslize da obra está em seu terceiro ato: a opção de Burton em trazer outros animais-monstros à tela quebra totalmente o (pouco) encanto do filme original: é a velha mania da Disney de querer criar ação épica no fim de seus filmes.

Afinal, Frankenweenie vale ou não a pena de pegar filas, pagar caro pelo ingresso e testar a paciência dentro da sala de cinema com uma plateia ignorante que não para de falar? Eu diria que vale, mas mais por questões técnicas e saudosistas do que pelo filme em si. As referências aos filmes de monstro da Universal são bem interessantes e vão trazer um sorriso ao rosto dos que já viram. Porém, o que para mim é mais chamativo, é o fato de ser um filme preto e branco em 3D (não em recordo de já ter visto um): o efeito tridimensional ganha uma sutileza diferente de quando os filme são coloridos, e cansa bem menos os olhos (mas isso, acredito, é graças ao bom trabalho da equipe da Disney na resolução dos problemas de paralaxe). Dos três últimos filmes de Tim Burton, Frankenweenie é o menos pior. Daqui pra frente, Burton deve ficar atento ao que faz: Sombras da Noite foi um fracasso de bilheteria e Frankenweenie segue no mesmo caminho. Agora Burton deve escolher entre fazer um filme ruim mas que renda algum bilhão de dólares (como Alice...), ou um filme genial mas que não traga quase dinheiro (como Peixe Grande, 2003). Creio que, para poder continuar a fazer filmes, Burton vai abraçar a primeira opção, já que seus filmes realmente bons nunca trouxeram muito dinheiro aos cofres das distribuidoras. Esperar para ver...

Alex Martire





A Malvada, 1950.



Vamos falar tudo sobre Eve. 

O filme, merecidamente, é tido como um dos grandes marcos, uma das melhores obras cinematográficas já produzidas. Ele foi um verdadeiro "papa-prêmios", ganhando quase tudo em 1951; citando alguns: Oscar de Melhor Filme; Oscar de Melhor Diretor; Oscar de Roteiro Adaptado; Oscar de Figurino; Oscar de Melhor ator coadjuvante (George Sanders); BAFTA de Melhor Filme; Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York - Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz (Bette Davis); Globo de Ouro de Melhor Atriz (Bette Davis) e por aí vai... Dificilmente um filme que ganha prêmios tão importantes é ruim, e esse é o caso de A Malvada (mais uma "tradução" brasileira que poderia muito bem não ter existido).

O filme foi dirigido por Joseph L. Mankiewicz - irmão de Herman Mankiewicz, que ganhou o Oscar de Melhor Roteiro em 1941 por Cidadão Kane -, levando-o ao reconhecimento por parte da Academia em 1951. De todos os filmes que Mankiewicz dirigiu, talvez ele seja mais lembrado justamente por aquele que praticamente levou a Fox à falência no começo da década de 1960, o absurdamente monumental (e maravilhoso, diga-se de passagem) Cleópatra (1963). Se você já assistiu ao filme da rainha do Egito, sabe que Mankiewicz possui uma competência fora do comum para lidar com tramas emaranhadas sem deixá-las monótonas. 

A Malvada é toda centrada em 6 personagens e se sustenta nos diálogos (ok, já disse antes e vou repetir: tenho uma queda por filmes com diálogos inteligentes). Somos apresentados (ou mergulhados?) à história de Eve Harrington (Anne Baxter), atriz de teatro que se consagra com o prêmio Sarah Siddons. O filme, porém, é faz digressão enorme para contar como Eve conseguiu ganhar aquela honraria. Voltando alguns meses no tempo, vemos como Eve, uma moça maltrapilha, acabou conhecendo a famosa atriz de teatro Margo Channing (Bette Davis) em seu camarim. Contando com uma lábia impressionante, Eve se torna amiga de Margo em um grau bem distinto: praticamente sai das ruas para morar na mansão da atriz, auxiliando-a em seus afazeres, acompanhando-a em todas as apresentações, sendo sua secretária. E é aí que reside o problema: Eve é obcecada pela ideia de ser alguém na vida, tanto, que começa a tomar as rédeas da vida de Margo, inclusive se metendo no relacionamento entre ela e o diretor de teatro Bill Simpson (Garry Merrill). Porém, as coisas ficam mais sérias quando passa a manipular e chantagear o roteirista Lloyd Richards (Hugh Marlowe) e sua esposa Karen (Celeste Holm) para conseguir um papel nas peças de teatro. Uma vez atuando, Eve toma o lugar de Margo nas apresentações como substituta, ganhando destaque nos jornais graças ao crítico Addison DeWitt (George Sanders), com quem mantém algo que parece ir além de uma simples amizade. O trabalho bem realizado pelo crítico leva Eve a ganhar o prêmio Sarah Siddons e nos traz de volta ao começo do filme. Não apenas nos traz de volta, como se inicia um novo ciclo na vida de Eve (e no filme): ela é apresentada à jovem sonhadora jornalista Phoebe (Barbara Bates), garota que passa a agir como Eve fez com Margo, deixando o espectador com aquela sensação de "lá vamos nós de novo".

Em suas 2 horas e 20 minutos de filme, A Malvada prende a plateia pelo pulso. O que poderia ser um filme chato e cansativo se mostra algo muito, muito cativador, misturando romance e comédia na dose certa. Passado em New York, a todo momento a obra critica Hollywood, como se lá fosse o local que corrompe a alma das pessoas. Margo está sempre lutando contra a ideia de largar o teatro e ir para o cinema. O diretor Bill não recebe grandes elogios quando precisa sair de NY e ir para LA a fim de ajudar num filme. O início de A Malvada já deixa bem claro esse "descaso" com Hollywood: a narração em off de DeWitt diz: "Talvez desconheçam o distinto prêmio Sarah Siddons. Foi poupado o sensacionalismo e honrarias duvidosas como os do Prêmio Pulitzer e outros mais, concedidos anualmente por aquela... sociedade cinematográfica". Esse é o grande trunfo de A Malvada: jogar no mundo do teatro aquilo que também é vivido em Hollywood, esse mundo-cão das grandes estrelas, com seus egos e puxões de tapete. E para tanto, Mankiewicz não podia ter se servido melhor de atores e atrizes consagrados. Dentre todos (um elenco afiadíssimo, perfeito), obviamente se destaca a musa, a maravilhosa Bette Davis: com sua cara de bêbada e olhos esbugalhados, Bette Davis é uma das melhores atrizes que já viveu, atuando em mais de 120 filmes; ela consegue deixar de existir para poder viver um papel, e isso é o melhor elogio que pode ser feito a um ator. Impecável, Bette Davis é a alma do filme, mesmo com ele se propondo a contar tudo sobre Eve. Para completar, num papel que não tem muita importância na trama, temos a rápida aparição dela, a Deusa Loira, a mulher que todo homem já desejou, Marilyn Monroe, como Srta. Casswell. Incrível como Marilyn consegue colocar qualquer um a seus pés: aquele rosto de anjo com um jeito ingênuo, quase bobo, simplesmente rouba todas as (poucas) cenas em que aparece. 

Marilyn fica ainda mais bonita com o capricho na conversão do filme para blu ray: não me recordo de ter visto até agora um filme P&B tão perfeito. Praticamente não há granulados e em nenhum momento há "borrões" nos cantos. Enfim, perfeição em 1080p. Uma perfeição mais do que merecida para esse filme grandioso que, por sua vez, merece estar na lista das melhores obras já feitas para o Cinema. Mais do que um filme recomendado, é necessário.

Alex Martire






 
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